Massacres são cada vez mais frequentes em cidades calmas

Alan Cowell
Em Londres

  • Rod Minchin/PA Wire/ AP

    Derrick Bird, um taxista de 52 anos, matou 12 pessoas em um ataque de mais de três horas à zona turística dos Lagos, no Reino Unido

    Derrick Bird, um taxista de 52 anos, matou 12 pessoas em um ataque de mais de três horas à zona turística dos Lagos, no Reino Unido

Quando o derramamento de sangue ocorre próximo de conflitos, às vezes há um senso de cínica antecipação: bombas explodirão, balas serão disparadas, frequentemente em teatros de guerra ou privação, ou ambos; exércitos lutarão, militantes e combatentes poderão não ser as únicas, às vezes nem mesmo as mais numerosas, baixas.

O catálogo é generoso: Afeganistão, Iraque, Paquistão, Mumbai, Mogadício, Iêmen, Gaza, Israel, Ruanda, Congo, Darfur.

Mas o que acontece quando o derramamento de sangue não ocorre onde deveria ocorrer, em um local onde gerações construíram uma suposição de tranquilidade, acreditando que seus mundos privados lhes ofereceriam um paraíso duradouro?

Esses locais também formam uma lista de horror: o colégio Columbine no Colorado em 1999, e Winnenden, Alemanha, uma década depois. Em Dunblane, Escócia, o massacre ocorreu em 1996, quando Thomas Hamilton, 43 anos, matou a tiros 16 crianças e a professora delas. A lista não termina aí.

 Violência e confrontação, é claro, não reconhecem fronteiras formais –veja os nove mortos na semana passada, entre os ativistas pró-palestinos a bordo de um navio turco, o Mavi Marmara, que foi tomado por comandos israelenses em águas internacionais enquanto cruzava o Mediterrâneo, para desafiar o bloqueio de Israel a Gaza.

 Mas agora, para os britânicos, há uma adição, um novo lugar de “atos aleatórios, aterradores”, como colocou o primeiro-ministro David Cameron, no remoto noroeste da Inglaterra, ao longo da costa da Cúmbria, onde uma história bruta deu lugar a modos mais gentis.

 Uma grande usina nuclear fornece os empregos antes fornecidos pelas minas e siderúrgicas; uma marina de iates cresceu na cidade de Whitehaven, um porto que costumava lidar com carvão. Perto dali, no alto de vales profundos e tranquilos como Eskdale e Wasdale, o maciço central do lendário Lake District da Inglaterra se ergue como o centro de uma grande roda de raios ao redor de montanhas como Scafell Pike e Great Gable, Pillar e Bowfell, a mais alta e mais dura --apesar de longe de alpina-- reunião de picos do país.

 Foi diante deste cenário, a inspiração poética de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge entre outros, que Derrick Bird, um taxista de 52 anos, deu início a um massacre em 2 de junho, que parecia inicialmente inspirado por alguma lógica velada de queixa, quando atirou contra seu irmão gêmeo e o procurador da família.

Então, rápido demais para que a polícia o pegasse, ele deu início a um massacre inexplicável, mais desconcertante por sua brevidade. Em questão de horas, 12 pessoas morreram antes que ele atirasse contra si mesmo.

É difícil imaginar essas coisas nesses lugares onde as ruas são estreitas e as cercas vivas são espessas. Alimentada pela chuva, cuja persistência já foi digna do humor de salão, a relva luxuriante alimenta as ovelhas da raça Herdwick.

Mais próximo das montanhas, muros de pedra demarcam pastos; os sinais de celulares diminuem ou desaparecem. Nos pastos elevados, pessoas de várias idades, com trajes à prova d’água, botas resistentes, bastões de caminhada e mapas em grande escala mantidos secos em envelopes transparentes ao redor de seus pescoços, partem para conquistar os cumes ou passagens com antigos nomes exóticos –Sty Head e Black Sail.

A população da Cúmbria, disse um clérigo da região, é “dura como teca, gentil como cordeiros”. O massacre mudou essas qualidades. O idílico agora está maculado.

A odisseia mortal de Bird concedeu uma celebridade macabra a lugares sem grande desejo pela atenção de vans de televisão e repórteres –Egremont e Seascale, Gosforth e Wilton.

Em uma aldeia, ele atirou e matou um casal de aposentados sexagenários, Jennifer e James Jackson; em outro, um astro local de rúgbi, Garry Purdham. Por profissão, entre os mortos estavam um caçador de toupeiras em meio expediente e um motorista de ambulância aposentado, sem motivo algum. Bird tirou sua própria vida perto de um vilarejo chamado Boot.

Mas o massacre teve grande repercussão. No Reino Unido, esses acessos homicidas são tão raros, como observou o “Times” de Londres, que “nossas palavras não têm prática” para explicá-los. E a resposta entre a população estóica e melancólica parecia evocar um tempo anterior, quando o pesar dos britânicos não era expresso de forma tão pública quanto agora.

Nos últimos anos –particularmente desde que a morte em 1997 de Diana, a princesa de Gales, destravou uma aceitação nacional ao pesar público– muitos britânicos romperam com sua outrora reserva. É a forma como o Reino Unido moderno expõe os sentimentos antes mantidos escondidos, em busca de um consolo mais amplo.

“A cura desta dor terrível só virá com o apoio que dermos uns aos outros”, disse John Bannister, o pároco de Whitehaven, no serviço fúnebre na quarta-feira, falando para pessoas em roupas robustas sem frescuras, com os rostos calejados pela inclemência característica da Cúmbria.

Em outros lugares, não haveria nenhum olho seco na casa diante da contemplação de tamanha perda em lugares onde as pessoas se conhecem, ou ao menos se cumprimentam no mercado ou no correio, em cidades e vilarejos construídos tradicionalmente em torno do pub ou do púlpito.

Mas muitos presentes nesses memoriais pareciam manter sua tristeza trancada dentro deles, como se contemplassem o que Wordsworth chamou de “pensamentos que frequentemente residem muito profundamente para lágrimas”, mais à vontade com a reserva que antes alimentava os estereótipos de distinção entre os nortistas e seus compatriotas mais demonstrativos do sul.

Talvez aquela velha ética da discrição, de suportar a dor sozinho ou dentro do seio familiar mais próximo, atrás de portas fechadas, apenas tenha fortalecido a paixão sombria e oculta que cresceu dentro de Bird, transformando a queixa escondida em uma fúria incontrolável.

Mas a reserva britânica tem sido muito testada, na Cúmbria e em outros lugares em uma nação em guerra. Os soldados britânicos, assim como os americanos, lutam em frentes distantes, suportando baixas crescentes. Dias após o massacre de Bird, coincidentemente, uma cerimônia nos Midlands ingleses foi realizada para os soldados que morreram em 2009, muitos deles no Afeganistão.

“Mães, pais, filhos, filhas, irmãos, irmãs, viúvas e viúvos enxugaram suas lágrimas e tentaram controlar seus soluços enquanto os nomes dos 119 mortos eram lidos”, informou Claire Marshall da “BBC”.

Então, na quinta-feira, os funerais das 12 vítimas de Bird tiveram início na Cúmbria. E lágrimas também correram lá.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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