Votação para proibir touradas provoca debate identitário na Espanha

Rafael Minder
Em Madri

  • Cristina Quicler/AFP

    Manifestantes protestam contra touradas em frente à praça de touros Real Maestranza, em Sevilha

    Manifestantes protestam contra touradas em frente à praça de touros Real Maestranza, em Sevilha

As touradas, vistas por muitos espanhóis como um componente essencial de seu patrimônio cultural, podem sofrer seu maior golpe na quarta-feira (28) quando legisladores da Catalunha decidirão se elas devem ser banidas em sua região.

Uma proibição como esta seria “nossa vitória mais importante para os direitos dos animais”, diz Aida Gascon, diretora nacional da AnimaNaturalis, uma organização que luta há tempos contra o que considera ser uma prática bárbara e ultrapassada.

Mas os valores de bem-estar dos animais defendidos por ativistas como Gascon foram recentemente deixados em segundo plano por um debate sobre se as touradas, tão enraizadas na tradição espanhola, ainda têm lugar na Catalunha que busca sua independência. Ele também vem à tona numa época em que as questão de identidade estão no topo da agenda em outras partes da Europa, desde a Bélgica, onde a briga regional afundou os esforços para manter um governo federal estável, até os Bálcãs.

Na quinta-feira, o Tribunal Internacional de Justiça em Haia pesou no debate com uma decisão que segundo os especialistas pode encorajar esforços separatistas em todo o mundo. Numa decisão cuidadosamente calibrada, o tribunal validou a legalidade da declaração de independência de Kosovo da Sérvia em 2008 e ao mesmo tempo evitou dizer que o Estado de Kosovo é legal do ponto de vista da lei internacional.

Na Catalunha, o debate sobre a identidade se intensificou depois de uma decisão polêmica do tribunal constitucional no mês passado sobre a carta de autonomia catalã que já havia sido aprovada por 5,5 milhões de eleitores da Catalunha, assim como pelo Parlamento espanhol em 2006. Embora tenha endossado a maior parte do documento, o tribunal também irritou os nacionalistas catalães ao eliminar alguns de seus pontos, assim como a declaração legal de nação, provocando um imenso protesto em março em Barcelona. A decisão sobre as touradas vem antes das eleições regionais catalãs este ano, nas quais os partidos nacionalistas esperam fazer avanços.

“Esta votação não poderia acontecer num momento pior”, disse Luis de Grandes Pascual, político de centro-direita que no ano passado organizou uma exposição para promover as touradas no Parlamento Europeu, onde ele ocupa uma cadeira. “Há um debate legítimo sobre os prós e contras das touradas, mas ele não se tornou refém da agenda dos nacionalistas catalães determinados a mostrar que seus valores não são os mesmos do resto da Espanha.”

Ainda assim, o resultado de quarta-feira é incerto; uma votação preliminar no ano passado vou vencida por uma maioria de apenas oito. E embora alguns políticos nacionalistas reconheçam que a proibição serviria a seus propósitos separatistas mais amplos, eles também insistem que os direitos dos animais se tornaram uma preocupação fundamental.

“Isto não é um ataque direto contra a Espanha, mas uma oportunidade de mostrar que nós, catalães, formamos uma sociedade avançada que não acredita mais que colocar um animal para morrer em público é algo aceitável”, diz Josep Rull, legislador do partido catalão Convergência e União, que prevê que a proibição será endossada por uma votação “bastante apertada”. “Quando a caça à raposa foi abolida na Inglaterra, será que o motivo foi atacar a identidade inglesa ou defender valores mais modernos? Da mesma forma, as touradas costumavam ser uma de nossas tradições, mas as tradições devem mudar se os valores da sociedade mudam.”

De fato, a popularidade das touradas está em queda há muito tempo na Catalunha, uma região que abrigava alguns dos clubes de touradas originais e onde a principal cidade, Barcelona, costumava se destacar por ter três arenas para servir a um público fanático. Hoje, só uma arena restou em Barcelona, atraindo no máximo 400 espectadores que compram ingressos para a temporada inteira, em comparação com os 19 mil da arena principal Arena de Madri, que tem o mesmo tamanho.

“A Catalunha era de fato o coração das touradas, mas não há dúvida de que a sociedade catalã virou totalmente as costas para a prática”, disse Antonio Lorca, crítico de touradas para o jornal espanhol “El País”. “Agora mais turistas do que moradores locais assistem às touradas em Barcelona.”

A votação também coincide com um declínio econômico do setor, que depende de subsídios do governo e portanto sofreu com os cortes nos gastos públicos. O impacto foi particularmente sentido em cidades menores, onde os administradores locais endividados tiveram que cancelar touradas, que costumavam ser a peça de resistência de suas festividades anuais, reduzindo o número desses eventos em quase um terço desde 2007.

“Há um grave impacto econômico”, diz Eduardo Martín Peiato, diretor administrativo da Mesa del Toro, uma federação que representa o setor. “Mas o que de fato me preocupa é o precedente terrível que esta proibição pode estabelecer e o risco de que uma atitude como esta se espalhe para outras regiões onde as touradas têm bem menos história e tradição do que na Catalunha.”

Ele acrescentou: “Estamos sendo usados como uma pequena mudança por políticos que acreditam que seu futuro depende de promover uma identidade separada.”

Esta visão é expressa ainda mais fortemente pelos toureiros que balançam as capas em trajes brilhantes cuja popularidade na Espanha pode ser comparada à dos melhores jogadores de futebol.

“Somos artistas que tentam se manter totalmente fora da política mas agora estamos sendo usados de forma absurda por políticos para promover a independência da Catalunha”, diz Vicente Barrera, toureiro. “Se o Estado espanhol reconhecer isso como uma arte, a ideia de uma proibição é tão ridícula quanto tentar impedir a pintura porque algumas pessoas não gostam do que é mostrado.”

Os oponentes das touradas, entretanto, têm esperanças de que a votação da quarta-feira seja um ponto de virada em sua cruzada contra um setor que não só fere os touros mas também, segundo eles, oferece pouca compensação financeira para a problemática economia espanhola.

“É quase uma mentira dizer que não machucar mais os animais irá machucar as pessoas”, diz Gascon, ativista pelos direitos dos animais, “uma vez que é um setor que precisa ser subsidiado e onde o dinheiro é dividido entre um número muito pequeno de criadores e de toureiros famosos.”

Os criadores, entretanto, não só defendem sua contribuição para a pecuária e a cultura espanhola como também insistem que a Catalunha arrisca-se a prejudicar sua própria causa com uma proibição como esta. Em vez de reforçar o status da região, a “Catalunha se empobreceria culturalmente, quebrando a tradição de séculos na Espanha e se tornaria mais provincial”, de acordo com Samuel Flores Romano, um dos principais proprietários de terras da Espanha e criador de touros.

Enquanto isso, o setor já está alertando que tomará medidas legais contra uma possível proibição que segundo eles vai contra direitos básicos – especialmente o direito ao trabalho – garantido pela constituição espanhola, não importa quão grande seja o desejo dos catalães de rejeitar os valores espanhóis.

O toureiro Barrera diz: “Se as touradas fossem algo único da Catalunha, tenho 100% de certeza de que eles estariam lutando até a morte para mantê-las.”
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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