Na Suécia, pais ganham espaço na vida familiar com licença anual

Katrin Bennhold

Em Spoland (Suécia)

  • Getty Images

    Direitos iguais na Suécia: com licença paternidade, pais suecos ganham espaço na vida familiar e não querem ser lembrados apenas por seus empregos

    Direitos iguais na Suécia: com licença paternidade, pais suecos ganham espaço na vida familiar e não querem ser lembrados apenas por seus empregos

Mikael Karlsson tem uma moto para andar na neve, dois cães de caça e cinco armas. Em seu tempo livre, este soldado que virou guarda carcerário caça alces e troca dicas com outros pais sobre como levar as crianças a deixarem as fraldas. Com a filha Siri, de dois meses, nos braços, nem pensou em não tirar licença paternidade. “Todo mundo tira”. Desde o moderno centro de Estocolmo até esta aldeia na floresta ao sul do Círculo Polar Ártico, 85% dos pais suecos tiram licença paternidade. Os que não o fazem, são questionados por familiares, amigos e colegas. Enquanto outros países ainda têm dificuldades em estabelecer a licença maternidade e o direito das mulheres, a Suécia talvez seja um vislumbre do futuro.

Nesta terra de lendas vikings, os homens estão no centro do debate de igualdade dos sexos. O ministro das finanças, que usa rabo de cavalo e é de centro-direita, diz-se feminista; os anúncios de produtos de limpeza raramente mostram as mulheres como “donas de casa” e as creches proíbem livros com estereótipos de gênero em personagens animais. Por quase quatro décadas, os governos de todos os matizes políticos instituíram leis para dar às mulheres direitos iguais no trabalho –e aos homens direitos iguais em casa.

As mães suecas ainda tiram mais tempo com os filhos do que os pais –quase quatro vezes mais. E algumas que achavam que queriam que seus maridos ajudassem a criar os filhos agora se vêem querendo passar mais tempo em casa.

Contudo, as leis que reservaram ao menos dois meses da licença parental de 13 meses exclusivamente para os pais –uma quota que poderia duplicar após as eleições de setembro– geraram mudança social profunda.

As empresas passaram a esperar que os funcionários tirassem licença parental, independentemente do sexo, e não a penalizar os pais nas promoções. Os contracheques das mulheres estão engordando e a mudança nos papeis dos pais é considerada uma das causas da redução dos índices de divórcio e do aumento da custódia partilhada dos filhos em casos de separação.

Talvez o exemplo mais impressionante da engenharia social seja o fato de uma nova definição de masculinidade estar emergindo.

“Muitos homens não querem mais ser identificados apenas por seus empregos”, diz Bengt Westerberg, que há muito se opôs às quotas, mas como vice-primeiro-ministro iniciou a licença paternidade de um mês em 1995. “Muitas mulheres hoje esperam que seus maridos tirem ao menos algum tempo para passarem com os filhos.”

Birgitta Ohlsson, ministra de assuntos europeus, explica da seguinte forma: “Os machos com valores de dinossauros não chegam à lista dos 10 mais atraentes nas revistas femininas”. Ohlsson, que fez lobby junto aos governos da União Europeia para que dessem mais atenção aos pais, está grávida de oito meses, e seu marido, professor de direito, vai tirar licença quando o filho nascer.

“Agora os homens podem ter tudo –uma carreira de sucesso e serem pais responsáveis”, acrescentou. “É um novo tipo de masculinidade. É mais integral.”

De volta a Spoland, Sofia Karlsson, policial e esposa de Mikael Karlsson, disse que acha seu marido mais atraente “quando está na floresta com o rifle no ombro e o bebê nas costas”.

Neste novo mundo, algumas mulheres reclamam que os suecos são politicamente corretos demais para flertarem em um bar. E alguns homens admitem ocasionais sentimentos de insegurança. “Sei que minha mulher espera que eu tire licença paternidade. Mas se eu estivesse em uma ilha perdida com ela e o Tarzan, será que ainda me escolheria?”, disse um proeminente jornalista de rádio que recentemente tirou seis meses com seu terceiro filho e que pediu anonimato.

Em 1974, quando a Suécia se tornou o primeiro país a substituir a licença maternidade por licença parental, os poucos homens que aproveitaram a oportunidade foram apelidados de “pais de veludo”.

