O eixo Mianmar-Coreia do Norte

Aung Lynn Htut*

Em Washington (EUA)

  • Sakchai Lalit/AP

    Estudantes usam camisetas contra militares de Mianmar; país estaria próximo da Coreia do Norte

    Estudantes usam camisetas contra militares de Mianmar; país estaria próximo da Coreia do Norte

Este é um momento delicado nas relações entre os Estados Unidos e o regime mais corrupto do mundo: a junta militar que saqueia Mianmar há décadas como se este país fosse um feudo particular dela.

O governo Obama tentou aplicar uma estratégia denominada “engajamento pragmático”. Enquanto Washington trabalha no sentido de reavaliar a sua posição em meio à atual cacofonia de crises estrangeiras e domésticas, existe o perigo de que os Estados Unidos deem pouca atenção a Mianmar e abrandem inadvertidamente a sua postura em relação aos líderes militares do país.

Mas os norte-americanos devem tomar cuidado para não fazer tal coisa. E eles devem também levar a sério as ambições da junta militar mianmarense no que diz respeito à aquisição de armas nucleares.

O regime de Mianmar é historicamente conhecido por ludibriar as autoridades norte-americanas. Eu sei disso. Antes de desertar para os Estados Unidos em 2005, eu era um oficial de inteligência graduado do gabinete da guerra em Mianmar. Eu fui também vice-chefe da missão da Embaixada de Mianmar em Washington.

O turismo sofre em uma isolada ilha sul-coreana

Quando o seu barco de turistas aproa para um mar azul-cinzento em meio à névoa espessa, Lee Jeong-oh recorda-se do dia que o seu negócio foi por água abaixo junto com um navio de guerra sul-coreano atingido por uma explosão e afundado a apenas cerca de dois quilômetros desta ilha. “No início eu fui incapaz de acreditar que a Coreia do Norte tivesse feito isso”, diz Lee Jeong-oh, 53, reduzindo a velocidade da sua embarcação até ela parar completamente no local em que a Cheonan, uma corveta da marinha sul-coreana, afundou com 46 marinheiros a bordo, na noite de 26 de março deste ano

No outono de 2003, um assessor importante de um senador norte-americano veio duas vezes até a nossa embaixada em Washington para falar com o embaixador U Lin Myaing e comigo. Mais ou menos na mesma época, autoridades do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos também se reuniram em Nova York com U Tin Win, que integrava o gabinete do primeiro-ministro de Mianmar, e com o coronel Hla Min, o porta-voz do governo mianmarense.

As autoridades norte-americanas estavam examinando relatos de que Mianmar teria renovado secretamente os seus laços com a Coreia do Norte --país que se constituía em um dos três pilares do “eixo do mal” do então presidente George W. Bush.

Mianmar rompeu relações com a Coreia do Norte em 1983, depois que agentes norte-coreanos tentaram assassinar o presidente da Coreia do Sul, Chun Doo Hwan, durante uma visita de Estado a Rangoon. Chun saiu ileso, mas 17 autoridades graduadas sul-coreanas --incluindo o vice-primeiro-ministro e os ministros do Comércio e das Relações Exteriores-- foram mortos.

O comandante da junta militar, general Than Shwe, nos instruiu a mentir para os norte-americanos. E foi o que nós fizemos. Nós responsabilizamos a oposição política de Mianmar pelos “rumores” de que Rangoon teria reatado relações com Pyongyang.

Os norte-americanos quiseram provas. Foi quando Than Shwe ordenou ao ministro das Relações Exteriores, U Win Aung, que enviasse uma carta negando os relatos ao secretário de Estado Colin Powell. O governo britânico sabia qual era a verdade. O embaixador do Reino Unido em Rangoon chamou, com razão, U Win Aung de mentiroso.

Mas por que Mianmar reatou reações com a Coreia do Norte? Para preservar o regime.

Após a rebelião nacional de 1988 em Mianmar, muitas joint-ventures internacionais criadas para a produção de armas convencionais foram suspensas. Than Shwe deu então início à retomada de relações com a Coreia do Norte em 1992, pouco depois de ter assumido controle sobre a junta mianmarense.

Ele argumentou que Mianmar deparava-se com a ameaça potencial de um ataque dos Estados Unidos e da Índia, que na época defendia o movimento democrático de Mianmar. Than Shwe desejava um exército maior para Mianmar. E ele queria também armas mais modernas. De fato, Than Shwe desejava até mesmo armas nucleares. Ele não se importava nem um pouco com a pobreza do povo de Mianmar.

Than Shwe entrou secretamente em contato com Pyongyang. Disfarçados de empresários sul-coreanos, especialistas norte-coreanos em armamentos passaram a visitar Mianmar. Eu me lembro desses visitantes. Eles recebiam um tratamento especial no aeroporto de Rangoon. Devido ao período de abundância resultante das vendas de gás natural à Tailândia, Mianmar foi em breve capaz de pagar aos norte-coreanos pelo fornecimento de tecnologia de mísseis.

Os generais acreditavam que poderiam obter também ogivas nucleares e que, assim que essas ogivas estivessem instaladas em mísseis, os Estados Unidos e outros países poderosos não ousariam atacar Mianmar e contariam com muito menos capacidade de pressão sobre a junta militar.

Than Shwe ocultou esses vínculos com a Coreia do Norte do Japão e da Coreia do Sul pelo maior tempo possível, já que ele estava se empenhando em atrair companhias japonesas e sul-coreanas para investirem mais nos esforços para saquear os recursos naturais de Mianmar. Em 2006, os generais da junta sentiram-se ou suficientemente desesperados ou confiantes para assumir publicamente as relações diplomáticas com a Coreia do Norte.

Mianmar vem se empenhando há quase uma década em expandir a sua produção de mísseis e de ogivas químicas. O general Tin Aye --presidente da União de Holdings Econômicas de Mianmar, o braço empresarial das forças armadas do país-- é o principal gerente de produção de armas e o principal elemento de contato com a Coreia do Norte.

Segundo um relatório secreto que foi vazado no ano passado, o homem que é o número três do regime, o general Shwe Mann, também fez uma visita secreta a Pyongyang em novembro de 2008. Ele assinou um acordo de cooperação militar no sentido de obter apoio da Coreia do Norte para a construção de túneis e abrigos subterrâneos para ocultar mísseis, aeronaves e até navios.

O fato de essa informação ter sido vazada por oficiais das forças armadas mianmarenses que lidam com atividades tão sensíveis demonstra ao mesmo tempo o grau de megalomania militar de Than Shwe e a existência de uma oposição dentro do próprio regime.

O termo “engajamento pragmático” não deve se tornar sinônimo de qualquer tipo de enfraquecimento da oposição firme de Washington aos governantes de Mianmar.

Os Estados Unidos e outras nações têm que continuar questionando a legitimidade de Than Shwe e do regime mianmarense. Eles não devem acreditar nas promessas de Than Shwe de que serão realizadas eleições livres e justas neste ano.

Somente a pressão coordenada de todo o mundo terá eficácia para que se possa lidar com esse mestre da mentira.

*Aung Lynn Htut é um ex-oficial graduado de inteligência do Ministério da Defesa de Mianmar. Ele está escrevendo as suas memórias.

Tradutor: <I> UOL </i>

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