A necessidade de a Otan acertar com a Rússia

Wolfgang Ischinger e Ulrich Weisser*

  • AP - 09.jun.2010

    O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, durante a reunião do Conselho de Segurança em Moscou

    O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, durante a reunião do Conselho de Segurança em Moscou

No encontro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Estrasburgo, em abril de 2009, um grupo de especialistas chefiado por Madeleine Albright foi orientado para preparar o terreno para um novo “conceito estratégico”. O relatório do grupo, apresentado recentemente, destaca corretamente que as condições para nossa segurança comum mudaram fundamentalmente desde que o último conceito estratégico foi apresentado, em 1999. Desenvolvimentos-chave precisavam ser levados em consideração – o 11 de Setembro, o enfraquecimento do regime de não-proliferação nuclear, a pirataria, os riscos de energia e outras questões de segurança. Acima de tudo, há a necessidade de estabelecimento de um relacionamento estratégico com a Rússia.

O relatório destaca o valor de alguns princípios-guia – como o papel central da Otan de proteção da liberdade e segurança de todos seus membros; o fato de que um ataque contra um é um ataque contra todos; a necessidade de manter um elo transatlântico forte; e o entendimento comum de que o compartilhamento equitativo dos riscos e responsabilidades é um pré-requisito importante para a coesão da aliança.

Mas o relatório não chega a fornecer um mapa para o futuro conceito estratégico da Otan. Isso fica mais óbvio em relação ao desafio central da Otan, o desafio de acertar sua posição em relação à Rússia. Lamentavelmente, diferenças fundamentais entre alguns novos membros no Leste Europeu e na Europa Ocidental sobre como lidar com a Rússia não foram superados. O grupo de especialistas tenta superar as diferenças estendendo a mão à Rússia, mas sob a condição de qualquer engajamento construtivo teria que se basear em garantias militares dentro da Otan. Isso significaria que as atividades de planejamento de defesa – contra a Rússia – permaneceriam na agenda da aliança.

Mas como a visão expressa no mesmo relatório – a de que a Otan não é uma ameaça à Rússia, nem a Rússia à Otan – pode ser conciliada com a continuidade das atividades de planejamento de defesa contra a Rússia? O relatório não oferece uma resposta estratégica às propostas para segurança europeia de Dmitri Medvedev.

Apenas se a Otan conseguir acertar sua posição em relação à Rússia é que esta deixará de ser uma fonte permanente de atrito entre os membros da Otan. Apenas se a Otan conseguir entender a Rússia é que uma arquitetura de segurança europeia sustentável surgirá.

A Rússia deveria, como foi sugerido, ser convidada a se tornar membro pleno da Otan? Obviamente, a reafirmação de que a política de portas abertas da Otan se aplica à Rússia tanto quanto a qualquer outro país europeu poderia ser um sinal importante. Mas isso não resolveria o desafio a curto prazo de desenvolvimento de confiança entre Washington, Moscou e Bruxelas.

Este é o motivo para precisarmos de projetos concretos para substituir a suspeita por um clima de cooperação. Uma proposta, apresentada recentemente ao secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, trata do desenvolvimento conjunto de um sistema de defesa antimísseis. Outras ideias estão sendo exploradas no relacionamento UE-Rússia assim como no contexto bilateral alemão-russo.

Um campo adicional de cooperação poderia ser o controle e desarmamento de armas nucleares e convencionais. O grupo de especialistas sugere a manutenção da dissuasão nuclear em um nível mínimo, mas sem oferecer qualquer proposta específica para um processo de controle de armas nucleares subestratégicas, que poderia complementar o controle dinâmico de armas estratégicas iniciado recentemente por Washington e Moscou.

Finalmente, confiar a discussão da segurança à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa e ao chamado “processo de Corfu” quase certamente levaria a um beco sem saída. Enquanto a Otan considera suas futuras prioridades estratégicas, uma certa diplomacia criativa poderia contribuir muito para uma estrutura de segurança europeia mais sustentável. Por exemplo, por que não ressuscitar o formato clássico de grupo de contato – os ministros das relações exteriores dos Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, talvez a Polônia, e mais a União Europeia e a Otan? Ou um formato menor, composto pelos ministros dos Estados Unidos, Rússia e União Europeia, mais o secretário-geral da Otan, seria uma forma mais eficaz de lidar com a Rússia?

Nós podemos preparar o terreno para um encontro de cúpula da Otan em 2010 e para um conceito estratégico diante do qual Moscou possa reagir de forma construtiva? Poderíamos possibilitar a presença da Rússia na cúpula de Lisboa? Será que conseguiremos nos aproximar um pouco mais de uma Europa inteira, livre e unida?

*O embaixador Ischinger é presidente da Conferência de Segurança de Munique e um ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Alemanha. Ulrich Weisser, um almirante reformado, serviu como diretor de planejamento de políticas do Ministério da Defesa da Alemanha.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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