Apesar das campanhas do governo –uma mostra um campeão halterofilista com um bebê pendurado em seu bíceps- a participação dos pais nas licenças estava parada em 6% quando Westerberg entrou para o governo, em 1991.

A Suécia já avanço muito em relação aos outros países no sentido de aliviar as mulheres que trabalham fora: as crianças têm acesso a creches altamente subsidiadas pelo governo a partir de 12 meses e os avós recebem atendimento geriátrico do governo. O pai ou mãe de licença recebe quase seu salário pleno por um ano antes de voltar ao emprego garantido, e ambos podem trabalhar seis horas por dia até os filhos entrarem para a escola. Os índices de emprego feminino e de nascimento subiram fortemente e estão entre os maiores do mundo desenvolvido.

“Sempre pensei que, se facilitássemos o trabalho da mulher, as famílias eventualmente escolheriam uma divisão mais igualitária da licença”, disse Westerberg, 67. “Mas gradualmente, me convenci que não havia tanta escolha assim.”

A Suécia enfrentava um ciclo vicioso, disse ele. A licença parental continuava sendo usufruída pelas mulheres não apenas pela tradição, mas porque seu salário muitas vezes era mais baixo, perpetuando as diferenças salariais. As empresas, enquanto isso, deixavam claro para os homens que ficar em casa com um bebê não era compatível com uma carreira.

“A sociedade é um espelho da família”, disse Westerberg. “A única forma de alcançar igualdade na sociedade é alcançar igualdade em casa. Fazer os pais a partilharem da licença é uma parte essencial disso.”

A introdução da “licença do papai”, em 1995, teve um impacto imediato. O pai não era obrigado a ficar em casa, mas a família perdia um mês de subsídios se ele não o fizesse. Logo, mais de oito em cada 10 homens passaram a tirar a licença. A adição de um segundo mês ao pai, não transferível, em 2002 apenas marginalmente aumentou o número de homens tirando licença, mas mais do que dobrou o tempo que tiravam.

Claramente, o dinheiro público se provou um incentivo –e um forte argumento contra os chefes relutantes.

Entre os autônomos e nas comunidades rurais e de imigrantes, os homens tiram menos licença paternidade, disse Nalin Pekgul, presidente da federação feminina do Partido Social Democrático. No subúrbio de Estocolmo onde mora, que tem uma população grande de imigrantes, os papéis tradicionais continuam intactos.

Contudo, os meses de licença do pai deixaram sua marca. Um estudo publicado pelo Instituto Sueco de Avaliação de Política de Mercado Trabalhista em março mostrou, por exemplo, que os ganhos futuros da mãe aumentam em média 7% para cada mês que o pai tira de folga.

Entre os que têm diploma universitário, um número crescente de casais divide a licença igualmente; alguns trocam de lugar a cada poucos meses, para evitar que um pai assuma o papel dominante –ou fique longe do emprego tempo demais. Quanto mais alto o cargo da mulher, mais ela age como os homens: poucos altos executivos tiram licença paternidade –tampouco as altas executivas.

Os pais podem usar seus 390 dias de licença paga da forma que quiserem até o oitavo aniversário da criança –mensalmente, semanalmente, diariamente e até por hora –uma flexibilidade que dificulta a adaptação dos empregadores, especialmente as pequenas empresas.

Enquanto a Suécia, com nove milhões de pessoas, fez uma decisão estratégica para ter mais mulheres na força de trabalho nos anos 60, outros países importaram mais homens imigrantes. Com o declínio das populações na Europa e novas ameaças de falta de mão-de-obra, os países estudaram o modelo sueco, disse Peter Moss, especialista em política de licença do Instituto de Educação da Universidade de Londres.

Os EUA –com impostos mais baixos e a tradicional aversão ao Estado se metendo em assuntos pessoais- não está entre eles. Portugal é o único país em que a licença paternidade é obrigatória –mas somente por uma semana. A Islândia foi mais longe, reservando três meses para o pai, três meses para a mãe e permitindo que os pais compartilhassem outros três meses.

