Em busca de uma filosofia digital

Anand Giridharadas

Bombaim (Índia)

  • Joern Pollex/Getty Images

    Goleiro alemão Neuer vê a bola entrar em um forte chute de Lampard (d), mas o árbitro anulou o gol, alegando que a bola não entrou

    Goleiro alemão Neuer vê a bola entrar em um forte chute de Lampard (d), mas o árbitro anulou o gol, alegando que a bola não entrou

O mundo inteiro viu o gol claramente, mas o juiz e os bandeirinhas não. E, nesta era das câmeras onipresentes e das verdades fornecidas por inúmeras fontes, surpreendentemente, o erro de uns poucos indivíduos prevaleceu diante daquilo que foi mostrado pelas câmeras e visto pelos olhos de muita gente.

Assim, apesar das desculpas apresentadas dias depois por Sepp Blatter, o presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol), e de uma promessa de reavaliar a questão da tecnologia nos jogos, a Inglaterra não recuperou o segundo gol que marcou contra a Alemanha no fim de semana passado.

Qual poderia ter sido o resultado do jogo se a Inglaterra tivesse entrado no segundo tempo com a tranquilidade psíquica condizente com um placar empatado? Torcedores e comentaristas ficaram furiosos: como é que esses jogos multibilionários podem desprezar uma tecnologia que é encontrada em qualquer telefone celular comum? Por que não adotar o inevitável?
 

Mas uma outra forma de enxergar a abordagem da Fifa é como um ato raro e revelador de resistência em uma era incessantemente digitalizadora.

A tecnologia é criada pelo ser humano. Mas nos dias de hoje, nós agimos de forma a organizar a vida em torno dos aparelhos tecnológicos, em vez de fazermos com que estes é que existam em nossa função. Se os tecnologistas vendem banda larga de acesso ininterrupto, nós nos tornamos criaturas que acessam ininterruptamente o ciberespaço. Se eles inventam um novo aparelho, nós fazemos fila para comprar a novidade antes de sequer sabermos como usá-la. Se os e-mails podem chegar até nós em qualquer lugar, nós assumimos que eles têm que nos ser enviado em qualquer lugar em que nos encontremos.

O ceticismo digital da Fifa é uma exceção notável a essa cultura. Em uma declaração notável feita três meses antes da Copa do Mundo, a associação não apresentou simplesmente um argumento ludista para explicar essa sua reticência. Ela falou de um jogo caracterizado por certas essências profundas que a associação deseja preservar, e argumentou que a tecnologia ameaça essas essências.

No topo dessa filosofia está o universalismo; uma pelada jogada em um favela de Bombaim parece-se com o jogo disputado na Copa do Mundo, contando com as mesmas regras, ritmos e ritos. Naquela ocasião a Fifa sugeriu que a digitalização dos campeonatos de elite acabaria com essa universalidade. A repetição dos lances em vídeo tornaria o jogo nas divisões de elite conturbados e faria com que eles fossem eternamente interrompidos, como ocorre com o basquete. A continuidade narrativa que define o esporte desapareceria. E a clareza do julgamento automatizado poderia privar os torcedores do “debate” apaixonado, disse a Fifa na sua declaração.

A Fifa apresentou um argumento que está se tornando difícil de contestar: digitalizar uma determinada coisa não significa apenas injetar eficiência nela. Em muitos casos, isso significa também modificar essa coisa de uma forma fundamental, dando a ela uma nova essência.
Digitalizar o esporte, a leitura de livros e o namoro – tudo isso se constitui em uma ação transformadora. E as transformações podem ser boas, ruins ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Boa ou ruim, a digitalização faz emergir escolhas difíceis quanto às essências das atividades humanas específicas, e nos faz titubear na hora de decidir quais delas deverão ser modificadas em nome da velocidade proporcionada pela tecnologia. Mas nós frequentemente empacamos diante dessas opções, em vez de fazermos escolhas.

Uma nova filosofia digital poderia servir como um guia, mas os filósofos raramente são tecnologistas, e os tecnologistas raramente são filósofos. Os indivíduos que são bons em lidar com as questões do tipo “por que” e aqueles que se especializam nas do tipo “como” raramente dialogam entre si. O número de filósofos que se debruçaram sobre as questões que surgiram com a biomanipulação é muito maior do que o daqueles que abordaram os dilemas mais imediatos derivados do fato de nos tornarmos uma população digital.

Como é que preservaremos um tempo para a reflexão se levarmos uma vida instantaneamente digitalizada? Como poderíamos usar a tecnologia para ler de forma mais abrangente e eficiente do que antes, sem que perdêssemos a capacidade de ler textos com profundidade? Como blogueiros e tweeters, como é que nós encontraremos um ponto de equilíbrio entre a velocidade com que temos acesso a ideias no mundo digital e a deliberação de pensarmos no sentido de termos as nossas próprias ideias?

“É preciso haver tempo para a coleta eficiente de dados e para a contemplação ineficiente; tempo para operarmos a máquina e tempo para nos sentarmos sem fazer nada no jardim”, argumenta Nicholas Carr, o escritor especializado em tecnologia, no seu novo livro, “The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains” (algo como, “A Superficialidade: O Que a Internet está Fazendo com os Nosso Cérebros”). Ele acrescenta: “O problema hoje em dia é que nós estamos perdendo a nossa capacidade de alcançar um equilíbrio entre esse dois estados de espírito muito diferentes”.

Hoje em dia, muita gente trabalha em uma zona difusa de interação de mão dupla: a informação chega até nós na tela durante várias horas por dia, enquanto nós, por outro lado, transferimos o conteúdo da nossa mente para a tela. Será que algumas atividades, como escrever e fazer contabilidade, são realizadas de uma maneira mais efetiva com a interrupção do fluxo de dados que chega até nós pela Internet, algo que pode ser feito com softwares que possuem nomes como Freedom (Liberdade)?

Como é que criamos canais para que os cidadãos participem no governo e interajam com a mídia de maneiras que façam emergir aquilo que há de mais construtivo, e não de mais selvagem, na natureza humana?

Que verdades não podem ter como fontes as massas? Em que áreas a sabedoria das multidões, reunida digitalmente, se constitui em sabedoria real, e em que setores se faz necessária uma noção precedente de autoridade?

A mídia social está criando aldeias virtuais, definidas por redes de altruísmo e de sociabilidade generalizada. Mas elas também trazem de volta as aflições da aldeia: a falta de privacidade, a intolerância, a disseminação de boatos. Como trazer de volta o calor da aldeia, mas não a claustrofobia que fez com que tantos aldeões se mudassem para as cidades?

Como cultivar a arte da conversação em um tempo fragmentado? Com tantos instrumentos de comunicação à nossa volta, nós tendemos a nos comunicar com menos profundidade: um bar lotado, e não uma festa de jantar; a atualização do Facebook pela ligação telefônica. Será que existem formas de obter valores a partir destas novas ferramentas, que ajudam a manter um círculo de relações mais amplo do que os círculos antigos, sem que percamos a capacidade de interagir profundamente com outras pessoas e escutar as suas histórias?

Por ora, a Fifa lembrou a todos que as ofertas da tecnologia não são inevitabilidades, mas sim escolhas, e que nós não temos necessariamente que adotar novos estilos de vida apenas porque estes estilos foram inventados. Continua sendo possível determinar primeiro o tipo de vida que desejamos levar, e só depois disso questionar como as magníficas estruturas digitais baseadas em zeros e uns podem ser incumbidas da tarefa de tornar esse tipo de vida real.

 

Tradutor: UOL

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