Terceirização na área de Direito atrai talentos ocidentais para a Índia

Heather Timmons

Noida (Índia)

  • Keith Bedford/The new York Times

    Centenas de jovens advogados estão se mudando para a Índia

    Centenas de jovens advogados estão se mudando para a Índia

Como procurador-geral assistente do Estado de Nova York, Christopher Wheeler costumava passar a maior parte do tempo discutindo em tribunais da cidade de Nova York.

Atualmente, ele trabalha em um amplo e ainda não concluído subúrbio planejado de Nova Déli, onde prédios de escritórios estão brotando de terrenos vazios e estradas de terra são margeadas por barracas de venda de sucos de frutas e refugo de construção. Na Pangea3, uma firma de terceirização da área de direito, Wheeler administra uma equipe de 110 advogados indianos que fazem trabalhos desagradáveis que geralmente são designados a advogados jovens nos Estados Unidos – a uma fração do custo.

A indústria de terceirização do Direito na Índia cresceu nos últimos anos, e, de uma atividade experimental, ela passou a ser um fator pequeno, mas importante, das atividades globais de direito. Banqueiros de Wall Street, gigantes da mineração, companhias de seguro e conglomerados industriais, que não gostam de desperdiçar dinheiro, estão contratando advogados na Índia para que façam revisões de documentos, avaliações legais, gerenciamento de contratos e outras tarefas mais.

Agora, para conquistarem novos clientes e obterem trabalhos mais sofisticados, as firmas de terceirização indianas estão recrutando ativamente advogados ocidentais experientes. E os advogados norte-americanos e britânicos – que no passado poderiam desprezar a ideia de se mudarem para a Índia ou nutrir rancor contra as atividades terceirizadas na área de direito – estão reavaliando o setor.

O número de companhias de terceirização de Direito na Índia disparou de 40, em 2005, para 140 ao final de 2009, segundo a Valuenotes, uma firma de consultoria de Pune, na Índia. As receitas das firmas de terceirização de direito na Índia deverão experimentar um aumento de 38% em relação a 2008, chegando a US$ 440 milhões (R$ 773,5 milhões) neste ano, e ultrapassar o patamar de US$ 1 bilhão (R$ 1,76 bilhão) até 2014, segundo estimativas da Valuenotes.

“Isto não é um fenômeno passageiro, mas sim um grande movimento histórico”, afirma David B. Wilkins, diretor do programa de exercício de advocacia da Faculdade de Direito da Universidade Harvard. “Há uma pressão crescente para a redução de custos e o aumento da eficiência”, acrescenta ele, e como as companhias já estão familiarizadas com a terceirização para a Índia de tarefas como aquelas da área de tecnologia de informação, os serviços de advocacia são um próximo passo natural a ser dado.

Até o momento, o número de advogados que estão se mudando para companhias de terceirização poderia ser classificado mais como um filete do que uma inundação. Mas isso pode mudar, à medida que mais negócios fluírem das tradicionais empresas de direito ocidentais para a Índia. As compensações para os funcionários graduados das firmas de terceirização do Direito são competitivas em relação aos salários de firmas de Direito de porte médio situadas fora dos grandes centros metropolitanos dos Estados Unidos, segundo dizem os executivos da indústria. O custo de vida é muito mais baixo na Índia e, muitas vezes, existe a atração extra representada por ações da companhia de terceirização.

Currículos

“No momento, a Pangea3 está recebendo mais currículos de advogados dos Estados Unidos do que nós damos conta de examinar”, diz Greg McPolin, diretor do grupo de serviços de litígio da companhia, que divide o seu tempo entre a Índia e Nova York.

A terceirização continua sendo uma questão polêmica e difícil no Ocidente, especialmente neste momento em que as firmas de Direito estão reduzindo os seus quadros de pessoal e cortando planos para contratações. Mas os advogados ocidentais que migraram para as firmas de terceirização não se arrependem da mudança para a Índia.

Leah Cooper deixou o seu emprego como advogada da gigante da mineração Rio Tinto em fevereiro para tornar-se a diretora de terceirização de Direito da CPA Global, uma companhia de serviços de contratos legais que possui escritórios na Europa, nos Estados Unidos e na Índia. Antes de contratar Cooper, a CPA Global havia contratado advogados do Bank of America e da Alliance & Leicester. Atualmente a companhia conta com mais de 1.500 advogados, e Cooper afirma que pretende contratar “centenas” mais na Índia nos próximos 12 meses.

Na Rio Tinto, diz Cooper, ela tornou-se uma “grande defensora” da ideia de transferir tarefas como revisão de documentos para uma companhia de terceirização de direito “porque isso realmente funciona bem”.

“Esse é de fato o futuro dos serviços de advocacia”, afirma Cooper, uma norte-americana que mora em Londres e que viaja regularmente à Índia, e que tem promovido bastante a terceirização no setor.

