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Forte poluição não é amplamente discutida na China

Didi Kirsten Tatlow

  • Anat Givon/AP

    Nuvens de poluição envolvem os edifícios em Hong Kong, na China

    Nuvens de poluição envolvem os edifícios em Hong Kong, na China

Todos os dias, a página de previsão meteorológica do popular jornal “New Beijing News” fornece vários conselhos úteis para aqueles cidadãos que desejam se exercitar de manhã bem cedo, subir uma montanha ou lavar o carro. Mas, assim como outros grandes jornais de uma das cidades mais poluídas do mundo, ele não lhes diz algo realmente importante: qual é o índice de poluição atmosférica. Nesta semana, a temperatura chegou a 40 graus centígrados. “Usem roupas de manga curta”, alertou o jornal, colocando a frase ao lado de um desenho de uma camisa pólo. E, “Não haverá chuva nos próximos dois dias; condições apropriadas para lavar o seu carro” (após a chuva, os carros ficam frequentemente cobertos com linhas de poeira, como se fossem faixas de areia na arrebentação das praias, nos locais em que a água secou após passar por um céu poluído). Os horários do nascer e do por do sol não são especificamente mencionados, mas a página informa quando a bandeira nacional será hasteada e abaixada na Praça da Paz Celestial, já que saber quando a bandeira será hasteada por um soldado de luvas brancas do Exército Popular de Libertação equivale a conhecer o horário em que o sol vai nascer. E saber quando a bandeira será abaixada equivale a saber quando o sol irá se por. No domingo, a bandeira desceu do mastro às 19h47. Na manhã seguinte ela foi hasteada às 4h31. Mas, sobre a poluição, não há uma só palavra. Dezesseis das 20 cidades mais poluídas do mundo ficam na China, segundo a Organização Mundial de Saúde, e a poluição é o principal motivo pelo qual milhares de chineses ricos migram para o ocidente todos os anos, apesar da riqueza crescente do país. E aqueles indivíduos que precisam vir para cá podem relutar bastante em se mudarem. E, quando mudam, muitos deles procuram encurtar o período passado aqui. E aqueles que têm que ficar por muito tempo manifestam preocupações, de forma discreta ou estridente, e procuram tirar os filhos daqui por pelo menos quatro semanas consecutivas por ano, a fim de que eles possam limpar os pulmões, segundo conselhos dos médicos. é claro que sempre se pode verificar o website do Ministério da Proteção Ambiental, que mostra o índice Nacional de Poluição Atmosférica. Mas as dúvidas em relação à confiabilidade desse índice são generalizadas. O Greenpeace observa que a Organização Mundial de Saúde conta com dois padrões relativos à qualidade do ar – um para o mundo desenvolvido e um outro, menos rigorosa, para os países em desenvolvimento – e que o padrão para a China é inferior a ambos. Assim, nós acessamos o BeijingAir, o informativo via Twitter fornecido de hora em hora pela Embaixada dos Estados Unidos na China, baseado em dados de monitores independentes instalados na área da embaixada. No domingo, o BeijingAir dizia, “Prejudicial à Saúde” para PM2.5 (partículas finas que podem penetrar na corrente sanguínea através dos pulmões, e que são consideradas particularmente perigosas) e “Muito Prejudicial à Saúde” para o ozônio, que mede as reações fotoquímicas entre os poluentes e a luz solar. Já a informação do site do governo chinês para aquele dia dizia “Condições Boas”. O índice oficial não mede a concentração de PM2.5 nem de ozônio, mas apenas de PM10 (partículas maiores, que podem ser frequentemente expelidas por meio da tosse), dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre. Todos em Pequim podem ver e cheirar a poluição e, mesmo assim, muita gente parece relutar em enfrentar o problema de frente. A falta de informação pode ser um motivo para isso, aliada