Empresas de telecomunicações ibéricas brigam pelo mercado de celulares do Brasil

Raphael Minder

Em Madri (Espanha)

  • Flávio Florido/UOL

A Telefônica da Espanha e a Portugal Telecom estão brigando pelo controle de seu joint venture brasileiro de telefonia móvel, em uma disputa que poderá determinar qual das empresas atingirá suas ambições globais.

O resultado terá consequências particularmente importantes para a Portugal Telecom, cuja atividade no exterior se apoia no Brasil, um mercado emergente que passa por um boom e é uma ex-colônia portuguesa.

Os acionistas da Portugal Telecom decidirão na quarta-feira se aceitam uma oferta melhorada da Telefônica, no valor de 6,5 bilhões de euros, pelo 50% da Portugal Telecom na holding que controla a Vivo, a maior operadora de telefonia móvel no Brasil.

O grupo português recomendou aos investidores que rejeitem a oferta espanhola, argumentando que permanecer no Brasil –onde o número de assinantes de telefones celulares cresceu 15% no ano passado– é essencial para sua estratégia de desenvolvimento.

Acentuando a batalha, o governo português se envolveu recentemente no assunto, insistindo que a Portugal Telecom é um ativo nacional que precisa permanecer uma líder no setor.

“É importante assegurar que tenhamos uma empresa de telecomunicações com dimensão internacional”, disse José Sócrates, o primeiro-ministro português, aos legisladores na sexta-feira.

Sócrates também disse que a Caixa Geral de Depósitos, o banco estatal que detém 7,3% de participação acionária na Portugal Telecom, foi instruído a votar contra a oferta espanhola.

Os analistas concordam que a perda da Vivo relegaria a Portugal Telecom a um segundo plano no setor. Mas esses mesmos analistas questionaram se a empresa teria condições de rejeitar uma oferta espanhola generosa, que permitiria à Portugal Telecom dar um melhor retorno aos seus acionistas e fortalecer consideravelmente suas próprias finanças.

Sem a Vivo, a Portugal Telecom “seria uma operadora de menor escala com uma tendência de crescimento negativa”, escreveu Luigi Minerva, um analista do HSBC em Londres, em uma recente nota de pesquisa. Por outro lado, “esta poderia ser uma oportunidade para a Portugal Telecom recuperar a força no balancete”.

O lucro líquido da Portugal Telecom caiu 40% no primeiro trimestre em comparação ao ano anterior, para 100 milhões de euros, enquanto sua dívida líquida atingiu 5,66 bilhões de euros.

O confronto entre as duas ex-parceiras acentua a determinação de algumas empresas europeias em expandir sua presença em mercados emergentes como o Brasil, para ajudar a compensar os lucros mais fracos em casa.

Espanha e Portugal estão em primeiro plano na crise da dívida europeia, o que levou seus respectivos governos a buscarem grandes cortes de gastos para reduzir os déficits crescentes.

Os lucros domésticos de ambas as empresas já estavam sob forte pressão, com a redução dos gastos pelos consumidores. A receita da Telefônica na Espanha caiu 3,9% no primeiro trimestre, enquanto a receita de suas subsidiárias no Brasil e outros países latino-americanos cresceu 4,2%.

A Portugal Telecom enfrenta um padrão semelhante, com queda de 6,5% em sua receita de serviços de telefonia móvel domésticos no primeiro trimestre, enquanto a receita de seus serviços de telefonia móvel no Brasil cresceu 26%.

“Eu acho que há um elemento de pagar pelo crescimento, dadas as perspectivas ruins na Europa”, disse David Stix, chefe de trading da Iberian Equities, uma corretora espanhola. “É difícil dizer quando as coisas melhorarão na Europa, dada toda a austeridade.”

O resultado da votação pelos acionistas da Portugal Telecom é incerto, especialmente após o recente rearranjo dos grandes investidores institucionais na empresa. Apenas aproximadamente um terço das ações da Portugal Telecom está em propriedade de investidores domésticos.

A Portugal Telecom já disse neste mês que a TPG-Axon Capital Management, um fundo hedge, adquiriu uma participação de 4%, enquanto o UBS, um banco suíço que está prestando consultoria à Telefônica, dobrou seus direitos de voto na Portugal Telecom para 6%.

Enquanto isso, a Telefônica, que era a maior acionista da Portugal Telecom, vendeu grande parte de sua participação acionária de 10% nos últimos dias para compradores desconhecidos. O presidente da Portugal Telecom ameaçou impedir a Telefônica de votar a respeito da transação devido a um conflito de interesse.

Em um sinal de quão tenso o conflito brasileiro se tornou, a Telefônica também ameaçou fazer uma oferta hostil pela Portugal Telecom caso sua oferta pela Vivo seja rejeitada. Enquanto isso, Sócrates disse no mês passado, durante uma visita ao Brasil, que seu governo poderia usar a chamada “golden share” para vetar a oferta. Mas é improvável que isso aconteça. O Tribunal de Justiça Europeu deverá julgar em 8 de julho se a golden share do governo na Portugal Telecom é legal. Os analistas do tribunal esperam que este decida contra o governo português.

Os analistas entrevistados tiveram dificuldade em identificar uma aquisição que a Portugal Telecom poderia fazer caso vendesse sua participação na Vivo para a Telefônica. A opção mais óbvia –distribuir o dinheiro da Vivo aos acionistas como dividendo– pode não ser tão atraente para a administração, mas “a pior coisa que poderiam fazer é uma aquisição às pressas”, disse Georgios Ierodiaconou, um analista de telecomunicações do ING em Londres.

A Vivo detém 30% do mercado brasileiro de telefonia móvel, o maior na América do Sul.

No mês passados os analistas do Nomura aumentaram sua previsão de quantos usuários a Vivo poderia acrescentar nesta ano, de cinco milhões para oito milhões, após um forte primeiro trimestre no qual a Vivo aumentou sua base de usuários em 18%.

Em sua nota sobre a Telefônica, os analistas do Nomura disseram que apesar da fraqueza do mercado espanhol, “nós permanecemos confiantes de que o crescimento acelerará neste ano, particularmente dada a atividade comercial ressurgente na América Latina”.

A Telefônica deseja controle pleno para a fusão da Vivo com a Telesp, sua subsidiária brasileira de linhas fixas, ampliando assim sua oferta. A Vivo enfrenta a concorrência em seu mercado da Oi, uma empresa brasileira, e da America Movil, que é de propriedade de Carlos Slim, o bilionário mexicano.

Ressaltando o crescente interesse estrangeiro no lucrativo mercado brasileiro, a Telefônica perdeu uma disputa de lances em novembro contra a Vivendi, a empresa francesa, para compra da GVT, outra operadora brasileira.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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