Fazendo uma avaliação, cinco anos após o ataques em Londres

Alan Cowell

  • Reuters

    Britânicos lembram cinco anos dos atentados em Londres, que mataram mais de 50 pessoas

    Britânicos lembram cinco anos dos atentados em Londres, que mataram mais de 50 pessoas

Com pouco barulho ou pesar público, passamos por um aniversário nesta semana: cinco anos atrás, terroristas suicidas britânicos mataram 52 pessoas em Londres, fazendo com que o Reino Unido partisse para uma autoanálise e se perguntasse por que a sua sociedade cada vez mais diversificada sob o ponto de vista étnico criou pessoas que desejam destruí-la.

Quem estava em Londres em 7 de julho de 2005 não irá se esquecer facilmente dos silêncios desnorteantes, da angústia dos sobreviventes, das legiões estoicas de cidadãos que caminhavam pelas ruas depois que os metrôs e os ônibus deixaram de funcionar, do medo de que as campanhas militares britânicas de apoio aos Estados Unidos tivessem trazido para o Reino Unido uma conta cara em termos de vidas humanas.

Cinco anos depois, o que mudou?

Sem dúvida, os serviços de segurança alegaram sucesso na missão de neutralizar conspirações de grupos, em montar um sistema próprio composto de agentes operacionais que veem e escutam suspeitos, e em criar ruas mais seguras nas quais o eco do dia 7 de julho, se não desapareceu, pelo menos diminuiu de volume.

Mas a história do fato não se resume a isso. O Reino Unido, assim como outros países, está combatendo militantes islâmicos em diversas frentes, e existem poucas notícias inequivocamente boas vindas de qualquer uma delas. O legado de 7 de julho é um legado de intranquilidade e incerteza, e, na melhor das hipóteses, ele se constitui em um trabalho ainda em andamento.

No dia do aniversário dos ataques, houve notícias de que o MI5, o serviço de inteligência interna do Reino Unido, estaria investigando duas celas ativas de conspiradores. No mesmo dia, a polícia britânica prendeu um jovem paquistanês acusado de ter vínculos com conspirações em andamento no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Também em 7 de julho, autoridades britânicas decidiram anunciar a substituição das suas forças militares em Sangin, uma área altamente contestada no Afeganistão, por fuzileiros navais dos Estados Unidos.

O “remanejamento” – as autoridades insistiram que não se trata de uma retirada – fez com que muita gente voltasse a questionar se o preço do combate no Afeganistão não tem sido excessivamente alto: quase um terço das 312 mortes britânicas em combate desde o início da guerra, em 2001, ocorreu em Sangin.

Os políticos dizem constantemente que a presença de soldados britânicos no Afeganistão tem como objetivo trazer estabilidade e segurança para uma terra que é instável e insegura há décadas e, desta forma, impossibilitar que terroristas contem com uma base para maquinar ataques contra o Ocidente. Mas esse argumento não convence muita gente, e especialmente aquelas pessoas que só associam o Afeganistão com perdas de vidas.

“Por que nós fomos nos meter lá?”, questiona Robin Hollington, pai de Richard, um fuzileiro naval britânico que morreu em Sangin pouco antes do anúncio da retirada que está sendo planejada.

No jornal “The Guardian”, o colunista Simon Tisdall escreveu: “Agora que os britânicos estão deixando Sangin, muita gente vai perguntar qual foi o objetivo dessa campanha, por que nós fomos para lá e o que foi realizado – se é que algo foi realizado – a um custo terrível em termos de uma grande quantidade de jovens homens e mulheres que morreram ou ficaram mutilados”.

No Reino Unido, assim como em outros lugares, o terrorismo é uma criatura com cabeça de hidra, uma colisão de fés e extremos, um problema referente a sociedades ocidentais desafiadas por aqueles que sonham com um novo califado, e a fanáticos que oferecem aos seus recrutas um catálogo sinistro de prêmios mortais, como por exemplo o vídeo póstumo obrigatório no qual o extremista suicida alega que é um mártir.

