Companhias de seguro descobrem que tecnologia verde pode dar lucro

Julie Makinen

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    Seguradoras começam a investir em modelos de tecnologia verde, como a energia eólica (foto)

    Seguradoras começam a investir em modelos de tecnologia verde, como a energia eólica (foto)

Todos os dias, autoridades públicas de âmbito nacional e local, fornecedores municipais de serviços públicos, corporações, proprietários de imóveis e consumidores avaliam os riscos e os benefícios da adoção de fontes de energias renováveis. Os custos iniciais da implementação dessa fontes podem ser estarrecedores.

Sem dúvida, a instalação de painéis solares no minha casa poderá ser algo de benéfico para a Mãe Terra e isso poderá fazer com que eu economize dinheiro no longo prazo, mas, e se esses dispositivos quebrarem dentro de dois anos e eu perder US$ 5.000 (R$ 8.800) antes que tenha recuperado o meu investimento?

Infelizmente, pontos positivos derivados de um bom karma não irão pagar a conta de energia elétrica. Mas um seguro poderia pagar.
As seguradoras estão se articulando mais e mais para preencher a lacuna existente entre as boas intenções ecológicas e os gastos reais com a tecnologia verde.

Elas estão cobrindo as garantias dos painéis solares, ajudando as companhias novas com um histórico limitado no ramo a oferecer garantias de várias décadas para os seus produtos e conquistar consumidores e céticos financiadores de projetos. Essas empresas estão estudando os padrões climáticos a fim de fornecer proteção para problemas eventuais como, por exemplo, ventos muito fracos que são incapazes de girar turbinas eólicas, ou uma nuvem de cinzas vulcânicas da Islândia com potencial para reduzir a produção de uma usina de energia solar na Espanha.

As seguradoras estão prestando assessoramento às companhias sobre como melhor incorporar sistemas de energia nas suas operações e oferecendo seguros que não apenas cobrirão as despesas de reconstrução de uma estrutura em caso de perda causada, por exemplo, por um incêndio, mas também farão a reconstrução de forma ambientalmente mais correta e eficiente sobre o ponto de vista energético. Elas estão até mesmo oferecendo cobertura para as empresas que trabalham com comércio de carbono. Assim, se uma prestadora de serviços públicos europeia estiver implementando um programa de controle de emissões na China e um terremoto devastador danificar a usina de energia elétrica de Sichuan que é a sua fornecedora, a companhia poderá encarar o desastre com certa tranquilidade.

Os cínicos podem argumentar que as seguradoras são apenas mais um tipo recente de indústria a enxergar o verde – isto é, o verde dos dólares – no movimento verde. Mas Nikolaus von Bomhard, diretor executivo da Munich Re, afirma que a mudança climática não deve ser considerada apenas uma oportunidade para que as companhias de seguro vendam mais apólices de prevenção de prejuízos.

Ele argumenta que os seguros podem desempenhar um importante papel de “criação de velocidade”, ajudando a acelerar a adoção da energia verde por meio da avaliação, quantificação e distribuição dos riscos. “O seguro é capaz de apoiar a modernização de economias e sociedades ao encorajar o desenvolvimento de novas tecnologias e estimular a inovação”, disse ele em um recente painel de discussões sobre alteração climática na Expo Xangai.

A tarefa de avaliar os números e estabelecer preços para os novos produtos de “seguro verde” cabe a matemáticos, engenheiros, físicos, advogados e outros analistas que devem atuar junto com empresas. Em 2007, uma fabricante de painéis solares solicitou à empresa Munich Re que apresentasse algum tipo de seguro que cobrisse as garantias de 20 ou 25 anos que os potenciais consumidores exigiam. “Uma garantia de desempenho gera um custo na folha de balanço das companhias”, explica Christian Scharrer, um dos analistas de risco da unidade. “A maior parte das companhias não conta com uma estrutura de capital suficiente para cobrir tal garantia na sua folha de balanço, muito menos no caso de envolver quantias elevadas”.

A Munich Re passou meses investigando os métodos de engenharia e fabricação. “Embora os painéis fotovoltaicos possam parecer todos iguais por fora, se observarmos os detalhes dos seus processos de fabricação perceberemos que eles diferem muito entre si em termos de qualidade”, afirma Scharrer.