a uma sensação de impotência: de que adiantaria lutar contra algo que o cidadão comum não tem como mudar? A poluição é um subproduto da política econômica governamental de crescimento a qualquer preço. é interessante que foi apenas nos últimos dois anos que as pessoas começaram a usar a palavra “smog” (espécie de névoa seca carregada de poluição). A maioria dos habitantes diz “fog” (neblina). Quando a qualidade do ar fica muito ruim, atribui-se isso às condições climáticas, como se a poluição fosse inevitável e o culpado real fosse o vento, por não soprá-la para longe. Em um recente voo da Air China de Xangai para Pequim, o piloto australiano anunciou que não haveria nada a ser visto durante o pouco “devido ao intenso smog”. Eu fiquei chocado ao ouvir o problema sendo descrito de forma tão direta. Uma conversa privada com um amigo ou um motorista de táxi é uma coisa, mas este era um Boeing 767 que transportava mais de 200 chineses afluentes. Smog em Pequim? Será que o piloto ficaria encrencado? Eu me esforcei para ouvir a tradução para o chinês. A comissária de bordo traduziu, “Há neblina em Pequim”. Nós aterrissamos sob péssimas condições de visibilidade e, no trajeto de táxi para casa, eu senti o cheiro de produtos químicos no ar. é claro que o governo sabe que há um problema e ele implementou algumas medidas, incluindo padrões mais modernos de emissão para os veículos automotores. No final de junho, ele anunciou um plano para integrar os sistemas de controle de poluição nas três maiores regiões industriais da China, em torno de Pequim, no norte, em Wuhan, na parte central, e em Guangzhou, no sul. O plano, que só entrará em efeito em 2015, tem como objetivo combater problemas regionais como a chuva ácida e a névoa seca. “Esses problemas tornaram-se cada vez mais intensos na China nos últimos anos e eles representam uma grave ameaça à saúde das pessoas”, afirmou Zhang Lijun, vice-ministro da Proteção Ambiental, em uma entrevista ao jornal estatal “China Daily”. O governo passará também a monitorar o ozônio e as partículas finas, algo que os ambientalistas reivindicam há muito tempo. O BeijingAir da Embaixada dos Estados Unidos já está fazendo isso, mas nem todo mundo pode ler o relatório, já que o Twitter é bloqueado na China. Para muitos chineses, os cerca de US$ 100 (R$ 176) anuais que são cobrados por um VPN, um servidor estrangeiro capaz de burlar a censura imposta pelo governo, são uma quantia muito elevada. Os números apresentados fazem com que a leitura seja penosa. Uma amiga norte-americana, mãe de três filhas pequenas, diz que esse é um dos seus aplicativos favoritos, e o instalou no seu iPhone. Eu admiro a atitude dela, mas acho difícil compartilhar o seu entusiasmo. Mais típica é a atitude de uma outra amiga: “Eu parei de checar. Não faz sentido, a situação é sempre a mesma”. E isto é de fato o que ocorre. Regularmente, o nível de partículas finas é superior a 100 (“Prejudicial à Saúde”) ou 200 (“Muito Prejudicial à Saúde”). A escala vai de 0 a 500. Um valor até 50 é considerado “Bom”, e acima de 300 é “Perigoso”. Mas quando a situação chega a “Muito Prejudicial à Saúde” ou “Perigoso”, não é preciso ler relatórios para que se saiba disso. A cidade desaparece na névoa seca, o ar cheira a ácido e fumaça, árvores e edifícios começam a desaparecer na distância. Ocasionalmente o valor chega a 500, significando que a poluição superou o valor máximo da escala de medição, o que é realmente assustador. às vezes a tabela diz “Bom”, ou, mais frequentemente, “Moderado”. Aqui, isso significa “ótimo! Nós olhamos para o céu e ele parece estar, para nós, bastante azul”. Eu dei uma checada. A leitura para PM2.5 é de 123, o que significa “Prejudicial à Saúde para Grupos Sensíveis”. Bem, poderia ser pior.

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