Seguindo em frente no Afeganistão

Anders Fogh Rasmussen

  • Ahmad Masood /Reuters

    O general David Petraeus assume o comando das tropas internacionais no Afeganistão em cerimônia em Cabul

    O general David Petraeus assume o comando das tropas internacionais no Afeganistão em cerimônia em Cabul

Nesta terça-feira (20), uma conferência internacional sobre o Afeganistão, em Cabul, reunirá mais de 70 países, organizações internacionais e regionais e instituições financeiras para que eles apoiem um plano para o desenvolvimento, a governança e a estabilidade do país.

A reunião resultará em um nítido avanço da transição rumo à estabilidade e a autonomia afegã. Em suma, ela será um marco no processo por meio do qual os afegãos estão finalmente tornando-se os donos do seu próprio país.

Este novo impulso político não ocorreu por acidente. Ele é o resultado de um esforço contínuo, tanto dos afegãos quanto da comunidade internacional, no sentido de proporcionar a este país uma nova oportunidade para que ele se reorganize.

Após a tragédia de 11 de setembro de 2001, a indiferença em relação ao Afeganistão passou a ser inadmissível para nós. A intervenção passou a ser a nossa única opção. Deixar o Afeganistão à própria sorte teria significado mais instabilidade naquele país, e mais ataques terroristas pelo mundo afora.


Não se pode negar que, a princípio, a comunidade internacional subestimou a magnitude desse desafio. Após nove anos de intervenção internacional, ficou dolorosamente claro que o preço a ser pago foi maior do que o esperado, e que tal preço foi e continua sendo pago principalmente com vidas de soldados estrangeiros e afegãos.

Mas o Afeganistão está finalmente movendo-se na direção correta. Talvez os insurgentes acreditem que poderão aguardar que nós nos retiremos, mas nós ficaremos lá o tempo que for necessário para a conclusão da nossa tarefa. O nosso treinamento de policiais e soldados afegãos está adiantado em relação ao cronograma estabelecido, e até o ano que vem haverá no país uma força de segurança afegã composta de 300 mil homens – e isso é algo que não pode ser postergado.

Ao enviarmos 40 mil soldados extras da força internacional, nós demonstramos o nosso compromisso com a proteção do povo afegão ao mantermos controle sobre as áreas que foram conquistadas dos insurgentes.

Nós estamos também finalmente atacando o Taleban nos locais mais valiosos para o grupo. Nos últimos meses, a Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) lançou ofensivas militares nos centros do território de atuação do Taleban: Helmand e Kandahar.

Essas operações, nas quais as forças de segurança afegãs desempenham um papel importante, resultarão inevitavelmente na intensificação dos combates. Lamentavelmente, haverá mais baixas. Mas essas ações militares têm uma importância política tremenda. Elas contribuem para a marginalização do Taleban como força política e militar. E isso encoraja muitos dos indivíduos que ingressaram no Taleban a abandonar o grupo e engajar-se nos esforços de reconciliação.

Entretanto, a reconciliação não é um cheque em branco. A renúncia à violência e o respeito à constituição afegã, incluindo a parte referente aos direitos das mulheres, é uma precondição para uma reintegração bem sucedida. As autoridades afegãs sabem disso, e nós continuaremos a lembrá-las desse fato.

O próximo passo político importante após a conferência de Cabul será a eleição parlamentar em setembro. Apesar das ameaças de morte, os afegãos votaram várias vezes desde a queda do regime do Taleban. Nada poderia ilustrar melhor do que isso o desejo do povo afegão de assumir o controle sobre o seu próprio futuro. As forças lideradas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) darão suporte a essas eleições, mas a responsabilidade geral pela sua segurança, liberdade e boa conduta cabe aos próprios afegãos.

Todos esses fatos apontam para a mesma direção: uma transição gradual rumo a uma liderança afegã. Essa transição não será implementada com base em um cronograma artificial. Ela ocorrerá baseada em avaliações claras da situação política e de segurança de cada área específica. E quando e onde nós concluirmos essa transição, esta será irreversível.

Dar início à transição não significa terminar luta para que no futuro o Afegão venha a ser um país estável em uma região volátil. O Afeganistão continuará necessitando do apoio contínuo da comunidade internacional, incluindo a Otan. É importante que nós enviemos uma mensagem clara de que o nosso compromisso é de longo prazo. A população afegã precisa saber que nós continuaremos ao seu lado enquanto ela traçar o seu trajeto em direção ao futuro.

Para enfatizar esse compromisso, eu acredito que a Otan deveria firmar um tratado de cooperação de longo prazo com o governo afegão.

Nós temos atualmente um novo comandante da missão da ISAF, o general David Petraeus. Mas a nossa estratégia não mudou, já que ela é a estratégia correta. O nosso objetivo é claro: garantir que o Afeganistão não se transforme de novo em um abrigo para o terrorismo.

Nós estamos construindo a capacidade afegã de resistir por conta própria ao terrorismo e ao extremismo, modificando as condições políticas nas áreas estratégicas fundamentais do Afeganistão, fortalecendo a capacidade de ação do governo eleito, e treinando o exército afegão. O objetivo de todas essas iniciativas é fazer com que o Afeganistão seja capaz de administrar a sua própria segurança.

Se nós e os nossos parceiros afegãos mantivermos a nossa estratégia e aguardarmos o tempo necessário para que essa ação surta efeito, ela funcionará.

 

*(Anders Fogh Rasmussen é o secretário-geral da Otan).
 

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