Abordagem de supostos imigrantes ilegais causa polêmica do Japão

Kumiko Makihara

Tóquio (Japão)

  • Junji Kurokawa/AP

    Segurança vigia banco em Tóquio

    Segurança vigia banco em Tóquio

Eu nunca havia visto o racial profiling (abordagem de um indivíduo pela polícia baseado em características raciais ou étnicas) como um problema pessoal. Afinal, eu sou uma mulher japonesa que mora no Japão, onde menos de 2% da população é estrangeira. E mesmo dentre esses 2%, a maioria é asiática. Como poderia haver racial profiling se todo mundo tem a mesma aparência?

Mas eu fui despertada dessa ingenuidade alguns anos atrás, quando passei a ser parada pela polícia, aparentemente para que esta verificasse se eu era uma imigrante ilegal. Em três ocasiões, os policiais caminharam furtivamente até mim em movimentadas estações de trem, exibindo as suas insígnias e me perguntando aonde eu ia. Quando concluíram que eu era uma cidadã japonesa, eles me deixaram em paz.

No início deste ano, dois policiais se aproximaram de mim quando eu saía da Estação de Tóquio e pediram para ver a minha carteira de identidade e o conteúdo da minha bolsa. Eu me recusei a atender aos pedidos insistentes deles e exigi uma explicação, até que um policial finalmente me disse: “Você é alta e tem pele escura e, portanto, parece estrangeira”. Ele acrescentou a seguir, “Todos os dias nós pegamos quatro ou cinco ilegais desta forma”, referindo-se aos imigrantes com vistos vencidos.

Eu fiquei chocada com a forma ofensiva como fui abordada, com base naquilo que eu percebia como sendo apenas minhas características físicas um pouco incomuns: um pouco mais alta do que a média e meio bronzeada. Mas a visão microscópica em busca de diferenças é uma característica comum entre os japoneses, que frequentemente sentem desconforto em lidar com qualquer coisa que fuja ao padrão das suas zonas familiares.

Os policiais que se aproximaram de mim suspeitando que eu fosse uma imigrante ilegal estavam presumivelmente agindo de acordo com a Lei de Execução de Deveres Policiais do Japão: “Um policial pode deter e questionar qualquer pessoa caso tenha motivos razoáveis para suspeitar de que essa pessoa cometeu ou está a ponto de cometer um crime”.

A lei japonesa é mais abrangente do que a polêmica legislação do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, que entrará em vigor neste mês, e que permite que a polícia verifique a situação da pessoa no que diz respeito à imigração, após abordá-la por outros motivos. “A mesma coisa que está ocorrendo no Arizona está em vigor no Japão há muito tempo sem que haja muita crítica”, diz o meu primo e advogado Genichi Yamaguchi.

A maioria dos japoneses não tem consciência dessas abordagens policiais racialmente motivadas. Mas mesmo se tivessem, é de se duvidar que eles manifestassem qualquer objeção. A abordagem baseada em características étnicas é uma prática comum aqui, com uma troca casual de informações pessoais. Os detalhes coletados de um cartão pessoal ou atitudes como perguntar em que universidade um indivíduo estudou ou qual o seu tipo sanguíneo servem como indicações para prever como é que cada pessoa se comportará.

Como mãe solteira que morou no exterior e tem sangue do tipo A, eu sou vítima de estereótipo, sendo considerada suficientemente teimosa para decidir me virar sozinha, alegre ao lidar com todos os tipos de pessoas e dotada de uma seriedade que a crença popular atribui às pessoas que têm o meu grupo sanguíneo.

Tais estereótipos assumem cunho racista quando são aplicados a estrangeiros. “Os chineses não sabem como se comportar em trens”, eu ouvi um homem dizendo recentemente, ao ver uma mulher chinesa falando em voz alta no seu telefone celular. Em uma viagem de ônibus à cidade de Nara, no oeste do país, vários passageiros japoneses reclamaram de que os filipinos a bordo que tinham dificuldades em acompanhar o ritmo apressado da apreciaçãoda paisagem “não sabiam o que é 'dantai kodo'”, ou comportamento de grupo. Quando uma filipina foi ao banheiro, uma japonesa resmungou, dizendo que ela deveria ter esperado em sinal de consideração para com o programa agendado pelo grupo. É incrível presenciar tal intolerância, quando o governo está no meio de uma grande campanha para aumentar o turismo no país, e neste mês reduziu as exigências para pedidos de vistos por parte de visitantes chineses.

Há até indicações perturbadoras de que os japoneses cada vez se preocupam menos em entender os territórios não familiares que ficam além das suas fronteiras. Somente um estudante do Japão ingressou como aluno do primeiro ano na Universidade Harvard no ano passado, fazendo com que o número de estudantes japoneses de graduação naquela universidade chegasse a cinco, comparado a um total de 36 da China e 42 da Coreia do Sul.

Uma pesquisa de 2007, baseada na Internet e feita pelo Instituto de Pesquisas Nomura, revelou uma relutância crescente por parte dos jovens japoneses em morar no exterior. Enquanto 33% dos homens e 23,9% das mulheres com mais de 60 anos disseram que têm alguma aversão à ideia de morarem no exterior, a percentagem de pessoas entre 20 e 30 anos de idade que manifestaram esse sentimento foi de 42,9% e 38,9%, respectivamente.

Da próxima vez que um policial me parar, eu pretendo explicar a ele que suspeitar que eu cometi um crime simplesmente porque pareço estrangeira se constitui em racial profiling. O único problema é que não existe um termo em japonês para designar essa prática.


(Kumiko Makihara é escritora e tradutora e mora no Japão).

Tradutor: UOL

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