O turismo sofre em uma isolada ilha sul-coreana

Choe Sang Hun

Em Baengnyeng (Coreia do Sul)

Quando o seu barco de turistas aproa para um mar azul-cinzento em meio à névoa espessa, Lee Jeong-oh recorda-se do dia que o seu negócio foi por água abaixo junto com um navio de guerra sul-coreano atingido por uma explosão e afundado a apenas cerca de dois quilômetros desta ilha.

O eixo
Mianmar-Coreia do Norte

Este é um momento delicado nas relações entre os Estados Unidos e o regime mais corrupto do mundo: a junta militar que saqueia Mianmar há décadas como se este país fosse um feudo particular dela. O governo Obama tentou aplicar uma estratégia denominada “engajamento pragmático”. Enquanto Washington trabalha no sentido de reavaliar a sua posição em meio à atual cacofonia de crises estrangeiras e domésticas, existe o perigo de que os Estados Unidos deem pouca atenção a Mianmar e abrandem inadvertidamente a sua postura em relação aos líderes militares do país.

“No início eu fui incapaz de acreditar que a Coreia do Norte tivesse feito isso”, diz Lee Jeong-oh, 53, reduzindo a velocidade da sua embarcação até ela parar completamente no local em que a Cheonan, uma corveta da marinha sul-coreana, afundou com 46 marinheiros a bordo, na noite de 26 de março deste ano. “Eu jamais imaginei que um submarino norte-coreano pudesse vir até a nossa ilha para desfechar um ataque com um torpedo, aqui, debaixo dos nossos pés”.

“Pobres marinheiros”, diz ele. “Mas a vida aqui continua como sempre”.

Mas a vida na ilha não continua tão normalmente. Assim como os sul-coreanos em geral, os 5.000 agricultores e pescadores desta ilha na fronteira acostumaram-se tanto às provocações norte-coreanas e ao armistício precário na dividida Península Coreana que eles parecem aceitar o afundamento da Cheonan como se este fato fosse uma obra do destino.

E basta perguntar aos moradores quais são as suas maiores preocupações, para que eles mencionem não as ameaças militares da Coreia do Norte, mas sim a redução drástica do número de turistas após o afundamento da corveta sul-coreana e toda a publicidade em torno do fato.

Os turistas costumavam chegar aqui em barcas. Eles vinham até a ilha para navegarem ao longo dos penhascos onde viam focas dormindo sobre as pedras. Eles também vinham ver a Coreia do Norte no horizonte, um território proibido que até recentemente representava mais um mistério intrigante do que uma ameaça. Geralmente a viagem até as ilhas proporciona aos turistas sul-coreanos a emoção de chegar perto da Coreia do Norte e, ao mesmo tempo, de estar distante do seu próprio país.

Mas após o afundamento da Cheonan, essa emoção transformou-se em um medo real.

“As pessoas pensam que se vierem até aqui e a guerra eclodir, todas elas morrerão”, diz Chung Cheol-soo, um habitante da ilha.

Na noite do afundamento, um outro morador da ilha, Chang Hyung-soo, seguiu apressadamente para a sua casa quando o céu sobre o alto-mar iluminou-se com chamas e trovejou com o som de armamentos. Ele não sabia que um navio de guerra sul-coreano estava disparando uma barragem de artilharia contra um objeto que os militares acreditavam que fosse um submarino norte-coreano que fugia após ter atacado a corveta Cheonan, mas que mais tarde foi identificado como um bando da aves migratórias que seguia para o norte.

“Eu achei que fosse mais um treinamento militar. E depois fui dormir”, diz Chang Hyung-soo, 67. “Só dá para sabermos se há uma guerra de verdade se um projétil disparado pelo inimigo cair no nosso quintal”.

Essa postura relaxada contrasta bastante com a retórica oficial de Seul. Um grande painel colocado pelas forças armados no centro da ilha, diz: “Jamais se esqueçam da Cheonan! Lembrem-se dos 46 bravos marinheiros! Vamos defender as nossas ilhas do noroeste com as nossas vidas!”.

