As semelhanças e diferenças nos crimes de Polanski e do bispo de Bruges

Alan Cowell

Em Paris

  • AFP

    Roman Polanski no Festival de Cinema de Marrakech (14/11/2008)

    Roman Polanski no Festival de Cinema de Marrakech (14/11/2008)

Ao que se sabe, ou segundo todas as probabilidades, não há um elo formal entre Roman Polanski e o bispo de Bruges, além da coincidência de os dois homens, hoje com mais de 70 anos, terem se envolvido há muito tempo com abuso sexual e ainda terem certa medida de liberdade.

Mas nas últimas semanas, a justaposição de seus casos não relacionados ofereceu um ponto de partida para questões como padrões de julgamento moral conflitantes na Europa e nos EUA e se a fama, arte, dinheiro e poder podem oferecer isenção da justiça comum.

Na última segunda-feira (12/7), após restringir os movimentos de Polanski de várias formas por nove meses, as autoridades suíças rejeitaram um pedido norte-americano por sua extradição por ter fugido a uma sentença em 1978. Bernard Kouchner, o ministro de relações exteriores da França, onde Polanski, 76, é cidadão, disse que estava “satisfeito” com a decisão.

Naquele mesmo dia, o International Herald Tribune informou que o bispo Roger Vanheluwe de Bruges, Bélgica, estava em reclusão em um mosteiro trapista na Bélgica. Ele havia renunciado ao cargo em abril, quando admitiu ter molestado um menor décadas antes, posteriormente identificado como seu sobrinho. Nenhum político europeu parece ter expressado satisfação diante de um mínimo de simpatia pelo clérigo pedófilo: afinal, este é um continente antigo e acostumado com as coisas do mundo, dado a ver nuances de cinza onde os americanos preferem um monocromático.

É claro que os casos são diferentes. Polanski fugiu dos EUA após declarar-se culpado de fazer sexo fora da lei com uma menina de 13 anos, Samantha Geimer. Ele tinha passado 42 dias em avaliação psiquiátrica na Prisão Estadual Chino, mas temia que o juiz, que já morreu, imporia uma sentença mais dura. De qualquer forma, Geimer veio a público pedir que o caso fosse encerrado, dizem os defensores de Polanski.

Alguns argumentam também que o comportamento de Polanski foi um produto de uma época selvagem de sua própria narrativa. Polanski sobreviveu ao nazismo e ao Holocausto na Polônia, depois escapou do comunismo para o Ocidente, onde viu sua mulher, Sharon Tate, ser assassinada pela família Manson em 1969. Teriam suas ações sido tingidas pelo tormento e arrogância de uma vida e tempos extraordinários?

No caso do bispo, o trauma é menos conhecido. O sobrinho violado por ele, hoje com mais de 40 anos, não permitiu ser publicamente identificado, nem tampouco ofereceu perdão. Assim como o crime de Polanski foi ambientado em uma era particular, também a vida secreta do bispo foi ambientada em uma cultura de segredo do Vaticano construída durante séculos.

Mas há conclusões e questões comuns: será que o status do diretor vencedor de Oscar suaviza o olhar de repulsa reservado a padres pedófilos como o bispo Vangheluwe? Se esta é uma história de moralidade –de como a permissividade corrói a virtude e os impulsos ilícitos minam o auto-controle, a própria moralidade não é um conceito relativo?

É provável que esta questão seja muito discutida nesta semana, após o Vaticano emitir novas regras sobre como lidar com o abuso dos padres, listando a pedofilia em um catálogo de outros crimes supostamente graves que inclui a “tentativa de ordenar mulheres”.

“Eles viram o que eu fiz, defender a ordenação de mulheres, como crime sério. Mas os padres que estavam violando crianças, não viram como crime. O que é isso?”, perguntou o reverendo Roy Bourgeios, padre americano excomungado menos de dois meses após participar de uma cerimônia de ordenação de mulheres.

Independentemente da resposta, ficou claro que as sociedades que antes estavam condenadas ao silêncio coletivo sobre o abuso dos padres, tais como Bélgica ou Irlanda e Áustria, não estão mais dispostas a permanecerem mudas ou a oferecerem um estatuto tácito de limitações.

O mundo mudou. A igreja está na defensiva. O abuso sexual é considerado um trauma duradouro para as vítimas, cujo perdão pode enviar um sinal errado. É papel da sociedade –por meio dos tribunais, e não por meio de conclaves eclesiásticos fechados ou atos de graça- determinar a redenção ou a punição.

O tempo não altera essa mensagem. Nem a geografia. O que era punível há mais de três décadas nos EUA continua assim em outras partes: sob o mandado internacional emitido pelos EUA, Polanski ainda pode ser preso fora da Suíça, França ou Polônia, onde também é cidadão.

É um destino duro demais? A sociedade tinha níveis diferentes de tolerância nos anos 70. Polanski foi suficientemente punido, dizem seus defensores: efetivamente exilado de Hollywood, detido nos anos 70 por um período determinado por processo devido, detido em setembro último na Suíça e submetido à prisão domiciliar em seu chalé em Gstaad.

E sua obra deve, com certeza, ser pesada junto com as questões legais? Talvez não.

“Os muitos artistas e intelectuais que negaram arrogantemente o que Polanski fez com base em seu talento e conquista estavam pensando em seus filmes, mas deviam pensar em suas próprias filhas”, escreveu Richard Cohen para o Washington Post.

Por outro lado, o bispo Vangheluwe, 73, não foi julgado nem punido. Um monastério trapista não é um chalé na Suíça, mas tampouco é uma prisão ou uma ala psiquiátrica. É um local de paz, contemplação e prece. Seu sobrinho anônimo “tem medo” demais para falar. “E a igreja tem muito poder”, disse o homem a Doreen Carvajal e Stephen Castle do International Herald Tribune.

Esse poder é em parte construído sobre o segredo, em parte na mística de seus clérigos e em uma grande extensão a sua auto-atribuída certeza moral e retidão. Esses valores nem sempre podem ser estendidos a Hollywood, mas, de formas significativas, as ações de Polanski tiveram muito mais propaganda do que as do clérigo.

O debate intelectual não deve, é claro, camuflar a realidade. A pedofilia é uma traição da confiança, uma violação de corpos e almas frágeis, uma imposição de desejos adultos a jovens incapazes de discernir ou recusar a manipulação de seus perpetradores.

Em tempo: o mais recente filme de Polanski “O Escritor Fantasma”, se baseia em um romance de Robert Harris publicado inicialmente em 2007, “The Ghost”. Se for feita a vontade dos defensores das vítimas, as perseguições não vão terminar de forma tão definitiva quanto o filme.

Tradutor: Deborah Weinberg

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