Crise da dívida europeia fortalece algumas empresas da região

Jack Ewing

Em Frankfurt (Alemanha)

  • 22.03.2007 - AFP

    Homem com guarda-chuva com o logotipo da União Europeia, em Berlim (Alemanha)

    Homem com guarda-chuva com o logotipo da União Europeia, em Berlim (Alemanha)

Não fale isso em voz muito alta, mas para algumas empresas europeias a crise da dívida soberana não é tão ruim assim. Contanto que a crise não destrua a zona do euro, existem alguns efeitos colaterais positivos, incluindo uma desvalorização monetária e taxas de juros oficiais extraordinariamente baixas.

A Siemens, a companhia d engenharia e eletrônica com sede em Munique, é um exemplo disso. Com 18% das suas vendas na Ásia, e 27% adicionais nos Estados Unidos, no Canadá e na América Latina, a companhia está em uma boa situação para lucrar com a retomada da demanda nessas regiões por produtos da Siemens, como trens de alta velocidade, geradores eólicos e equipamentos para fábricas.

Em abril último, enquanto os políticos da União Europeia lutavam para conter a crise da dívida continental, a Siemens ampliava a sua previsão de lucros operacionais para 2010 de 6,5 bilhões de euros (R$ 14,3 bilhões) para 7,5 bilhões de euros (R$ 16,5 bilhões). “Não se pode ignorar os problemas relativos à dívida soberana, mas eles não afetaram os nossos negócios”, afirmou em uma entrevista na última sexta-feira Peter Y. Solmssen, um integrante da diretoria administrativa da Siemens que é responsável pelas operações da empresa nos Estados Unidos.

Entenda os motivos da crise europeia

Embora os alemães tenham sido os que mais reclamaram do fato de terem que socorrer financeiramente a Grécia e outras nações altamente endividadas, a Alemanha é sem dúvida alguma a maior ganhadora com a crise financeira devido às baixas taxas de juros e a um mercado de ações mais robusto.

Um risco da atual crise é que ela venha a provocar uma divisão ainda mais drástica entre o sul da Europa, que é mais pobre, e o norte do continente, que é mais rico, fazendo com que aumentem as tensões a respeito de como gerenciar a economia da zona do euro. Solmssen, da Siemens, e outros, observam que não querem de forma alguma que a zona do euro se desintegre, porque a moeda comum faz com que seja mais fácil para eles efetuar negócios.

Para muitos países na Europa, os problemas de dívida da Grécia e de Portugal são pouco mais do que uma distração. A Grécia, que responde por 2,5% do produto interno bruto da zona do euro, não é um mercado importante para a maioria das grandes empresas multinacionais. O giro dos mercados de ações tem pouco efeito diário em uma região na qual os bancos ainda são a fonte mais importante de crédito para companhias menores. A maioria dos executivos se preocupa mais com os números europeus relativos às exportações, que têm melhorado.

“Há uma incongruência considerável entre o mundo financeiro e a economia real”, diz Ben Noteboom, diretor executivo da Randstad, uma companhia com sede em Amsterdã, na Holanda.

Alguns tipos de companhias até lucram com a crise. Os fundos de hedge, que são capazes de explorar a volatilidade do mercado, recuperaram a maior parte dos prejuízos que amargaram a partir do final de 2007, observou o Banco Central Europeu em um relatório recente.

A Randstad é um outro exemplo de companhia que pode estar se beneficiando com a crise, embora Noteboom não diga isso. Embora as receitas da Randstad tenham caído acentuadamente em alguns mercados durante a crise do ano passado, a demanda começou a se recuperar fortemente, diz Noteboom. As companhias podem estar mais dispostas a contratar trabalhadores temporários do que permanentes durante os primeiros estágios de uma recuperação econômica, quando os executivos ainda não estão inteiramente convencidos do vigor da economia.

Noteboom diz que a Randstad é uma espécie de indicador do rumo da macroeconomia. Caso isto seja verdade, os sinais são bons. O mercado geral de trabalhadores temporários cresceu 10% ou mais na Alemanha, na França e na Bélgica, e quase isso na Holanda, afirma Noteboom. Ele diz que observou um crescimento até mesmo na Grécia, embora reduzido. “Eu estou otimista”, afirma Noteboom. “Estou quase muito otimista”.

Mas no caso dos bancos, as oportunidades de lucros com a crise da dívida soberana não são boas. Até mesmo as instituições que não possuem grandes carteiras de títulos gregos ou portugueses enfrentarão uma supervisão governamental mais rigorosa nos próximos anos. Os analistas afirmam que as regulamentações poderiam acabar com as margens de lucros de dois dígitos das quais os bancos desfrutaram antes da crise financeira.

E, em tal conjuntura, é melhor que se tenha uma companhia em um país com um litoral báltico, em vez de mediterrâneo. O custo do crédito disparou em países como a Espanha, porque as taxas de juros que as companhias pagam sobre os empréstimos estão estreitamente vinculadas às taxas pagas pelos governos dos países em que elas atuam. Isso se constitui em mais uma desvantagem competitiva para companhias que fazem negócios nos chamados países periféricos.