Os Estados Unidos apoiaram inteiramente Seul quanto a essa questão. “Nós estamos determinados a demonstrar que a nossa aliança se mantém firmemente coesa durante este período absolutamente crítico”, disse na última quinta-feira (17) o secretário-assistente de Estado norte-americano para Questões do Leste da Ásia e do Pacífico, Kurt M. Campbell, ao se reunir com o ministro sul-coreano das Relações Exteriores, Yu Myung-hwan, em Seul.

No início desta semana, na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o representante da Coreia do Norte repetiu a negativa do seu governo de que Pyongyang tenha qualquer envolvimento com o afundamento da corveta Cheonan, e advertiu que se o Conselho de Segurança da ONU endossasse o argumento sul-coreano de que a embarcação foi atacada por um torpedo norte-coreano, as forças armadas da Coreia do Norte retaliariam.

“Tudo isto é apenas Kim Jong-il continuando com a sua conversa sem sentido”, afirma Lee Jeong-oh, o capitão da embarcação turística. “Nada mudou nas nossas vidas”.

Esta pequena ilha fica a apenas 16 km da costa norte-coreana. Mas para a população civil e os milhares de fuzileiros navais estacionados aqui, a única ligação regular com a Coreia do Sul só é possível por meio de uma viagem de 220 km de distância, e de quatro horas de duração, em uma barca, que navega fazendo uma grande curva para manter-se fora do alcance da artilharia norte-coreana.

Baengnyeng é o único lugar na Coreia do Sul no qual estudantes de segundo grau e donas de casa participam de exercícios militares regulares com a utilização de munição real. As colinas da ilha estão repletas de antenas militares. Minas e colunas de aço protegem a costa. Quem for visto perambulando pelas praias da ilha após o cair da noite corre o risco de ser alvo de tiros.

Do outro lado de um canal estreito, a Coreia do Norte concentrou duas divisões de Exército, cuja artilharia e foguetes poderiam atingir a ilha. Ocultos em grutas e cavernas, 360 veículos de guerra norte-coreanos, incluindo 13 submarinos, encontram-se de prontidão para atravessar o canal, diz Kim Young-chan, um tenente da marinha sul-coreana que fica em um posto de observação no alto de uma colina da qual pode-se observar bem o canal.

“As águas em volta da ilha são um verdadeiro barril de pólvora”, afirma ele.

Apesar de todas as dificuldades para que tenham uma existência normal, os moradores civis da ilha estão determinados a dar continuidade às suas vidas, mas temem que a intranquilidade quanto às águas em torno da ilha esteja afastando os turistas.

Chung diz que quase todos os 4.800 turistas que haviam reservado viagens para Baengnyeng em abril e maio com a sua companhia, a Canari Tourism, cancelaram os seus planos. Em junho, os negócios caíram para um décimo do volume normal.

Lee Yun-cheol, 47, pescador e dono de um restaurante na ilha, diz que após o afundamento da corveta Cheonan, ele recebeu telefonemas de amigos de lugares tão distantes quanto os Estados Unidos, que desejavam saber por que ele mora em um lugar tão perigoso.

Baengnyeng é alvo de intensas coberturas da imprensa todas as vezes que recrudescem as tensões entre as duas Coreias --durante o teste nuclear que a Coreia do Norte realizou no ano passado, ou quando as duas marinhas enfrentaram-se em embates sangrentos em 1999 e 2002, e mais uma vez durante um enfrentamento naval em novembro do ano passado.

Esta última batalha ocorreu tão perto da ilha que os moradores ouviram os estampidos das armas. Mas os moradores afirmam que nenhuma crise anterior afastou tanto os turistas como o afundamento da corveta Cheonan.

Lee Joon-hee, 71, um rizicultor, diz que a maioria dos moradores da ilha está tão acostumada à vida nesta linha de frente das hostilidades que eles mal pensam no perigo potencial de viver em uma ilha cercada por águas que são reivindicadas pela Coreia do Norte.

“Para nós, a única diferença feita pelo afundamento da corveta Cheonan foi que os turistas não vêm mais”, afirmou Lee Jeong-oh, o capitão do barco turístico. “Uma multidão de jornalistas desembarcou aqui. Isso afasta os turistas. Mas quando eles me perguntam sobre a crise, eu pergunto: 'Que crise?'”.

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