A tendência, contudo, não está mais limitada a pequenos países. A Alemanha, com quase 82 milhões de habitantes, adaptou o modelo sueco em 2007, reservando dois de 14 meses de licença paga para os pais. Em dois anos, os pais que tiraram licença paternidade subiram de 3% para mais de 20%.

“Provocou uma mudança bastante significativa”, disse Kimberly Morgan, professora da Universidade George Washington e especialista em licença paternidade. Se a Alemanha pode, “a maior parte dos países pode”.

Se os sociais democratas vencerem as eleições suecas no dia 19 de setembro, como preveem as pesquisas de opinião, eles vão dobrar a licença não transferível para cada pai para quatro meses, disse Mona Sahlin, líder do partido que pode se tornar primeira-ministra da Suécia, a primeira do sexo feminino.

Sahlin, que teve três filhos como parlamentar e dividiu as licenças com seu marido, sabe que essa medida não é necessariamente popular.

“Algumas vezes, os políticos têm que estar à frente da opinião pública”, disse ela, observando como foi controversa a adoção do mês do pai e como hoje é algo totalmente esperado.

As menos entusiastas, de fato, frequentemente são as mães. Em uma pesquisa de 2003 da Agência de Seguridade Social, a razão mais citada pelos pais para não tirar mais licença paternidade, após as finanças, era a preferência das mães, disse Ann-Zofie Duvander, socióloga da Universidade de Estocolmo que trabalhava na agência na época.

Ann-Marie Prhat, da federação de funcionários TCO disse que estava determinada a partilhar sua licença com o marido. Após muitas discussões “praticamente assinamos um contrato –seis meses para mim e seis meses para ele”. Cinco meses depois, ela estava apreciando tanto ficar com o filho que pediu ao marido se poderia ficar mais dois meses. “No final, negociei mais um mês”, disse ela.

Oito em cada 10 pais agora tiram um terço dos 13 meses totais de licença –e 9% dos pais tiram 40% do total ou mais –subindo de 4% há uma década.

Os números tendem a parecer mais impressionantes nas áreas urbanas, como Estocolmo, mas há algumas surpresas. Devido às extensivas campanhas do governo, o condado de Wasterbotton, no Norte, onde vivem os Karlsson, teve repetidamente a maior média de pais em licença que a federação TCO publicam anualmente, disse seu presidente, Sture Nordh.

Para Carlos Rojas, 27, um empresário sueco-espanhol que dirige grupos de pais que fazem campanha para terem mais tempo em casa, o que há atualmente não é suficiente. Seus filhos gêmeos de dois anos, Julian e Mateo, chamam-no de Mama. Ele e sua agora ex-mulher licença parental alternando seus dias no trabalho e em casa.

Os pais que ficam em casa “ainda são muitas vezes considerados menos”, pois a mãe em geral fica em casa primeiro e estabelece a rotina, disse Rojas.

“Quantos pais cortam as unhas dos filhos?” perguntou, admitindo que não o faz. “Sei que ela vai fazer, então não me preocupo. Temos que superar isso, se quisermos realmente compartilhar a responsabilidade.”

Em Sodermalm, uma ilha da moda ao sul de Estocolmo, os dias em que os pais tiravam apenas dois meses claramente acabaram. Homens com carrinhos passeiam pelo parque, conversam nos cafés, fazem compras no supermercado ou pesam seus bebês em centros de atendimento infantil.

Claes Boklund, Web designer de 35 anos tirando 10 meses de licença com o filho Harry de 19 meses, admite que ficou assustado no principio: o bebê, a cozinha, a limpeza, as noites sem dormir. Seis meses adentro, ele está confiante com Harry (e corta suas unhas).

“É mais difícil e mais fácil do que se pensa”, diz ele.

A compreensão do que é ficar em casa com uma criança pode explicar por que os índices de divórcio e separação na Suécia caíram desde 1995 –em uma época em que o índice de divórcio nos outros países aumentaram, de acordo com o escritório de estatística nacional. Quando os casais se divorciam ou se separam, há mais casos de custódia compartilhada.

Fredrik e Cecília Friberg passaram a trabalhar meio período quando sua filha Ylva nasceu na noite do último Natal. Ele trabalha segundas, quartas e duas sextas-feiras por mês, sua mulher trabalha os outros dias. O fato dos dois serem servidores públicos ajuda. “Eu queria estar lá desde o início. Acontece tanto a cada semana, não quero perder nada”, disse Fredrik, 31.