Mas para a Alemanha e outros países do norte da Europa, a crise trouxe taxas de juros mais reduzidas. Os títulos alemães são considerados um abrigo seguro para quem se vê em meio à crise dos mercados da dívida soberana. Isso significa que as companhias alemãs estão também pagando adicionais de riscos mais baixos.

Uma empresa, a companhia alemã de aluguel de automóveis Sixt, chegou a obter 300 milhões de euros (R$ 662 milhões) no final do ano passado e obteve lucro reinvestindo essa quantia em títulos de outras corporações. A Sixt usará o dinheiro para refinanciar a dívida existente, segundo um porta-voz da companhia.

Mais do que as suas congêneres na Grécia ou mesmo na França, as companhias alemãs são capazes de se beneficiar integralmente da taxa de juros historicamente baixa de 1% do Banco Central Europeu.

E esta festa de dinheiro fácil provavelmente se estenderá pelos próximos meses. Muitos analistas não esperam que o Banco Central Europeu comece a elevar as taxas de juros até meados de 2011, à medida que os bancos lutam para enfrentar a crise da dívida.

“As expectativas de uma alta das taxas de juros caíram bastante”, explica Britta Weidenbach, gerente de equities europeias da DWS, o braço de gerenciamento de fundos do Deutsche Bank, em Frankfurt. Isso sem dúvida tem um lado positivo”.

O índice de ações DAX 30 em Frankfurt aumentou 4,65% neste ano, mais do que o índice francês ou o mais abrangente índice Euro Stoxx 50.

Os ganhos refletem a presença de exportadores como a Siemens, bem como a MAN, uma fabricante de caminhões; ou a Bayerische Motoren Werke, a fabricante dos automóveis BMW; ou a SAP, que vende softwares utilizados por empresas para efetuarem as suas operações. Todas se beneficiaram com a queda de 15% do euro em relação ao dólar neste ano, algo que tornou as vendas para os Estados Unidos mais lucrativas quando as receitas são reconvertidas para a moeda europeia.

O declínio do euro foi provocado pelos problemas da Grécia, da Espanha e de Portugal, que também beneficiar-se-ão. Mas estes países não lucrarão tanto quanto os países do norte da Europa, segundo uma análise do Citigroup. “Os nossos economistas esperam uma continuidade do desempenho econômico fraco no sul da Europa em relação ao norte do continente nos próximos trimestres e anos”, escreveram analistas do Citigroup Global Markets em um relatório da semana passada.

Uma outra companhia que está minimizando a crise é a fabricante alemã de equipamento esportivos Adidas, e não apenas devido aos seus vínculos com a Copa do Mundo da África do Sul. O mercado norte-americano em recuperação tem ajudado as vendas da unidade Reebok da Adidas, e o crescimento de mercados emergentes como a Rússia está mais do que compensando as fracas vendas europeias.

Fora da Alemanha, companhias como a fabricante holandesa de produtos eletrônicos Philips ou companhias escandinavas como a Volvo, que fabrica os caminhões Mack, também estão se beneficiando da demanda da China e de outros mercados emergentes. A Volvo, que é uma unidade distinta da fabricante de automóveis Volvo, anunciou na quarta-feira (23/06) que as encomendas aumentaram 44% em maio em relação ao mesmo mês no ano passado.

Na Siemens, a receita geral caiu 4% de janeiro a março, para 18,2 bilhões de euros (R$ 40,2 bilhões). Mas Solmssen diz que foram identificados sinais claros de recuperação, incluindo novas encomendas de equipamentos para fábricas, uma categoria comercial que sofreu uma contração durante a crise.

“Até mesmo algumas das indústrias mais atingidas, como a de automóveis, estão começando novamente a fazer encomendas”, diz Solmssen. “Estamos presenciando uma recuperação além das nossas fronteiras”.

E até mesmo o vazamento de petróleo no Golfo do México trouxe um benefício para a Siemens. O desastre da BP pode ter prejudicado o setor da Siemens que fornece equipamentos para a indústria petrolífera. Mas essa perda foi mais do que foi compensada pelo aumento da demanda por turbinas a gás, geradores eólicos e equipamentos para fazer com que as redes de energia elétrica funcionem de maneira mais eficiente.

Em uma fábrica em Fort Madison, no Estado norte-americano de Iowa, que foi visitado pelo presidente Barack Obama em abril último, a Siemens está produzindo 36 lâminas gigantes de rotores por semana para atender à demanda. A companhia está antecipando mais vendas à medida que aumentam as pressões nos Estados Unidos para a adoção de fontes de energia que se constituem em uma alternativa ao petróleo.

“Eu acho que nós veremos um aumento da ênfase nesse tipo de tecnologia”, diz Solmssen.

Tradutor: UOL

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