Música de "nacionalista" polonês ecoa em toda a China

Sheila Melvin

Pequim (China)

  • Janek Skarzynski / AFP

    Mural homenageia o compositor Frederic Chopin (1810 - 1849) em Varsóvia, na Polônia

    Mural homenageia o compositor Frederic Chopin (1810 - 1849) em Varsóvia, na Polônia

O grande compositor polonês Frederic Chopin é um dos mais adorados músicos da música clássica, admirado por suas composições líricas para piano e por sua história de vida romântica. 

O bicentenário de seu nascimento tem sido marcado por uma série aparentemente interminável de concertos e comemorações. Embora muitos desses eventos sejam na Polônia (onde Chopin nasceu em 1810) e na França (onde ele morreu em 1849), as principais cidades chinesas também foram tomadas pela “febre de Chopin”.

Para celebrar o aniversário, o Centro Nacional de Artes Performáticas em Pequim está apresentando 15 concertos de Chopin apresentado por 14 pianistas; entre as apresentações previstas estão a de Garrick Ohlsson em 11 de julho e a de Cyprien Katsaris em 21 de agosto, e a série continua até dezembro. Para não ficar para trás, o grupo de administração do Teatro Poly da Cidade Proibida está montando um Ciclo Chopin que inclui cinco concertos diferentes só do compositor que serão exibidos em 15 salas de concerto em toda a China. A série começou em março e continua até novembro. (O terceiro ciclo, interpretado pelo pianista Victor Stanislavsky, será apresentado em Pequim em 25 de julho e quarto, com Gil Shohat, em 12 de setembro.) Uma peça homônima dirigida por Wang Xiaoying e baseada na vida de Chopin foi apresentada em Pequim em junho, e viajará para Xangai e Guangzhou em setembro e outubro antes de retornar para Pequim em novembro.

Mas as celebrações não estão limitadas às salas de concerto e aos teatros. Em 29 de agosto em Varsóvia, 99 crianças  chinesas se juntarão a crianças polonesas para apresentar “Chopin Vive”, um concerto ao ar livre que contará com a performance simultânea de 100 pianos. Outra apresentação simultânea da música de Chopin acontecerá em 4 de setembro, quando músicos clássicos, de jazz e de rock apresentarão o “4cities4Chopin” em Varsóvia, Paris, Londres e Xangai. Esse evento inaugurará a “Semana Chopin” em Xangai, com as músicas do compositor interpretadas em salas de concertos e  clubes noturnos em toda a cidade. O Pavilhão Polonês na World Expo foi um dos patrocinadores de muitas atividades em Xangai, incluindo a “Chopin no Jardim”, que conta com bancos que tocam a música de Chopin quando as pessoas se sentam neles. (Eles estão localizados no Parque Zhongshan, próximos de uma estátua de sete metros de Chopin, considerada a mais alta do mundo.) 

“A música de Chopin está na China há muito tempo”, diz Yu Runyang, estudioso de Chopin e ex-presidente do Conservatório Central de Música. “Ela chegou em Xangai nos anos 30.”   A maior parte da China estava sob ocupação japonesa, com áreas de cidades como Xangai controladas por potências ocidentais. A música de Chopin era apreciada por suas características nacionais, e suas polonaises e mazurkas eram especialmente populares, e não demorou para que o compositor fosse associado à política interna.

“O país de Chopin também foi invadido por potências estrangeiras”, diz o professor Yu. “O povo chinês se identificou com isso porque também tivemos uma experiência parecida.” O filme hollywoodiano “À Noite Sonhamos”, de 1945, - uma biografia romantizada de Chopin que glorifica o clamor patriótico do compositor exilado por sua Polônia natal (então sob domínio russo) – foi exibido e consagrado em Xangai. O filme disseminou a imagem de Chopin como um patriota resistente que amava tanto seu país que levou uma garrafa de solo polonês consigo quando foi embora para Paris e, em seu leito de morte, pediu que seu coração fosse levado de volta à Polônia.

“A música de Chopin começou a se espalhar depois de 1949”, explicou o professor Yu, referindo-se à fundação da República Popular da China. O novo governo comunista estava ansioso para provar que podia competir com o Ocidente em seus próprios termos e se aproximar diplomaticamente de outras nações comunistas. Inscreveu então seus jovens músicos em competições internacionais, especialmente as sediadas em países do bloco soviético – e como o sistema de conservatórios chineses foi implantado com a ajuda soviética e do leste europeu, os compositores “nacionalistas” ensinados nesses países foram enfatizados na China, inclusive Chopin.