De vez em quando, as antigas tendências da tradição retornam. “Recebo elogios sobre quanto eu ajudo em casa, já a Cecília não”, disse Fredrik.

Alguns, contudo, preocupam-se que os filhos possam ter uma crise de identidade de gênero pelo fato de tantos os homens quanto as mulheres trabalharem e ficarem em casa. “A masculinidade está sendo espremida” pela igualdade, argumentou Ingemar Gens, autor e consultor de sexo.

O contribuinte sueco também. Os impostos são 47% do PIB, comparados com 27% nos EUA e 40% na União Europeia. O setor público, famoso por dar benefícios à família, emprega um em cada três trabalhadores, inclusive metade de todas as mulheres. Os benefícios custam 3,3% do PIB, o mais alto no mundo, junto com Dinamarca e França, disse Willem Adema, economista da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Ainda assim, a Suécia parece bem equilibrada: o déficit público é de 2,1% do PIB e a dívida de 40%, uma fração da maior parte das economias desenvolvidas atualmente, testemunho talvez da administração fiscal nascida da crise bancária e recessão dos anos 90. A alta produtividade e o consenso político mantêm o sistema.

“Há muito poucas reclamações”, disse Linda Haas, professora de sociologia da Universidade Indiana, atualmente na Universidade de Gotemburgo. Com a creche em período integral garantida por, no máximo, US$ 150 (em torno de R$ 300) por mês e a licença com 80% do salário de até US$ 3.330 por mês, “as pessoas sentem que estão recebendo pelo que pagam”. As empresas, porém, não têm a mesma certeza, pois enfrentam a alta carga de impostos sobre as folhas de pagamento e ainda tem mulheres e homens tirando licenças em formatos imprevisíveis.

Histórias de funcionários sendo desestimulados a tirarem longas licenças não são incomuns, apesar de não serem bem vistas. Boklund disse que se escritório “não ficou feliz” com sua ausência estendida.

Bodil Sonesson Gallon, diretor de vendas da Axis Communications, empresa de IT que se especializa em vigilância por vídeo, admite que a licença pode ser complicada –para as carreiras e para as empresas. Ela lamenta que as creches comecem apenas aos 12 meses e a falta de alternativas para o cuidado do bebê, o que aumenta a pressão para os pais tirarem ao menos um ano de licença.

Pequenas empresas acham particularmente difícil lidar com as ausências, disse Sofia Bergstrom, especialista em previdência da Confederação Sueca de Empresas, que representa 60.000 firmas. Pior do que a licença parental, diz ela, é a permissão de 120 dias anuais para os pais cuidarem de filhos doentes. As faltas são impossíveis de planejar, e a prática é suspeita de abusos.

“A principal questão para as empresas é o planejamento”, disse Bergstrom.

Contudo, em um sinal que a mudança cultural mais ampla adquiriu uma dinâmica própria, uma pesquisa de Haas e Philip Hwang, professor de psicologia da Universidade de Gotemburgo, mostra que 41% das empresas informaram em 2006 que tinham tomado uma decisão formal de estimular os pais a tirarem a licença paternidade, subindo de 2% em 1993.

Alguns gerentes tentam usar ao máximo as vagas de curto prazo para testar possíveis recrutas. Outros dizem que planejar longas ausências é mais fácil e estimulam os pais a tirarem seis meses em vez de três. Um sistema de horas de trabalho flexíveis evoluiu. Mesmo altos funcionários podem sair do trabalho às 16h30 para pegar as crianças na escola, mas devem entrar on-line de casa à noite. Um número crescente de empresas paga para que, com a ajuda do governo, as pessoas recebam 90% dos seus salários em suas licenças de vários meses.

Para muitas empresas, um ambiente de trabalho bom para a família simplesmente se tornou uma nova forma de atrair talentos. “Antigamente, quem saía da faculdade procurava grandes contracheques. Agora querem um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal”, disse Goran Henriksson, diretor de recursos humanos da gigante de telefonia Ericsson na Suécia, onde, no ano passado, 28% das funcionárias e 24% dos funcionários tiraram licença parental. “Temos que nos adaptar”.

Tradutor: Deborah Weinberg

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