Depois de mais de um ano e meio de análises, a Munich Re vendeu a sua primeira apólice deste tipo em 2009 e agora conta com oito outras fabricantes de painéis fotovoltaicos na sua lista de clientes. Jim Tynion, parceiro do escritório de advocacia dos Estados Unidos Foley & Lardner e presidente do departamento para questões relativas a energia, prevê que esse segmento de negócios “explodirá” nos próximos cinco anos, especialmente à medida que o país adote cada vez mais legislação relativas à energia verde.

“Os fabricantes terão que produzir mais”, afirma Tynion. “Os chineses e outros fabricantes de todo o mundo querem entrar no mercado dos Estados Unidos, mas muitos deles não contam com um histórico sólido nem com uma situação favorável em termos de crédito. Em outras palavras, essas empresas não são financiáveis nos Estados Unidos. Elas não dispõem de um processo para o cumprimento de cláusulas de garantia no país – se algo quebrar, para quem o consumidor telefonará? Mas se esses fabricantes puderem recorrer a uma companhia de seguros, e esta fizer a pesquisa, isso ajudará o mercado”.

Todd Roberts, presidente da Solartech Renewables, uma companhia da cidade de Kingston, no Estado de Nova York, que recentemente começou a fabricar painéis solares em uma antiga instalação da IBM, afirma que o número de seguradoras oferecendo apólices de seguro para garantia de produtos desse tipo de empresa sofreu uma expansão no último período de seis a 12 meses, passando de algumas poucas para mais de dez. Segundo ele, uma apólice de 25 anos implica em um aumento de cerca de 1% do custo dos painéis solares, mas proporciona uma vantagem competitiva.

Enquanto isso, seguradoras como a FM Global estão assessorando clientes como a Johnson & Johnson em questões como a maneira de instalar painéis solares em suas fábricas sem provocar problemas de drenagem, aumentar os riscos de incêndios ou comprometer a estrutura das instalações.

“A energia alternativa está se tornando uma parte significativa dos nossos negócios”, afirma Jonathan W. Hall, vice-presidente executivo da FM Global. “Nós oferecemos serviços e revisões de planos. Os clientes nos enviam planos para que ajudemos a elaborar os projetos desde o princípio. Nós questionamos: vocês construíram o prédio de forma adequada para suportar o peso do equipamento e avaliaram os perigos de incêndio? Essas empresas não vão querer criar um problema que possa acabar com o seu negócio”.

Ele diz que de vez em quanto precisa avisar aos clientes que os seus planos bem intencionados para tornar os negócios mais sustentáveis podem não ser a melhor ideia. “Telhados verdes não são apropriados em uma área sujeita a tufões”, observa Hall, “já que ventos fortes podem transformar plantas, pedras e outros materiais em verdadeiros projéteis”.

À medida que mais companhias adotam energia solar, eólica e outros sistemas de energia renovável, muita gente está cogitando gerar a própria energia elétrica e vendê-la para as redes públicas de transmissão de eletricidade. Outras companhias que adotaram tecnologias que economizam energia desejam não apenas reduzir as suas contas de eletricidade, mas também se beneficiar de créditos de impostos – créditos estes que podem ser vendidos ou negociados com outros investidores.
“Esse é um dos principais motivos pelos quais as companhias estão investindo todo esse dinheiro em sistemas de energia verde”, afirma Michael Meehan, fundador da Enxsuite, uma firma de São Francisco que ajuda as companhias a gerenciar e aperfeiçoar a sua utilização de energia.

Alguns dos seus clientes estão investindo centenas de milhões de dólares por ano em iniciativas na área de energia verde, e, de acordo com Meehan, o processo de elaboração desses negócios está ficando cada vez mais complexo. Com tantos dólares em jogo, uma quantidade cada vez maior de empresas e indivíduos está procurando hedges e redes de segurança.“Quando atingimos um tal nível de complexidade nos negócios, a ideia integral de seguro adquire muito mais importância”, conclui Meehan.

Tradutor: UOL

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