China ameniza discurso em busca de influência mundial

David Shambaugh*

Em Pequim (China)

  • Claro Cortes IV / Reuters

    Funcionários trabalham no centro de imprensa da China Central Television (CCTV) , em Pequim

    Funcionários trabalham no centro de imprensa da China Central Television (CCTV) , em Pequim

A nova diplomacia pública da China está crescendo para complementar a sua diplomacia tradicional. Os líderes chineses estão atravessando o mundo e recebendo líderes estrangeiros no país, mas as ações desses novos esforços de influência da China têm passado despercebidas.

Discussões aqui em Pequim indicam que o governo chinês está mais consciente das manchas em imagem internacional e está tomando várias medidas coordenadas para melhorá-la.

A pesquisa BBC/Globescan mais recente feita em 28 países mostrou, por exemplo, que a imagem global da China continua dúbia. Ela só permanece positiva na África e no Paquistão, enquanto que na Ásia, América do Norte ou América Latina é neutra ou ruim. Em toda a Europa a imagem do país é fortemente negativa.

Para tentar melhorar o perfil global da China e melhorar sua imagem fora do país, o governo chinês está investindo em várias atividades e instituições. Um novo Escritório de Diplomacia Pública foi inaugurado no Ministério de Relações Exteriores, enquanto o Escritório de Informações do Conselho de Estado está coordenando a mídia e as organizações de troca da China para “sair” (zou chuqu) e marcar território no ambiente da mídia internacional e no mundo dos analistas.

O governo chinês está investindo US$ 8,7 bilhões (R$ 16,18 bilhões) entre 2009 e 2010 em seu “trabalho de publicidade externa” - principalmente nas “Quatro Grandes”: a Televisão Central da China (CCTV), a Rádio Internacional da China (CRI), a agência de notícias Xinhua e o jornal China Daily – enquanto executivos da mídia e formadores de opinião de vários países são convidados para “viagens de familiarização” na China.

Todas essas quatro mídias que fornecem informações para fora do país passaram por grandes reformulações nos últimos meses, com o objetivo de oferecer uma face menos propagandística para o mundo. Agora há estrangeiros ancorando os noticiários; as páginas de opinião estão ficando mais sérias; os programas de rádio mais diversificados; os sites mais informativos; e os jornais estão publicando mais matérias investigativas.

Entre esses esforços, a Xinhua TV está operando um canal de notícias 24 horas que tenta imitar a Al Jazeera; a CCTV News está tentando competir com a CNN e a BBC; a CRI está comprando mais tempo no ar em vários mercados de rádio AM e FM nos Estados Unidos e na Europa, enquanto transmite diretamente na África, Oriente Médio e América Latina. A CCTV agora transmite seis canais internacionais em cinco línguas e alega ter uma audiência global de cerca de 125 milhões de telespectadores.

Algumas estações de televisão das províncias locais (Chongqing, Xangai e Hunan) também viram um nicho no mercado de transmissão estrangeira. A China também abriu uma série de estações de TV em inglês e chinês fora do país, como a Blue Ocean Network (BON TV) e a Great Wall TV nos Estados Unidos.

A agência de notícias Xinhua está penetrando profundamente no mundo em desenvolvimento, tornando-se a principal fonte de notícias para as pessoas na África. A Xinhua também vê uma grande oportunidade na linha das principais agências de notícias ocidentais (AP, UPI, Thomson Reuters). A estratégia da Xinhua é enviar principalmente notícias descritivas, sem a perspectiva chinesa, e desenvolver uma clientela oferecendo um relato noticioso mais barato do que os serviços das grandes agências ocidentais.

Atualmente, a Xinhua tem 80 mil assinantes institucionais pagantes, que geram uma fonte de renda substancial, e fornecem uma fonte de notícias e informação para públicos no mundo em desenvolvimento onde há poucas fontes domésticas de informação. A Xinhua tem 400 correspondentes em 117 escritórios em todo o mundo, com planos de acrescentar mais dez até 2012 e crescer para 180 em 2020. Além das iniciativas de mídia, a China está patrocinando e aumentando as exibições culturais e os eventos “Ano da China” no exterior. Cerca de 100 foram planejados para 2010.

No país, o governo está realizando a impressionante World Expo 2010 em Xangai. Os filmes e a literatura chinesa também estão desfrutando de uma popularidade cada vez maior no mundo. Na educação, a China também abriu 282 Institutos Confúcio e 272 Salas de Aula Confúcio em todo o mundo para promover a língua e a cultura chinesas.

Se esses novos esforços para aumentar sua influência darão frutos e construirão uma imagem mais positiva para a China em todo o mundo, só o futuro dirá. As mensagens transmitidas no exterior com frequência ainda têm um tom rígido e propagandístico.

Além disso, como Joseph Nye observou em seu trabalho pioneiro sobre o assunto, a verdadeira influência vem de uma sociedade e não de um governo. O governo da China continua coibindo muitos de seus elementos mais criativos e diversos, enquanto a postura do país em relação aos direitos humanos, seu sistema político, força econômica, e crescente poder militar continuam afetando negativamente a imagem do país no exterior.

Não importa quantos recursos o mensageiro (estatal) tenha e o quanto essa mensagem seja “massageada”, é a realidade que ainda desempenha o papel principal na construção da imagem da China ao redor do mundo.

* David Shambaugh é pesquisador senior na Academia Chinesa de Ciências Sociais do Instituto de Economia e Política Mundial em Pequim

Tradutor: Eloise De Vylder

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