Ambiguidades preocupantes permanecem no Iraque

Anne Nivat

  • Ali Abbas/EFE

    Atentado contra emissora de televisão deixa 6 mortos em Bagdá (Iraque)

    Atentado contra emissora de televisão deixa 6 mortos em Bagdá (Iraque)

Nos últimos sete anos como jornalista, fui frequentemente ao Iraque. Sempre ando com proteção e fico com famílias em suas casas, tentando me misturar o máximo possível.

A cada visita, encontro um país diferente. Após a carnificina de 2006 e 2007, o Iraque ficou paralisado de medo. Agora, apesar de continuar havendo uma violência esporádica, a segurança em geral melhorou a ponto de o presidente Obama declarar formalmente o fim do papel de combate dos EUA, e as próprias autoridades iraquianas assumirem a responsabilidade por manter a ordem.

Hoje, as pessoas não usam mais capacetes e máscaras de gás quando fazem compras nos mercados de Bagdá. Em todos os bairros, mesmo os mais perigosos, as crianças saem à tardinha para brincar, e os idosos sentam-se nas calçadas em cadeiras de plástico, como costumavam fazer antes da guerra.

O transporte público, apesar de nem sempre confiável, está sendo reativado. As estudantes não precisam mais ir para a escola ou universidade em vans especiais com cortinas nas janelas.

Mas o ambiente que encontrei em minha mais recente viagem em maio foi cheio de paradoxos. Hoje, o Iraque é um país de paz triste e ambiguidades preocupantes.

Muitas pessoas com quem conversei admitiram que a liberdade da opressão assassina do regime de Saddam foi “produzida nos EUA”. Mas há também um amplo ressentimento com a morte e destruição causados pela guerra norte-americana. Muitos expressaram um cansaço diante da ocupação de sete anos – junto com uma apreensão diante da partida dos americanos.

Poucas pessoas expressaram fé na democracia, seus líderes ou em sua própria capacidade de construir um futuro livre e próspero. Pior, o cenário parece aleijado por uma apatia de anestesiar a mente. Vi o mesmo desânimo paralisante e disseminado na Tchetchênia, no Afeganistão e em outras guerras que cobri como repórter free-lance, na maior parte para a mídia francesa.

Espera-se que os piores horrores que os iraquianos sofreram tenham ficado para trás –mas como podem continuar com suas vidas quando chegaram à conclusão que as batalhas que viveram de nada serviram?

O fato é que resta um enorme vão entre o que o Ocidente quer para o Iraque e o que muitos iraquianos compreendem desses objetivos ocidentais.

Muitas pessoas com quem conversei nunca levaram a sério o desejo americano de estabelecer uma democracia, em grande parte porque simplesmente não tinham familiaridade com o conceito. Para muitos, a palavra democracia se tornou sinônimo de incompetência e corrupção. Eles não têm a menor ideia do que a guerra custou ao Ocidente em termos de dinheiro, vidas e angústia política. Além disso, muitos não dão a mínima.

Em Kirkuk, cidade rica em petróleo onde árabes, curdos e turcos estão lutando pelo poder, visitei um casal turco que conheço há sete anos. Adeeb, engenheiro de petróleo de 55 anos falou diretamente: “Os americanos introduziram distinções em nosso povo que não havia antes. Instituíram quotas de acordo com nossa seita religiosa. Como resultado, a pouca disciplina que tínhamos foi substituída por uma espécie de caos baseado em valores supostamente ‘democráticos’. Se isso que é democracia, então ninguém quer.”

Adeeb parecia ter esquecido que, no regime anterior, suas opções eram muito limitadas por causa de sua etnia. Saddam Hussein nunca hesitou em agir contra qualquer seita ou grupo étnico que julgasse ser uma ameaça e periodicamente fazia operações violentas de opressão. Em 1988, ele usou armas químicas contra os curdos na cidade de Halabja, em um ataque que matou milhares de pessoas. Após a primeira guerra do Golfo, ele massacrou os xiitas marsh, destruindo sua sociedade e sua forma de vida.

Ainda assim, o desapontamento no Iraque pós-Saddam é amplo, independentemente da geração ou status social. Algumas pessoas não apenas expressam abertamente a nostalgia pela ordem da era Saddam, mas fazem dos EUA um alvo fácil de todas as queixas. Sob Saddam, as ruas eram limpas, lembra-se Adeeb. Hoje, carneiros se alimentam do lixo empilhado.

Na cidade de Najaf, Mohammed, comerciante de 35 anos, lamentou que os filhos tivessem que frequentar classes em turnos porque o mesmo prédio está sendo usado para abrigar três escolas diferentes. Em Fallujah, capital da rebelião sunita em 2004, Muamer, professor de 25 anos que lutou contra os americanos, reclamou que sua seita –que estava no topo na era de Saddam - foi “esquecida”.

A mulher de Adeeb, Nidret, ensina inglês em uma escola de ensino fundamental de Kirkuk. Com o passar dos anos, ela se tornou cada vez mais tradicional e religiosa e passou a adotar uma abordagem menos cosmopolita aos valores ocidentais.

“Somos um país ocupado, e os invasores não nos respeitam”, disse ela. “Você pode imaginar, meus alunos nem querem mais aprender inglês. Eles dizem que é a língua de nosso inimigo, das pessoas que estão nos matando sem motivo, então não querem saber.”

A palavra “respeito” é repetida inúmeras vezes, como um mantra. Adnan, 50, que foi oficial militar e membro do Baath, partido governante de Saddam, desapareceu após a queda do ditador e depois ressurgiu como gerente de uma ONG que se dedica a fornecer água potável para sua cidade natal xiita no Sul, também sente que não é respeitado pelos “invasores”.

Ele diz que a vida era melhor com Saddam, em parte porque não viu nenhuma melhora concreta para ele ou para sua família. Ele votou em Ayad Allawi, xiita secular vencedor das eleições há cinco meses, que ainda não sabe se vai se tornar primeiro-ministro. “Precisamos de um homem de ferro”, diz Adnan, “alguém que compreenda que o Iraque só vai se desenvolver novamente se respeitarmos a disciplina, o controle e o Estado de direito”.

Muitos iraquianos estão convencidos de que precisam desenvolver seu país por si mesmos mas não assumem qualquer responsabilidade pelos problemas de hoje. Sua passividade gerou cinismo, claramente ilustrado pela incapacidade dos legisladores recém eleitos do país de alcançar um acordo político. São essas as pessoas que devem encontrar as soluções, não os americanos.

Um argumento usado para justificar a decisão do presidente George W. Bush de entrar em guerra foi que a derrubada de Saddam pavimentaria o caminho para a volta dos exilados iraquianos, muitos deles profissionais altamente qualificados que forneceriam uma base para a renovação e organização da sociedade. Porém, mesmo esses iraquianos bem formados que voltaram para ajudar o país agora são vistos pelos locais com forte ressentimento, como se tivessem “voltado nas malas dos americanos”.

“Onde eles estavam quando agente estava sofrendo? Como podem querer nos guiar agora, quando não compartilharam nosso sofrimento por tantos anos?”, pergunta Fawsia, 68, professor aposentado de inglês e francês que mora em Bagdá.

Essa atitude também é comum no Afeganistão e na Tchetchênia. Quem colaborou com os “invasores” não pode ajudar a melhorar a situação porque são tratados como traidores.

Duvido que esse ressentimento será superado no Iraque, a não ser que haja uma reconciliação profunda – algo que ainda não foi alcançado em nenhum desses países. O desespero e a desorganização são os verdadeiros inimigos, e eles não podem ser derrotados por meios militares. Talvez no Ocidente devamos compreender que é preciso mais tempo para apagar o que a guerra provoca –destruição e desespero - do que para impor o que supostamente deveria trazer: um sistema democrático.
 

Tradutor: Deborah Weinberg

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