(Mesmo assim, ela reconhece que existem hostilidades em relação a essa prática. “Quando eu fazia palestras públicas, as pessoas costumavam fazer piadas, dizendo que eu deveria verificar se não havia nenhum objeto estranho debaixo do meu carro plantado por algum funcionário menos graduado que tivesse ficado furioso com as minhas ideias” diz ela).

Mídia

Muitas dessas firmas possuem escritórios em todo o mundo para interagirem com clientes, mas elas mantêm a maioria dos seus funcionários na Índia. Algumas também contam com uma grande quantidade de advogados nas Filipinas. Graças aos baixos salários e custos da Índia, e à grande reserva de advogados jovens do país que falam inglês, as firmas de terceirização cobram de um terço a um décimo do preço por hora cobrado pelas firmas ocidentais.

Os funcionários de companhias de terceirização de Direito na Índia não têm permissão, segundo a lei indiana, para prestarem aconselhamento legal a clientes no Ocidente, independentemente das suas qualificações. Em vez disso, essas companhias executam várias das funções que advogados iniciantes executariam em uma firma de direito dos Estados Unidos.

Até mesmo as firmas de advocacia mais tradicionais como a Clifford Chance estão abraçando essa ideia.

“Eu acho que o creme dental saiu do tubo”, diz Mark Ford, diretor da firma “Knowledge Center”, um escritório ao sul de Nova Déli com 30 advogados indianos recém-formados que trabalham para os escritórios globais da Clifford Chance. Ford morou na Índia durante seis meses para criar o centro, e agora o administra de Londres.

“Nós, como indústria, demonstramos que muitos trabalhos legais de apoio podem ser feitos com sucesso no exterior, com bastante economia e sem problemas de qualidade”, diz Ford. “Por que os clientes aceitariam que as coisas retrocedessem?”.
Muitas corporações concordam que o serviço de advocacia terceirizado, de uma forma ou outra, chegou para ficar.

“Nós continuaremos a procurar grandes firmas em busca dos advogados que elas possuem e que são especialistas em questões específicas, líderes do pensamento de classe global e os melhores advogados de litígios e regulamentações do mundo – e pagaremos bastante dinheiro por esses advogados”, afirma Janine Dascenzo, conselheira geral da G.E.

“Porém, a G.E. não precisa de um exército de associados em torno deles”, afirma Dascenzo. “Você não precisa de um associado ganhando 500 dólares por hora para fazer tarefas como revisão de documentos e exame de processos básicos”, diz ela.

Advogados ocidentais que dão o salto para as companhias de terceirização de direito fazem isso por uma série de motivos, mas, quase todos eles afirmam que ficam nessas empresas devido às oportunidades de construírem um negócio e gerenciarem pessoas.

“Sob diversos aspectos, isso é mais gratificante do que os empregos que eu tive nos Estados Unidos”, afirma Wheeler, que mudou-se para a Índia quando a sua mulher indiana assumiu um emprego lá em 2006.

“Se você estiver falando de 15 funcionários trabalhando em um escritório sem janelas no subsolo, eu não estou interessado”, lembra-se ele de ter pensado quando começou a conversar com a Pangea3. “Mas construir um escritório de 500 funcionários, isso sim é um verdadeiro desafio”.

Shelly Dalrymple deixou o seu cargo de parceira executiva em uma firma em Tulsa, em Oklahoma, em 2007, e atualmente trabalha na Índia como vice-presidente de serviços de litígios globais da UnitedLex, uma companhia de terceirização que possui escritórios nos Estados Unidos, no Reino Unido, em Israel e na Índia.

Ela conta que quando chegou à companhia, o crescimento era movido por corporações que procuravam as firmas terceirizadas para economizar. Agora, as próprias firmas de Direito ocidentais estão começando a adotar esse conceito, diz ela. “Estamos vendo firmas de Direito que pensam bastante no seu futuro, e que vêm até nós com ideias interessantes e criativas”, diz ela.

Parceiros no Ocidente estão pedindo às firmas de terceirização de Direito na Índia que criem equipes dedicadas de advogados para as suas empresas. Essas equipes podem expandir-se e contratar dependendo da quantidade de negócios da firma ocidental. “Isso significa que uma firma de direito com 500 funcionários em Chicago pode competir com uma firma de 2.000 funcionários de Nova York”, explica ela.

Mas mudar-se para uma firma de terceirização de direito, especialmente na Índia, não é para qualquer um. Cerca de 5% dos ocidentais que fazem essa mudança não aguentam e voltam para casa, segundo estimativas de gerentes locais.

Alguns acham difícil adaptar-se à Índia. Em outros casos, o próprio trabalho não lhes parece adequado – por exemplo, após passar anos trabalhando de forma quase independente como advogado de litígios, pode ser difícil fazer uma transição para gerenciar e inspirar uma equipe de novos advogados estrangeiros.

Até mesmo alguns advogados que ficam sentem às vezes saudades das suas antigas carreiras. “É claro que eu sinto falta do trabalho com litígio”, diz Wheeler. “Mas, ver as pessoas aprendendo algumas daquelas mesmas técnicas que eu aprendi é gratificante”.

Tradutor: UOL

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