Portugal busca crescimento em antiga colônia

Raphael Minder

Lisboa (Portugal)

  • Reuters

    Prédio da Portugal Telecom em Lisboa

    Prédio da Portugal Telecom em Lisboa

Antonio Cunha Vaz, junto com sua mãe e sua irmão, fizeram parte de um êxodo em massa de portugueses de Angola em 1975, quando o país africano conquistou a independência antes de cair numa devastadora guerra civil.

No ano passado, entretanto, 37% dos US$ 28 milhões dos rendimentos de sua consultoria de relações públicas homônima, localizada em Lisboa, vieram de Angola, de um escritório que ele abriu em Luanda, capital do país, em 2008.

Portugal, uma das economias problemáticas da Europa, está cada vez mais colocando suas esperanças de recuperação em Angola, uma antiga colônia que se estabeleceu como uma das economias mais fortes da África subsaariana – graças ao petróleo e aos diamantes. A mudança vem à medida que a concorrência está ficando mais acirrada no Brasil, outra ex-colônia em crescimento econômico, e à medida que os tradicionais parceiros comerciais de Portugal na Europa, liderados pela Espanha, lutam com uma montanha de dívidas e com o desemprego crescente.

Angola já se tornou o maior mercado para as exportações de Portugal fora da Europa, respondendo por 7% das exportações no ano passado, em comparação com 1% em 2000. O maquinário e o desenvolvimento industrial lideram a lista, junto com alimentos, bebidas e metais.

Talvez até mais espetacular do que o fluxo do comércio tenha sido a chegada de uma nova geração de portugueses para trabalhar em Angola, uma tendência que deve crescer à medida que mais companhias portuguesas transferem suas operações para lá e Angola avança com planos de incentivo aos investimentos como a abertura da bolsa de valores local. No ano passado, 23.787 portugueses se mudaram para Angola em comparação com apenas 156 portugueses em 2006.

Confirmando a importância cada vez maior de Angola, o presidente de Portugal Aníbal Cavaco Silva deve fazer sua primeira viagem a Luanda no domingo, liderando uma delegação de cerca de 80 executivos portugueses para uma visita de uma semana.

Mas os portugueses não são os únicos com os olhos em Angola. A China esteve recentemente à frente do ressurgimento econômico de Angola, tentando garantir acesso aos recursos naturais do país em troca de ajudar a construir estradas e outras obras de infraestruturas destruídas durante três décadas de guerra.

Embora as companhias portuguesas não tenham a mira de longo alcance para competir com os chineses e outros investidores mais fortes, a língua em comum, aliada com as ligações culturais, pode dar aos portugueses uma vantagem.

Ainda assim, o consultor de relações públicas Cunha Vaz enfatiza a necessidade de agir com cuidado ao retomar a relação histórica de Portugal com Angola. “É claro que compartilhamos a mesma língua e temos muito mais em comum com os angolanos do que com os chineses e outros, mas os investidores portugueses também precisam fazer um grande esforço para não parecer que estão pressionando pela volta aos tempos coloniais”, diz ele. “Pouco pode ser feito em Angola sem a ajuda e a cooperação dos parceiros locais.”

Os portugueses já apostaram em antigas colônias para ajudar a compensar a redução de rendimentos no país, principalmente no Brasil. Um exemplo disso foram os esforços recentes que o governo de Lisboa fez para evitar que a Telefônica da Espanha tomasse o controle de uma empresa brasileira parceira da Portugal Telecom – embora uma oferta tenha sido aprovada pelos acionistas da Portugal Telecom.

José Sócrates, primeiro-ministro português, disse na época que ter uma presença no lucrativo mercado brasileiro era “estratégico e fundamental para o desenvolvimento da Portugal Telecom.”

Ainda assim, a visão geral entre os analistas é que o Brasil é grande e suficientemente avançado para atingir o crescimento por conta própria. Além disso, as companhias portuguesas têm tido um investimento irregular no país. Por exemplo, empresas portuguesas fizeram incursões ambiciosas no Brasil nos anos 90, e acabaram encontrando problemas de desvalorização da moeda e forte concorrência interna.

“O mercado brasileiro sempre esteve no nosso radar, mas fizemos várias tentativas lá e nem sempre fomos bem sucedidos”, disse Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI, um banco português. “No passado nós testemunhamos algum progresso na relação comercial como Brasil, mas não tenho certeza se é o começo de uma tendência. Na verdade, tenho um certo ceticismo em relação ao Brasil, enquanto que em Angola é algo que deve continuar, e os investimentos diretos em Angola gradualmente substituirão as exportações como parte mais importante do relacionamento.”

No ano passado, Ricardo Gorjão, gerente de projetos da CPI, uma companhia portuguesa que produz software para bancos e outras indústrias de serviço, gastou dois terços de seu tempo em Angola, onde os bancos estão construindo uma rede nacional praticamente do zero, depois de inicialmente restringir suas operações a Luanda. “Estamos atravessando uma enorme recessão em Portugal, onde o setor bancário teve um desenvolvimento surpreendente, então faz mais sentido transferir nossos negócios para Angola”, disse ele por telefone de Luanda.

Embora a vida na capital de Angola possa ser “dura, perigosa e cara” em comparação com Lisboa, “quando você vê o desemprego que existe em Portugal, acho que mais pessoas ficarão disponíveis para mudar para cá por um bom emprego.”

A situação sombria da economia portuguesa foi ressaltada na terça-feira quando a agência Moody's baixou a classificação da dívida do país em dois pontos, de A1 para Aa2. A Moody's justificou sua decisão, que segue as quedas recentes na classificação de outras agências, alegando poucas perspectivas de crescimento, assim como uma previsão de que “a força financeira do governo português continuará diminuindo a médio prazo.”

O Banco Mundial, por sua vez, aumentou recentemente sua previsão de crescimento para Angola em 2010 de 7.5% para 8,5%.

Ainda assim, analistas enfatizam que a corrupção em Angola, aliada com a burocracia excessiva, são sérios obstáculos para os investidores estrangeiros. O país ficou em 162º lugar numa lista de 180 países no índice de percepções sobre corrupção compilado pela Transparência Internacional.

Com sua economia em crescimento e lucros excepcionais com o petróleo, Angola também se transformou num dos principais investidores estrangeiros em Portugal, encabeçados por familiares e conselheiros próximos a José Eduardo dos Santos, que governou Angola como presidente desde 1979. Eles investiram em bens como plantações de oliveiras e vinhedos no norte de Portugal até ações das principais companhias portuguesas.

O Santoro, um grupo financeiro controlado pro Isabel dos Santos, filha do presidente, tem uma fatia de 9,7% da BPI. A Sonangol, companhia de petróleo estatal, investiu em outro grande banco português, o Millennium Bcp, e também adquiriu uma parte da Galp, a companhia energética portuguesa.

Mas fora as ambições da elite governante de Angola, outro motivo para esperar que os laços se estendam é que os angolanos estão liderando um contingente cada vez maior de estudantes africanos que cursam universidades em Portugal.

Esdon Martins, um angolano de 25 anos que lidera uma associação de estudantes na Universidade Autônoma de Lisboa, estima que seus compatriotas respondam por quase um quinto dos alunos este ano. Depois de estudar Direito, ele planeja voltar para casa. “Estudar aqui é ótimo, mas as verdadeiras oportunidades para colocar o que eu aprendi na prática e fazer algo interessante como abrir um negócio estão na África”, diz ele. “Não somos só nós que pensamos isso, mas os estudantes portugueses daqui agora me pedem para ajudá-los a encontrar um emprego em Angola.”
 

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos