O aspecto negativo das sanções contra o Irã

Ray Takeyh

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À medida que Washington continua se desentendendo com o Irã, os Estados Unidos parecem ter arquivado aquela política que procuraria atrair Teerã para a mesa de negociações por meio de lisonjas e medidas no sentido de criar confiança entre os dois países.

Em vez disso, o governo Obama adotou uma política constituída de dois pilares, que consiste em aplicar pressão sobre o Irã e, ao mesmo tempo, permanecer aberto a um diálogo diplomático. Os objetivos continuam sendo os mesmos, mas a estratégia alterou-se da conciliação para a coerção.

Os aspectos mais importantes da nova política são a intensificação da pressão econômica, o fortalecimento das defesas dos Estados árabes do Golfo Pérsico e o aumento da presença naval dos Estados Unidos na periferia do Irã.

A ideia é que as resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), proibições financeiras informais que têm como alvo o setor de investimentos do Irã, envio direto de forças militares à vizinhança iraniana e vendas substanciais de armamentos para os emirados do Golfo Pérsico, se combinarão para fazer com que o Irã pague um preço pela sua intransigência.

Uma república islâmica sitiada e em dificuldades econômicas procuraria então a paz e retornaria à mesa de negociações como um parceiro mais flexível.

O problema é que, na melhor das hipóteses, essa abordagem gerará negociações lentas e, no fim das contas, inconclusivas.

A principal causa dos problemas econômicos do Irã é o mau gerenciamento da economia, a ineficiência e uma incapacidade de traçar uma rota econômica sensata. Três décadas após a revolução islâmica, a elite governante do Irã ainda é incapaz de reconciliar as desigualdades de uma economia de mercado com a promessa revolucionária de melhorar a situação dos pobres.

A solução encontrada por Teerã tem sido oferecer subsídios de produtos críticos, como o pão, os combustíveis e o açúcar. Os resultados têm sido previsivelmente desastrosos, e os subsídios continuam a impor um fardo pesado sobre a economia. Sanções econômicas poderiam compelir a corrupta elite governante a revisar as suas premissas relativas à política externa. Embora sejam frequentemente retratados como ideólogos rígidos e puros, os mulás são também políticos gananciosos, sensíveis à perda de renda nacional.

No entanto, qualquer impulso iraniano no sentido de aquiescer provavelmente seria anulado pela outra faceta dessa tática de pressões – a militarização do Golfo Pérsico.

A injeção maciça de armas dos Estados Unidos nos países do Golfo Pérsico e uma armada norte-americana ameaçadora patrulhando as costas do Irã provavelmente teriam um impacto sobre os cálculos estratégicos do Irã. Os governantes do Irã perceberão que o equilíbrio de poder militar convencional está se inclinando drasticamente contra eles.

Sem contar com uma indústria sofisticada de armamentos e vendo-se cada vez mais incapaz de ter acesso aos seus tradicionais fornecedores, como a Rússia, o Irã provavelmente ficaria ainda mais fascinado pelo valor dissuasivo dos armamentos nucleares. Somente com a posse dessas “armas estratégicas” o Irã acreditará ser capaz de compensar o desequilíbrio do poderio militar convencional.

Portanto, essa política de dois pilares está efetivamente prejudicada pelas suas próprias contradições. As sanções poderão fazer com que o Irã retorne à mesa de negociações, mas esse será um Irã determinado a não ceder a sua vantagem militar nuclear.

Além dessas inconsistências internas, a política de dois pilares padece de uma incompreensão da história iraniana.

A transformação mais fundamental da política externa do Irã não resultou de pressões externas, mas sim de mudanças políticas internas.

Durante o seu interlúdio reformista, a república islâmica procurou se reconciliar com a comunidade internacional, não com o objetivo de escapar de sanções econômicas, mas sim porque o conceito de responsabilidade democrática do ex-presidente Muhammad Khatami estava vinculado a uma política externa responsável.

A essência da visão reformista foi o seu reconhecimento implícito de que o isolamento do Irã devia-se em parte à própria conduta do país. Foi a inclinação do Irã pelo terrorismo e pela subversão, bem como as suas declarações irresponsáveis, que colocaram o país fora da comunidade das nações.

Embora a tentativa dos reformistas de criar um Irã mais responsável tenha sido obstruída pelos clérigos de linha dura, esses reformistas provaram que somente um regime legitimado pela aprovação popular pode ser ser confiável no que diz respeito a respeitar as normas internacionais.

O atual movimento verde iraniano é o sucessor da facção da reforma – e ele se constitui na única rota realista para os Estados Unidos rumo a um acordo nuclear construtivo e durável com o Irã.

Assim como os reformistas, os verdes acreditam que o fortalecimento democrático no país gera uma política externa que reconhece as convenções prevalecentes.

Assim, os verdes adotam a détente e a cooperação como sendo os melhores meios de atender aos interesses práticos do Irã. Uma estratégia viável de relacionamento seria apoiar e capacitar as pressões do movimento democrático por uma transformação genuína da república islâmica.

(Ray Takeyh é membro do Conselho de Relações Internacionais dos Estados Unidos)

Tradutor: UOL

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