Nós abandonaremos novamente as mulheres afegãs?

Thea Garland

  • S. Sabawoon/EFE

    Mulher vestida com burca

    Mulher vestida com burca

“Os direitos da mulher são direitos humanos”, declarou Hillary Clinton na Quarta Conferência das Nações Unidas sobre a Mulher, em 1995. Com a “boa guerra” do presidente Barack Obama no Afeganistão indo mal e as negociações com o Taleban parecendo cada vez mais prováveis, nunca houve uma maior necessidade de lembrar essas palavras.

Apesar de ser difícil discordar dos generais e políticos que dizem que uma vitória militar não é possível e que uma solução política precisa ser encontrada, será pedido para as mulheres do Afeganistão que paguem com seus direitos por este acordo político?

Em qualquer negociação, o Ocidente insistirá que o Taleban não permita que a Al Qaeda instale campos de treinamento ou opere a partir do território afegão. O Taleban poderá concordar com isso. Mas não basta. Os Estados Unidos e a Otan não devem retirar suas tropas sem um compromisso de respeito às liberdades civis e uma garantia dos direitos da mulher. Isso é possível?

Como lembrete, este é o mesmo Taleban cuja repressão brutal deixou mulheres sob virtual prisão domiciliar e sujeitas a um terror incessante durante seus seis anos de governo.

Esse é o mesmo Taleban que negou às mulheres o direito à educação e ao trabalho, as privou de participação política e social; chicoteou, bateu e abusou verbalmente delas por rirem alto ou por não cobrirem seus corpos e rostos já cobertos de acordo com as regras do Taleban.

Esse é o mesmo Taleban que arrastou garotas para um estádio de futebol em Cabul para serem executadas publicamente, por conduta que não seria considerada criminosa segundo qualquer lei democrática.

Mesmo anos após as forças da coalizão terem invadido o Afeganistão, as mulheres ainda sofrem constante ameaça. Em 2006, a ativista dos direitos da mulher, Safia Amajan, foi morta a tiros por sugerir que as mulheres tinham direito à educação e ao trabalho, e no ano passado garotas adolescentes em Kandahar tiveram ácido jogado em seus rostos por frequentarem a escola.

E quem representaria as mulheres em qualquer negociação com o Taleban? Generais e diplomatas do sexo masculino de meia-idade? Os senhores da guerra afegãos e os detentores de poder pashtuns? Parece improvável que será permitido que as mulheres tenham um lugar significativo à mesa. Dentre os milhares reunidos na Jirga da paz afegã em junho, as mulheres estavam em pequeno número e nenhuma esteve envolvida em seu planejamento.

“A crença é de que as mulheres não são importantes”, disse Samira Hamidi, diretora da Rede das Mulheres Afegãs, descrevendo a mentalidade que ela diz que “não mudou nos últimos oito anos”.

A Constituição afegã garante a igualdade para as mulheres. Mas se o Taleban for trazido ao governo, ele provavelmente exigirá a lei Shariah, pelo menos em algumas áreas. O Irã, invocando a lei Shariah, sentenciou na semana passada Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos e mãe de dois, à morte por apedrejamento por suposto “adultério enquanto estava casada”. (Após um protesto internacional, o governo iraniano recuou, apesar do destino dela ainda ser incerto.)

Essas práticas bárbaras predominavam durante o regime do Taleban. O Ocidente tem pouca influência sobre o Irã, mas no Afeganistão ele tem a oportunidade de ajudar a determinar o destino de seu povo.

Nós estamos preparados para partir, cientes de que as mulheres poderão novamente ser atadas, enterradas no chão até o pescoço e apedrejadas até sangrarem lentamente até a morte? Após invadirmos o país, nós não temos o imperativo moral de deixá-lo melhor do que o encontramos?

Mesmo se o Taleban se comprometer a honrar os direitos das mulheres, é difícil conceber como isso seria fiscalizado. Se o Taleban não cumprir a promessa e permitir bases da Al Qaeda, é fácil imaginar que mísseis americanos choverão novamente no país. O Ocidente voltaria à guerra se o Taleban não cumprisse a promessa de permitir que garotas frequentem escolas e que mulheres trabalhem?

No início desta guerra que já dura nove anos, Cherie Blair e Laura Bush, entre outros, a defenderam como uma guerra para libertar as mulheres do Afeganistão. O argumento moral delas foi ridicularizado por alguns comentaristas. “Seria a primeira guerra imperial na história para libertar as mulheres”, escreveu Tariq Ali, um proeminente esquerdista paquistanês. Infelizmente, o escárnio dele poderá provar ter sido apropriado.

Nos anos 80, os Estados Unidos financiaram a guerra islâmica contra os soviéticos por interesses próprios e então partiram, deixando para trás um terreno fértil para os terroristas e para a escravidão brutal das mulheres assim que o Taleban assumiu o controle do país.

Nós não podemos permitir que o progresso dos últimos nove anos seja tomado das mulheres do Afeganistão. Nós não podemos abandoná-las de novo. Os direitos da mulher, afinal, são direitos humanos.

 *Thea Garland é uma escritora free-lance de Londres.

 

Tradutor: <i> George El Khouri Andolfato </i>

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