O futuro das relações da Rússia com a UE

Radoslaw Sikorski

Em Varsóvia (Polônia)

  • Andrzej Wiktor/EFE

    Radoslaw Sikorski, ministro das Relações Exteriores da Polônia

    Radoslaw Sikorski, ministro das Relações Exteriores da Polônia

Para onde está caminhando a política europeia da Rússia? Como dizia o escritor Mark Twain: as previsões são difíceis, especialmente se são sobre o futuro.

A Rússia está enfrentando desafios – demográficos, econômicos, de recursos. Mas se isso a deixa pronta para reformas internas ainda não se sabe. Descobrir qual é a resposta da União Europeia, normalmente dividida diante de Moscou, pode ser ainda mais difícil.

O que temos agora é uma política caótica da UE em relação à Rússia, com alguns estados-membro mantendo os outros como reféns. É claro que está na hora de os governos perceberem que os interesses de médio e longo prazo são melhor atendidos pela consistência e não pelo bilateralismo.

Uma abordagem como essa pode na verdade beneficiar Moscou. Afinal, alguns de nossos desafios mais graves também pairam sobre os políticos e estrategistas russos. A demografia é um deles. Em 2030 a população da Rússia será 20% menor, e algumas populações da UE também enfrentam um declínio surpreendente. Assim nós enfrentamos um problema comum ao tentar permanecer competitivos numa época em que o ritmo econômico é determinado pela China e a Índia.

Há também oportunidades econômicas em comum. A UE é de longe o investidor mais importante na Rússia, fornecendo 80% de investimentos estrangeiros acumulados, enquanto a Rússia é o terceiro maior parceiro comercial da UE. Nós também temos interesses de segurança em comum. A Rússia continua tendo um importante papel geopolítico; seu envolvimento construtivo é necessário desde o Afeganistão até a proliferação e a pirataria.

Finalmente, há também o problema delicado e divisor da energia. A Rússia é o fornecedor mais importante para a UE não só de gás e petróleo, mas também de carvão e urânio. Preços voláteis do petróleo, a segurança no fornecimento e o impacto ambiental estão entre as preocupações atuais. A Rússia também é vulnerável, e precisará de capital e conhecimento do exterior para desenvolver a exploração de gás e rejuvenescer sua infraestrutura precária.

Num ambiente tão imprevisível, é essencial que a Rússia e a UE se tornem parceiros confiáveis. Para isso, a UE deveria primeiro tentar falar com uma única voz. Infelizmente, os custos e benefícios associados à uma UE unida não são iguais para todos. Em áreas como a energia e a cooperação militar, alguns membros da UE agem de forma unilateral, mas por sua vez podem cair vítimas de outros estados-membro em outras áreas.

Para falar com uma voz única a UE deveria seguir três regras básicas.

Primeiro ela deveria buscar uma plataforma mais abrangente de cooperação com a Rússia, com todos concordando com uma lista comum de interesses da UE. É por isso que precisamos nos ater ao mandato aprovado para a Comissão Europeia negociar um novo Acordo de Parceria e Cooperação com a Rússia.

Em segundo lugar, a relação com a Rússia não pode ser desenvolvida à custa de outros parceiros. Moscou não deveria ser privilegiada em detrimento da Ucrânia e de Moldova. Terceiros países são “a esfera de interesse privilegiada” de ninguém. A UE deveria afirmar seus valores e estabelecer normas de conduta internacional.

Por último, precisamos dar à Rússia uma mensagem clara sobre o que a UE quer de fato. O que está em jogo são as regras pelas quais nosso relacionamento com Moscou será governado. Se nos distrairmos, que não sejamos surpreendidos pelas consequências.

A UE há tempos espera que as autoridades russas empreendam reformas fundamentais de longo alcance, que levem ao desenvolvimento de uma sociedade civil genuína e à transformação econômica e social. Em resposta, Bruxelas estenderia a mão.

Infelizmente, o desejo político da Rússia pela cooperação parece limitado. Não se pode descartar que as reformas serão seletivas e impositivas, e que a assistência europeia só será aceita se não exigir nada em troca.

As relações da UE com a Rússia não são um jogo em que uma perde e outra ganha. É do interesse da UE que a Rússia fique mais rica, que ela continue produzindo petróleo e gás. É do interesse da Europa apoiar a modernização da Rússia; vide o apoio da Polônia à ascensão da Rússia à OMC, facilitação de vistos e intercâmbios estudantis.

Precisamos nos lembrar, entretanto, de que a relação da Rússia com a UE depende de uma mudança positiva dentro da Rússia – de os líderes do país decidirem incentivar a competitividade, o exercício responsável do poder e mais liberdades pessoais. Os feitos devem seguir as palavras, e nós deveríamos responder de acordo, com boa vontade na mesma proporção de cada passo positivo.

(Radoslaw Sikorski é ministro das Relações Exteriores da Polônia)

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos