Autoridades gregas temem ressurgência do terrorismo

Niki Kitsantonis

Em Atenas (Grécia)

  • Petros Giannakouris/AP

    Policias fazem guarda em ministério na Grécia após bomba explodir e matar servidor em Atenas

    Policias fazem guarda em ministério na Grécia após bomba explodir e matar servidor em Atenas

Quando Socrates Giolias, um jornalista e blogueiro pouco conhecido, foi morto a tiros em frente à sua casa, em uma operação no estilo de filmes de gângsteres, na manhã da última segunda-feira, os detetives da divisão de homicídios começaram a trabalhar no caso em meio a especulações de que o assassinato teria sido uma vingança por parte de elementos do obscuro submundo da criminalidade.

Mas, várias horas depois, agentes de contraterrorismo juntaram-se à investigação depois que os exames de balística das cápsulas das 16 balas que atingiram Giolias revelaram que os disparos foram feitos por armas utilizadas em ataques pelo violento movimento guerrilheiro Grupo de Revolucionários, que está em atividade na Grécia.

O assassinato fez com que as autoridades passassem a temer uma ressurgência do terrorismo doméstico, um problema que tem afligido a Grécia desde o início da década de 70, e que cresceu gradualmente no decorrer dos últimos 18 meses, com a emergência de várias novas organizações militantes.

Um agente que trabalha no prédio da administração central da polícia grega, e que foi ele próprio alvo de um atentado terrorista no mês passado, quando uma carta-bomba matou o assessor do ministro da Ordem Pública, confirmou na terça-feira que a sua agência está tratando o assassinato de Giolias como um ato terrorista.

O policial, que não tem autorização para falar publicamente, não informou detalhes sobre a investigação, e declarou simplesmente que as 16 cápsulas de munições encontradas no local do assassinato foram disparadas por duas pistolas de calibre nove milímetros utilizadas em ataque anteriores em Atenas. A autoria desses ataques foi reivindicada pelo Grupo de Revolucionários: o assassinato de um policial em junho do ano passado e dois ataques quatro meses antes, um contra uma chefatura de polícia e o outro contra uma rede de televisão privada.

Assassinatos de jornalistas são ocorrências raras na Grécia. O último crime desse tipo ocorreu em 1985, quando o grupo guerrilheiro marxista Novembro 17, que não existe mais, matou a tiros Nikos Momferatos, que era editor de um jornal conservador.

Mas o Grupo de Revolucionários advertiu que jornalistas estão na sua lista de alvos. Em uma declaração emitida em fevereiro do ano passado, o grupo acusou a mídia de “fabricar notícias para manter a população dócil e subserviente”.

“Jornalistas, desta vez nós viemos até as suas portas, e da próxima vez vocês nos encontrarão dentro de suas casas”, ameaçou o documento, referindo-se ao ataque armado contra a rede de televisão privada, que não resultou em nenhuma vítima.

Não se sabe por que motivo Giolias foi escolhido para morrer, embora alguns websites estejam declarando que ele fez comentários críticos contra os grupos militantes. Angelos Tsigris, um professor de criminologia da academia de polícia da Grécia, disse que Giolias pode ter sido escolhido pelo grupo porque não tinha guarda-costas, ao contrário de muitos jornalistas investigativos famosos da Grécia, com os quais ele havia cooperado. “Os guerrilheiros podem tê-lo escolhido porque ele era um alvo fácil”, afirmou Tsigris.

Giolias, que era diretor de notícias da estação de rádio Thema, e um dos jornalistas responsáveis pelo blog Troktiko, especializado em descobrir e revelar ações ilícitas, foi morto a tiros em Ilioupoli, um subúrbio na zona leste de Atenas, às 5h30 da segunda-feira. Uma testemunha citada por uma rede de televisão estatal contou que viu os assassinos usando coletes a prova de balas e uniformes semelhantes àqueles utilizados pelos funcionários de firmas de segurança particular.

Um membro do grupo ligou para o apartamento de Giolias pelo interfone e disse a ele que ladrões estavam tentando roubar o seu carro, segundo declarações prestadas mais tarde pela mulher dele à polícia. O jornalista, caindo na armadilha, desceu e foi atingido por diversas balas quando abriu a porta principal do edifício.

Vizinhos disseram à rede de televisão estatal grega que viram a mulher de Giolias, que está grávida do segundo filho, surgir na varanda do apartamento gritando.

Na terça-feira, leitores do Troktiko enviaram centenas de mensagem ao blog, que alega receber seis milhões de visitas de internautas diárias. Nas mensagens Giolias foi chamado de “herói” ou de um “jornalista intrépido e ousado”.

Outros internautas lamentaram as implicações desse assassinato. Um deles disse: “É esta a Grécia com a qual nós sonhamos? Será que nós viramos presas de pistoleiros pagos?”.

Descrevendo Giolias como “insubordinado, livre e independente”, os seus colegas desativaram o blog para irem ao seu funeral na tarde de terça-feira.

Troktiko atraiu fortes críticas de outros blogueiros anônimos quando publicou comentários depreciativos sobre a Luta Revolucionária, uma organização terrorista mais antiga, depois que seis suspeitos de serem membros do grupo foram presos em abril. O grupo Luta Revolucionária é mais conhecido por ter disparado um lança-granada-foguete contra a Embaixada dos Estados Unidos em Atenas em janeiro de 2007.

Em sites anarquistas também foi alegado que Giolias teria sido o responsável por comentários altamente negativos sobre o Grupo de Revolucionários que foram publicados no Troktiko no ano passado. Os comentários foram rapidamente removidos.

Embora certas autoridades policiais afirmem que o ataque pode indicar um retorno do terrorismo doméstico, alguns analistas observaram que há uma distinção entre o estilo e os métodos do Grupo de Revolucionários e o tipo de terrorismo que prosperou na Grécia nas décadas de 70 e 80, principalmente os ataques do 17 de Novembro, que afirma que o marxismo é a sua principal influência.

Tsigris, o criminologista, diz que o que o preocupa mais é o fato de o Grupo de Revolucionários ser apenas um dentre vários grupos militantes, muitos dos quais foram formados no início do ano passado em reação ao assassinato de um adolescente por um policial em dezembro de 2008.

Esses grupos tem “perfis, objetivos e metodologias diferentes”, o que complica o trabalho da polícia grega, afirma Tsigris.

“O ataque de segunda-feira mostra que o terrorismo continua vivo e ativo na Grécia de hoje”, conclui Tsigris.

Tradutor: UOL

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