Quando um jovem pianista chinês chamado Fu Cong (também pronunciado Fou Ts'ong) ficou em terceiro lugar numa Competição Internacional de Piano em Chopin em 1955, a reputação do compositor solidificou-se ainda mais. Em 1960, o aniversário de 150 anos de Chopin foi comemorado com umasérie de concertos, encontros e publicações, e o jornal “A Música do Povo” declarou que o músico estava “varrendo” o país. De acordo com o musicologista Hon-Lun Yang, de Hong Kong, os críticos musicais chineses da época também diziam que Chopin havia antecipado a revolução socialista na Polônia e que sua música “antifeudalista” só podia ser apreciada por cidadãos de nações como a Polônia e a China, cujos cidadãos sofreram sob a opressão ocidental e depois foram “libertados” pelo comunismo.

A música clássica ocidental foi efetivamente proibida na China no começo de 1963 e durante a maior parte da Revolução Cultural (1966-1976). Mas enquanto compositores impressionistas como Debussy sofreram uma pesada censura, Chopin passou facilmente.  “Ele foi o que recebeu menos críticas durante a Revolução Cultura por causa de seu nacionalismo”, disse o professor Yu.

Foi fácil portanto resgatar a música de Chopin quando terminou a Revolução Cultura. O fato de que suas composições sejam praticamente todas para piano acelerou sua popularidade, uma vez que o piano se tornou o símbolo da prosperidade da classe média nos anos 80. Nos anos 90, de acordo com o professor Yu e outros musicologistas, o governo chinês comprou os direitos de “À Noite Sonhamos”, e pediu que conservatórios e universidades de todo o país passassem o filme para seus alunos.

Por causa dessa história, talvez não seja nenhuma surpresa que muitos pianistas chineses tenham uma afinidade com a música de Chopin. Yundi Li – que venceu a Competição Chopin 2000 – e Lang Lang lançaram CDs só com a música de Chopin para celebrar o bicentenário, assim como o pianista-prodígio de 13 anos Niu Niu. Lang Lang foi o pianista escolhido para abrir as celebrações de Chopin em Varsóvia; ele também escolheu apresentar Chopin (Etude in E, Op. 10, Nº 3) quando foi convidado para tocar na cerimônia de entrega do prêmio Nobel da Paz para o presidente Obama. É claro, pianistas menos celebrados também tocam Chopin. Mais de 300 mil pianos foram comprados na China em 2008 e estima-se que até 30 milhões de pessoas estudem o instrumento.

Alunos sérios precisam passar por um sistema de teste nacional com muitos níveis, que exige um domínio de Chopin no nível 8. Mas se a política e as aulas de piano incentivaram a fascinação da China por Chopin, o principal motivo para essa popularidade contínua na país é a profunda conexão que muitos sentem com sua música.

“Chopin é muito melódigo”, diz Jaroslaw Kapuscinski, um compositor nascido na Polônia e pianista da Universidade de Stanford que visitou Pequim por conta de seu projeto “Onde Está Chopin?”. “A importância da melodia o aproxima de uma compreensão tradicional da música na China.”

Para o pianista israelense Arie Vardi, que ensinou renomados pianistas chineses como Yundi Li e Sa Chen, a afinidade chinesa com Chopin está relacionada com a natureza “muito pessoal e muito nacional” de sua música.

“É uma espécie de paradoxo”, ele explicou por telefone desde a Alemanha. “Quando mais pessoal e nacional, mais internacional. Os artistas chineses são por natureza muito livres e individuais, e conseguem se identificam com ele.”

A jovem pianista em ascensão Yuja Wang, que tocou Chopin no Centro Nacional de Artes Performáticas em 2 de julho, ecoou esses sentimentos numa entrevista desde Taipei, chamando a música de Chopin de “muito nacionalista, mas muito universal”.

“Sua música (…) fala diretamente à alma e toca todas as pessoas, assim como a poesia chinesa”, diz ela. “Algo primitivo em sua linguagem musical atinge a psique humana e toca toda a humanidade. Eu sou agnóstica, mas acho que ele é enviado por deus.”

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos