Como a tecnologia pode ajudar o futebol a ser mais justo

Christopher Clarey

Port Elizabeth (África do Sul)

  • Arte UOL/AP e AP

    Montagem mostra os dois toques de mão dados por Luís Fabiano na bola no lance de seu segundo gol contra a Costa do Marfim

    Montagem mostra os dois toques de mão dados por Luís Fabiano na bola no lance de seu segundo gol contra a Costa do Marfim

Sob o risco de me tornar meramente o mais recente lobby no ouvido surdo da Fifa sobre a questão, é chegada a hora.

É chegada a hora do tira-teima por vídeo quando o juiz francês Stephane Lannoy perde não apenas uma, mas duas mãos na bola cometidas pelo atacante brasileiro Luis Fabiano e, após o gol, trota pelo campo ao lado de Fabiano e o questiona jovialmente, como se tentasse confirmar suas suspeitas.

É hora quando tantos outros esportes – inclusive o tênis, que é tão apegado ao seu livro de regras tradicional - já assumiram o risco e foram recompensados.

Acima de tudo, é chegada a hora quando a televisão e a tecnologia deixam todas as pessoas em todos os cantos, desde a Patagônia até a Sibéria, conscientes do que aconteceu em campo menos o juiz mais importante – o homem com o apito e a responsabilidade, que fica parecendo um luddita em um mundo de conexões de alta velocidade.


Evidentemente que a Fifa já foi chamada a adotar mudanças antes, mas para os que consideram essa uma causa perdida, não deveria ser. Tampouco é um argumento centrado nos EUA, por sua falta de apreciação ou compreensão do verdadeiro espírito do futebol com seus paradoxos internos e fluxo sagrado.

É verdade que os americanos estão acostumados ao uso de revisão por vídeo em situações limitadas em sua Liga de Futebol Nacional, na Associação de Basquete Nacional e na Liga de Hóquei Nacional, que eles compartilham com os canadenses. Mas fãs de fora dos EUA também aceitaram este recurso na elite de esportes como críquete, rúgbi e hóquei.

A multidão em Wimbledon, um torneio que conseguiu misturar com eficácia tradição e modernidade, acatou o sistema de delimitação do campo Hawkeye.

Quanto ao fluxo sagrado, onde ele está quando os jogadores cercam o juiz após um gol questionável ou um cartão vermelho e impedem seu progresso, enquanto o pressionam e questionam? Quantas vezes o ritmo do futebol foi interrompido porque um jogador, após anos de treinamento na arte da enganação, vira ator e finge ter levado uma falta? Ou até ter sido cotovelado na cara em vez de simplesmente golpeado nas costelas (ver o desempenho de Kader Keita da Costa do Marfim nesta Copa do Mundo que levou à expulsão do astro brasileiro Kaká).

O tira-teima por vídeo de fato pode melhorar o fluxo do jogo mais popular do mundo, se usado de forma inteligente e moderada, em situações críticas apenas: após gols, na marcação de pênaltis ou em casos de cartão vermelho (momentos nos quais o jogo para de qualquer forma).

Como tradicionalista que valoriza o elemento humano nos esportes, duvidei da introdução do Hawkeye no tênis, mas eu estava errado. O sistema melhorou o jogo e a experiência da torcida e seria o mesmo para o futebol pela simples razão que as pessoas, não apenas as norte-americanas, querem que seus eventos esportivos sejam os mais justos possíveis.

No caso do futebol, é questão de justiça aos jogadores e aos fãs e a toda a emoção e expectativa gerada pelo esporte mais popular do mundo em seus grandes eventos (ninguém está falando em introduzir o tira-teima por vídeo em níveis mais baixos).

Também é uma questão de justiça para com os juízes, que cada vez mais ficam parecendo vítimas enquanto a aldeia global revê suas decisões plano a plano. Não é de espantar que o juiz sueco Martin Hansson tenha terminado o jogo chorando no vestiário, depois de perder a mão na bola de Thierry Henry que deu a vitória da França sobre a Irlanda e a qualificou para a Copa do Mundo, segundo meu colega Jeffrey Marcus do New York Times.

Dada a opção, Hansson não teria preferido acertar a decisão com o vídeo, em vez de viver com a culpa pelo resto da vida? E há também a lamentável imagem de Lannoy correndo ao lado de Fabiano e batendo no próprio braço justamente onde a bola bateu em Fabiano antes dele marcar o crítico segundo gol do Brasil contra a Costa do Marfim. Fabiano, com olhos espantados de surpresa, negou ter tocado na bola, apesar de mais tarde ter confessado aos repórteres na área mista.

Quando os juízes começam a buscar pistas interrogando os jogadores, é um sinal claro que estão prontos para ter a ajuda de uma tecnologia um pouco mais neutra. O que deveriam ter feito Henry ou Fabiano? Devolver o gol? Talvez esse seja o código de conduta no golfe, mas não é parte da cultura partidária do futebol.

Cabe às autoridades melhorarem o sistema e talvez, ao fazerem isso, os jogadores também melhorarão sua ética em campo. A hipocrisia aqui é que as autoridades da Fifa já examinam os vídeos do jogo para fazer decisões disciplinares ou avaliar os juízes.

Por que privar o esporte dos benefícios do vídeo? Não há uma resposta forte, nem há substância nos argumentos das autoridades da Fifa, como seu presidente, Sepp Blatter, que diz que o atual estado das coisas é preferível porque gera debates ou espelha a vida.

Na verdade, o que a maior parte das pessoas gosta nos esportes é que fornecem uma espécie de clareza que nem sempre acontece na vida.

Ater-se ao juiz e apenas ao juiz nesta era é igual uma pessoa se sentar na frente do computador, indagar qual é a população da Uganda e depois ficando nos escuro porque não tem um atlas à mão e se recusa a usar sua ferramenta de busca.

O futebol já tem tira-teima por vídeo. É feito pelo povo diariamente na Copa do Mundo e todos os grandes outros campeonatos. E é hora, realmente é hora, para o esporte e suas autoridades fazerem uso da tecnologia em vez de deixá-la funcionar contra eles.

 

Tradutor: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos