Celso Amorim: Ouçamos o que as novas potências mundiais têm a dizer

Celso Amorim*

  • ATTA KENARE/AFP

    O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente Lula, o ministro do Irã Manouchehr Mottaki e o presidente do Irã Ahmadinejad, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o ministro das Relações Exteriores Turco, Ahmet Davutoglu

    O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente Lula, o ministro do Irã Manouchehr Mottaki e o presidente do Irã Ahmadinejad, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o ministro das Relações Exteriores Turco, Ahmet Davutoglu

Um editorial publicado em um famoso jornal francês previu recentemente que o dia 17 de maio, a data da “Declaração de Teerã” a respeito do programa nuclear iraniano – negociada pelo Brasil e pela Turquia com o Irã – será incluída nos livros de história. E um comentarista de um respeitado jornal diário britânico sugeriu que os esforços integrados dos dois países emergentes desafiaram a primazia dos membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) nas questões referentes à paz e à segurança internacionais – e que essa iniciativa foi recebida com desconforto.

De fato, até recentemente, todas as decisões globais eram tomadas por umas poucas potências tradicionais. Os membros do Conselho de Segurança da ONU – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia, que são, aliás, as cinco potências nucleares reconhecidas como tais pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear – tinham (e ainda têm) o privilégio de dar as cartas nas questões relativas à paz e à segurança internacionais. O G8 ficava encarregado das decisões importantes que afetam a economia global. Nas questões relacionadas ao comércio internacional, o “Quadrângulo” - Estados Unidos, União Europeia, Japão e Canadá – dominavam o cenário.

Países como Brasil, China, Índia, África do Sul e uns poucos outros são “os garotos novos do quarteirão” em meio aos tradicionais protagonistas globais que modelam as relações internacionais. Esses países aspiram legitimamente a uma maior participação nas instituições internacionais, que ainda padecem de um “déficit de democracia”. As decisões globais não podem mais ser tomadas sem que sejam ouvidas as vozes desses países.

Na reunião ministerial da Rodada de Doha em Cancún, em 2003, Brasil, Índia, Argentina e outros países em desenvolvimento decidiram não endossar uma decisão tomada pelos protagonistas dominantes tradicionais – especialmente os Estados Unidos e a União Europeia – que não levava em conta os seus interesses, em especial no que dizia respeito à agricultura. A criação do Grupo dos 20 da Organização Mundial do Comércio transformou para sempre o modelo de negociações comerciais multilaterais.

A crise financeira expôs ainda mais a entrada em cena dos novos atores. O G20 Financeiro, que é composto tanto de países ricos quanto de nações em desenvolvimento, substituiu o G8 como o principal fórum de discussões e decisões no que se refere à economia mundial.

Em relação à mudança climática, as nações emergentes sempre foram protagonistas importantes. Mas na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2009, em Copenhague, o “Acordo”, embora insuficiente, foi alcançado em uma sala na qual o presidente dos Estados Unidos negociou com os líderes do grupo denominado BASIC (acrônimo, em inglês, de Brasil, África do Sul, Índia e China).

Em 15 de abril último, Brasília sediou duas reuniões consecutivas do mais elevado nível político: a segunda reunião de cúpula do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e o quarto Fórum de Diálogo IBSA (Índia, Brasil e África do Sul). Tais grupos, por mais diferentes que sejam, demonstram uma vontade e um compromisso por parte das potências emergentes de redefinir a governança mundial. Muitos comentaristas consideraram essas duas reuniões mais relevantes do que as recentes reuniões de cúpula do G7 e do G8.

As discussões sobre comércio, finanças, mudança climática e até mesmo governança global passaram a receber bem os países em desenvolvimento. Há uma compreensão de que, sem a presença de países como China, Índia, Brasil, África do Sul e México, nenhum resultado prático poderá ser obtido.

Paradoxalmente, as questões relativas à paz e à segurança internacionais – alguns poderiam chamar isso de o “núcleo duro” da política global – continuam sendo o território exclusivo de um pequeno grupo de países.

O fato de o Brasil e a Turquia terem se aventurado em uma questão que, tipicamente, teria sido administrada pelo P5+1 (o grupo formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) – e, o mais importante, o fato de esta iniciativa ter sido bem sucedida – perturbou o status quo.

A insistência na aplicação de sanções contra o Irã – ignorando efetivamente a Declaração de Teerã, e sem sequer dar ao Irã tempo para responder aos comentários feitos pelo “Grupo de Viena (Estados Unidos, França e Rússia) – confirmou as opiniões de diversos analistas que alegavam que os centros tradicionais de poder não compartilhariam de boa vontade o seu status privilegiado.

De fato, as negociações conduzidas pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, seguiram precisamente o roteiro que estava sobre a mesa havia alguns meses, e cuja validade fora recentemente reafirmada no mais alto nível.

Neste momento, grande parte do mundo está com as atenções voltadas para a Copa do Mundo na África do Sul. No futebol, o mais universal dos esportes, nações em desenvolvimento como o Brasil e a Argentina sempre foram protagonistas importantes. Já é hora de nações emergentes como a Turquia e o Brasil – e outras, como a Índia, a África do Sul, o Egito e a Indonésia – terem as suas vozes ouvidas na discussão de questões graves referentes à guerra e à paz. Isso não apenas faria justiça às credenciais e à capacidade desses países, mas também seria melhor para o mundo.

* Celso Amorim é o ministro das Relações Exteriores do Brasil

Tradutor: UOL

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