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Relatórios da guerra afegã que vazaram aumentam as dúvidas europeias

Judy Dempsey

Berlim (Alemanha)

  • AP

    Ataque talibã mata pelo menos 3 estrangeiros no Afeganistão

    Ataque talibã mata pelo menos 3 estrangeiros no Afeganistão

As revelações contidas nos recém-vazados documentos militares americanos sobre a guerra no Afeganistão levaram a exigências parlamentares, tanto em Berlim quanto em Londres, para uma maior apuração da guerra, o que alguns analistas disseram que poderia aumentar a pressão na Europa para uma retirada acelerada das tropas. Mas havia sinais na quarta-feira de que os documentos militares secretos poderiam não ter qualquer impacto imediato em uma guerra que as partes principais parecem resignadas a dar continuidade, pelo menos a curto prazo: os legisladores debateram vigorosamente os documentos em Washington na terça-feira, mas então votaram por continuar financiando as guerras no Afeganistão e Iraque. Ainda assim, com o público europeu em grande parte oposto à guerra no Afeganistão, os documentos – com seu quadro ruim e granulado dos desafios em solo da guerra– certamente deverão exacerbar as dúvidas já existentes, disseram analistas. “Os documentos mostram uma desconexão entre o que está acontecendo entre o debate do governo, o pessoal em campo e a narrativa pública”, disse Lisa Aronsson, uma especialista transatlântica do Royal United Services Institute, em Londres. “Os vazamentos poderiam acelerar o processo de retirada.” “Essas não são boas notícias para os aliados”, ela acrescentou. Os documentos, fornecidos pelo site WikiLeaks e noticiados na segunda-feira pelo “The New York Times”, “The Guardian” de Londres e pela “Der Spiegel” da Alemanha, contêm sugestões de pelo menos apoio semioficial paquistanês ao Taleban e descreve os esforços secretos e direcionados das forças especiais americanas para eliminar figuras inimigas. Stephen Flanagan, vice-presidente sênior do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, disse que alguns dos detalhes das operações das forças especiais aumentariam as dúvidas europeias a respeito da estratégia da OTAN. “Os europeus, por exemplo, se sentem desconfortáveis com essas operações especiais, como se as tropas estivessem envolvidas em um tipo de guerra suja”, ele disse. Em um sinal palpável inicial de que os vazamentos aumentarão o escrutínio do conflito afegão, um painel parlamentar em Londres, o comitê seleto de Defesa da Câmara dos Comuns, decidiu nesta semana ampliar sua investigação da guerra. O Reino Unido, como 9.500 soldados no Afeganistão, disse que encerrará sua missão de combate em 2015. O “Guardian” citou fontes em Whitehall como tendo dito que a investigação ampliada provavelmente examinará se o prazo é realista e se deve ter início no próximo ano. Na Alemanha, o Partido de Esquerda da oposição renovou na quarta-feira seu pedido de retirada pelo governo de todos seus 4.665 soldados do Afeganistão. “Os documentos deixam claro por que não devemos ter qualquer participação nesta guerra”, disse Wolfgang Gehrcke, o porta-voz de relações exteriores do partido. Outro legislador, citando as revelações do WikiLeaks, exigiu uma revisão da autorização parlamentar para a presença de tropas alemãs. “O que os documentos mostram é que o governo alemão nunca esteve preparado para dizer a verdade sobre o Afeganistão, particularmente as mortes de civis e o uso de forças especiais para matar insurgentes”, disse Hans-Christian Ströbele, um membro do Partido Verde que serve no Comitê de Relações Exteriores do Parlamento. “Não era esse o mandato de nossas tropas.” Os documentos vazados sugerem uma colaboração estreita entre a Força-Tarefa 373, uma unidade de combate de elite americana, treinada para matar talebans e insurgentes que atacam as forças aliadas, e a Força-Tarefa 47, uma unidade de elite do Exército alemão. Quando legisladores perguntaram recentemente ao governo sobre as duas forças de elite, ele minimizou a sensibilidade do papel da unidade americana, dizendo que a “missão central” da Força-Tarefa 373 era “conduzir reconhecimento e identificar indivíduos que fazem parte da liderança da Al Qaeda e do Taleban”. O papel da Força-Tarefa 47 é altamente sensível, potencialmente entrando em conflito com o mandato parlamentar para as tropas alemãs, que fala vagamente apenas em fornecer estabilidade ao Afeganistão. “Ninguém no governo exibiu qualquer liderança na explicação da natureza real desta guerra”, disse Ströbele. “Eu espero que os documentos vazados mudem isso.” Karl-Theodor zu Guttenberg, o ministro da Defesa alemão, foi criticado nesta semana por sua relutância em explicar o papel da Força-Tarefa 47. Reportagens na imprensa alemã diziam que os documentos revelavam que a Força-Tarefa 373 americana estava estacionada no campo de Mazar-i-Sharif, controlado pelos alemães, o que poderia provocar ataques contra o campo que poderiam violar o mandato alemão. As descrições por alguns documentos de combates pesados em áreas de posicionamento alemão vão além dos parcos detalhes sobre a guerra que o público alemão geralmente ouve. Mas a reação na França, outro membro-chave da coalizão da OTAN, foi muito mais contida, disse Justin Va’see, diretor de pesquisa do Centro para Estados Unidos e Europa da Instituição Brookings, em Washington. “Não é nada em magnitude em comparação ao que aconteceu há dois anos, em agosto de 2008, quando 10 soldados franceses foram mortos em combate com o Taleban”, disse Va’see. Isso, ele disse, “realmente provocou uma autoanálise a respeito da presença francesa no Afeganistão e também provocou um debate na Assembleia Nacional. Aqui não temos nada semelhante”. James Carafano, um especialista em política externa da conservadora Fundação Heritage, em Washington, disse que a história do WikiLeaks alimentou as posições já existentes. “Eu não acho que causará uma mudança na opinião europeia”, ele disse. O porta-voz da OTAN se recusou a comentar na quarta-feira sobre o vazamento dos relatórios militares secretos, que foram compilados entre janeiro de 2004 e dezembro de 2009. Em Washington, o vazamento foi mencionado repetidamente em um debate vigoroso na Câmara dos Deputados a respeito do projeto de lei que destina US$ 37 bilhões para as guerras no Afeganistão e Iraque. Os democratas revelaram uma crescente ansiedade em relação ao curso do conflito no Afeganistão. Mesmo assim, o projeto de lei foi aprovado, por 308 votos contra 114, com forte apoio republicano. Funcionários do governo disseram que a aprovação do projeto de lei mostrou que o vazamento dos documentos não ameaçou o apoio do Congresso à guerra. *Brian Knowlton e Carl Hulse, em Washington, contribuíram com a reportagem.

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