Construindo com harmonia em Bali

Em Ubud (Indonésia)

Para o arquiteto Hanno Burtscher, o verdadeiro estilo das casas de Bali tem pouco a ver com as casas térreas espaçosas, com chão de madeira e portas de correr com controle remoto associadas ao “estilo Bali”.

“A história é bem diferente se compararmos o estilo tradicional de Bali com o estilo Bali publicado em tantos livros”, diz Burtscher.

Burtscher é um dos vários arquitetos em Bali que trabalham para preservar elementos das casas autênticas da ilha. Seu maior projeto é uma série de três octágonos de 15 metros quadrados, conectados por pontes e cercados de água numa plantação de arroz próxima a Ubud, uma cidade central que é popular entre os expatriados.

Os octágonos são feitos principalmente de bambu, com chão e paredes de terra batida. O quarto, a cozinha e outras características são arranjadas de acordo com orientações espirituais associadas às antigas casas de Bali.

“Há uma sensação de harmonia com a terra”, diz o dono, Richard Tobias, nativo do Canadá que ensina yoga e atende pelo nome de Sky. “Eu não queria que fosse uma coisa feia como aqueles grandes monstros de cimento e tijolos.”

As casas tradicionais de Bali costumam ser bangalôs pequenos, parecidos com caixotes, com janelas minúsculas, amontoadas em conjuntos residenciais murados.

Diferentemente de suas primas contemporâneas, as casas balinesas evitam espaços abertos, que muitos acreditam atrair maus espíritos. As portas da frente costumam ser grandes e pesadas e costumam dar de frente para uma parede, dificultando a entrada dos demônios.

Mas a arquitetura das casas de Bali evoluiu nas últimas décadas à medida que grandes mansões foram construídas na ilha para receber os turistas. Embora os ataques terroristas de 2002 e 2005 tenham reduzido o turismo durante anos, mais de 2,2 milhões de turistas visitaram a ilha em 2009, um aumento de 13% em relação a 2008, de acordo com estatísticas do governo.

Cidadãos estrangeiros não podem comprar terra em Bali, embora nos últimos meses o governo tenha dado sinais de que poderá flexibilizar essas restrições. Os estrangeiros hoje costumam negociar aluguéis de longo prazo ou comprar propriedade através de um representante local.

Os proprietários locais tendem a projetar casas de acordo com sua percepção do que os compradores e locadores internacionais querem, diz Jared Collins, conselheiro sênior da Ubud Property, uma empresa de Bali. Em vez de reformar os pequenos bangalôs, muitos preferem derrubar as antigas estruturas, fustigadas pelos elementos ao longo dos anos.

Os preservacionistas vêm tentando há anos salvar as casas de madeira da Indonésia, que costumam empregar técnicas de construção passadas de geração em geração.

“O que eu gosto é da simplicidade”, diz a arquiteta Alejandra Cisneros. Ela está reformando um “joglo” de 80 anos de idade, um bangalô javanês com um telhado ornamentado, em Penestanan, um vilarejo próximo a Ubud.

Os desenvolvedores do Desa Seni, um eco-resort em Canggu, alguns quilômetros ao norte da popular cidade de praia de Seminyak, compraram dez casas tradicionais de madeira em ilhas da Indonésia e as enviaram para Bali para usar como acomodações de seu hotel “estilo vilarejo”. A mais velha tem 160 anos de idade.

"Todo mundo está comprando essas casas para usar a madeira em móveis”, diz Tom Talucci, um dos donos do resort, que abriu em 2007.

Todas as casas ilustram formas tradicionais de carpintaria, incluindo o mesmo tipo de entalhe e trabalho em madeira encontrado nas antigas estruturas de Bali. “Tudo tem um significado ou implicações religiosas”, diz Talucci. “Há um bela estética que caminha junto com a filosofia.”

O Desa Seni promove o que denomina de “autêntica experiência indonésia”, mas os donos fizeram algumas concessões para os turistas ocidentais, incluindo ar condicionado nos quartos, TV via satélite e serviço de internet sem fio.

De forma similar, os arquitetos de Bali dizem que costumam buscar formas de combinar as demandas dos modernos compradores de Bali com os materiais naturais e a escala modesta da cultura de Bali.

O joalheiro John Hardy, que mora em Bali há muito tempo, e a designer irlandesa Linda Garland ficaram conhecidos internacionalmente por promover o uso do bambu na construção civil. Garland, que mudou para Bali nos anos 70, criou a Fundação Ambiental Bamboo, um grupo dedicado a encorajar a conservação e o cultivo do bambu.

Quando Nina Pakcer, uma dona de spa australiana, e seu marido, Phil Murray, um diretor de cinema aposentado, alugaram um terreno numa encosta com vista para o rio Tjampuhan no ano passado, eles fizeram questão de não construir um “palácio de Jacarta”, o tipo de mansão comumente associada com o estilo Bali.

Em vez de demolir o pequeno e desgastado bangalô que havia no terreno, eles quebraram uma parede e criaram uma sala de estar e cozinha retangular, com um banheiro do lado de fora e uma longa varanda com vista para o rio. Aberturas entalhadas na madeira circundam o telhado, permitindo que a brisa da montanha ventile o ambiente e tornando o ar condicionado desnecessário, diz Packer.

A madeira da casa original foi reciclada na nova casa, o que não interfere com a paisagem dos campos de arroz em torno.

“Gosto de não derrubar as coisas”, diz Cisneros, arquiteta que trabalhou com o casal. “Dá uma espécie de satisfação trabalhar com os restos.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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