Mas a militância também procura um nicho fértil nas feridas não cicatrizadas das sociedades europeias, que ainda não encontraram formas de absorver os hábitos e os costumes de indivíduos que no passado eram forasteiros imigrantes, e que se tornaram integrantes da comunidade, como cidadãos que possuem os seus próprios pontos de vista.

Dentro de alguns dias, o parlamento francês deverá submeter à votação um projeto de lei para proibir a cobertura total da face em locais públicos, abrindo exceções para máscaras de carnaval ou barbas de Papai Noel, mas não para o niqab, o véu que cobre a face inteira, ou a burqa, que cobre não só o rosto, mas o corpo inteiro, e que são usados por apenas uma fração das mulheres que integram a população muçulmana da França, de cinco milhões de indivíduos – a maior da Europa.

Seguindo exemplos estabelecidos na Bélgica e na Espanha, a ação francesa tem como objetivo ostensivo sincronizar os “outros” com os seus exaltados valores republicanos e secularismo generalizado.

Mas essas medidas lidam com símbolos, não com almas, e o risco é que, ao visarem uma minoria tão pequena, elas inquietem a maioria, intensificando a conclusão de que uma campanha mais ampla e mais sinistra está em andamento.

No Reino Unido, pouco antes do aniversário do 7 de julho, grupos de direitos humanos investigavam um plano das autoridades de Birmingham no sentido de instalar 218 câmeras de vigilância, algumas delas ocultas, sob a alegação de que todas elas teriam como objetivo combater a criminalidade.

Na verdade, a campanha de vigilância foi financiada por autoridades da área de contraterrorismo, e se concentrava em áreas da cidade que possuem uma grande população muçulmana. Em resposta à acusação de que os muçulmanos estariam sendo estigmatizados, as autoridades recuaram, afirmando que cobririam as câmeras com sacolas plásticas.

“Mas, para nos tranquilizar, será necessário muito mais do que sacolas plásticas”, afirmou Salma Yaqoob, uma política muçulmana famosa da cidade.

Sob o ponto de vista das autoridades, é difícil ver como as agências de contraterrorismo poderiam tomar medidas contra o extremismo clandestino sem que adotassem elas próprias táticas clandestinas: grampos telefônicos e vigilância visual de indivíduos, utilização de informantes e infiltradores, bem como de desinformação e mentiras – a totalidade das técnicas desenvolvidas para lidar com o Exército Republicano Irlandês ou com os espiões estrangeiros da Guerra Fria, e que foram agora atualizadas para a era da internet.

Em janeiro deste ano, o MI5 elevou o seu nível de ameça terrorista para “severo”, significando que algum novo ataque é, segundo as definições da agência, “altamente provável”.

Um lembrete sobre o que este “altamente provável” poderia significar veio na última quinta-feira, quando um tribunal de Londres determinou que três homens eram culpados de conspirar para cometer assassinatos, em 2006, por meio de um ataque a aviões de passageiros que voam do Reino Unido aos Estados Unidos e ao Canadá. Esse ataque provocaria a morte de centenas de pessoas.

Além do mais, o plano para uma retirada militar de Sangin intensificou a impressão entre alguns britânicos de que o conflito com o Taleban colocou as forças armadas do país em uma guerra impossível de ser vencida – e cada vez mais uma guerra exclusiva dos Estados Unidos – e com um número de baixas cada vez mais elevado.

Assim como os seus antecedentes históricos nos séculos 19 e 20, a campanha afegã não se desenrolou da forma que os políticos prometeram. Falar de estratégias de retiradas não é mais um tabu, e a nova coalizão liderada pelo primeiro-ministro David Cameron pouco está fazendo no sentido de desencorajar isso.

“Eu não acredito em cronogramas de curto prazo”, disse recentemente Cameron ao falar sobre a guerra no Afeganistão. “Porém, como tenho a forte impressão de que isso é algo que nós não estaremos fazendo daqui a cinco anos, creio que essa é uma decisão correta”.

Tradutor: UOL

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