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Há motivos para esperança em relação à Coreia do Norte

Philip Bowring

  • AP/Korean Central - 24.fev.2010

    Crianças norte-coreanas em Pyongyang (Coreia do Norte) durante cerimônia em comemoração aos 68 anos do ditador Kim Jong-il

    Crianças norte-coreanas em Pyongyang (Coreia do Norte) durante cerimônia em comemoração aos 68 anos do ditador Kim Jong-il

Faz 20 anos que, após a queda do Muro de Berlim, a China e a União Soviética começaram a normalizar relações com a Coreia do Sul. Portanto, faz também 20 anos que eu, assim como muitas outras pessoas, comecei a elaborar cenários relativos ao fim da dinastia Kim na Coreia do Norte, e a como a Coreia do Sul poderia arcar com os custos da criação de um país unificado. Mas 20 anos de esperanças desmoronaram. A lacuna econômica entre os dois países aumentou, a Coreia do Norte possui agora armas nucleares e uma outra geração da linhagem de Kim Il-sung aguarda o momento de assumir o poder. Os possíveis cenários de mudança na Coreia do Norte são poucos, e os de reunificação são ínfimos. Mas imaginar uma mudança radical seja possível na região em um futuro relativamente próximo não é um exercício inútil. Um motivo para esperança é o fato de a saúde de Kim Jong-il estar falhando, o que possivelmente poria um fim à dinastia Kim. Afinal, Kim Jong-il demorou vários anos após a morte do seu pai, Kim Il-sung, em 1994, para consolidar o seu poder, ainda que ele tivesse sido preparado para a sucessão durante anos. O mais novo dos três filhos de Kim Jong-il, Kim Jong-un, que parece ser o escolhido para suceder o pai, teria cerca de 28 anos de idade e seria completamente inexperiente. Mas ele pode contar com uns dois anos para preparar-se. Após a morte de Kim Jong-il, o exército poderá preferir manter o jovem Kim como líder titular e, enquanto isso, controlar a estrutura de poder do país. O exército está há tanto tempo vinculado à mitologia da família Kim que uma sucessão dinástica poderá ser necessária. Mas nem mesmo isso constitui-se necessariamente em uma continuidade das políticas de Kim. Em vez de alegar que possui legitimidade como o defensor da integridade nacional coreana por meio das suas conquistas na área nuclear, conforme fez Kim Jong-il, o novo regime poderia mudar de rumo, dando ênfase a uma economia no estilo da China. Embora isso pudesse, no fim das contas, acabar minando o poder da elite atual, essa iniciativa poderia representar uma oportunidade para que os membros do regime se tornassem ricos como os seus congêneres de Mianmar. Poderia até haver uma mudança mais radical na ideologia Kim, algo como reformas promovidas no passado em outros países no sentido de acabar com regimes stalinistas ou maoistas. Mas será que há evidências de que existam tais sentimentos na Coreia do Norte? Na verdade não. Mas invejas devem abundar naquela estrutura de poder fechada e secreta, e se a dinastia Kim for derrubada, novas políticas provavelmente serão implementadas. O segundo motivo para esperança é o crescente custo diplomático para a China ao sustentar o status quo norte-coreano. Recentemente, a China reiterou o seu apoio à Coreia do Norte, recebendo bem Kim Jong-il em Pequim e criticando fortemente os exercícios navais conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul na sua vizinhança. A China tem um forte interesse em manter um Estado de contenção entre si e as forças dos Estados Unidos e dos aliados norte-americanos. Mas Pequim precisa perceber que o comportamento da Coreia do Norte legitima a presença norte-americana na Coreia do Sul e encoraja o Japão a aumentar os seus gastos com defesa. A Coreia do Norte não deseja confiar demais na China, que atualmente é o seu maior mercado. Em outros países da ásia, ninguém acha que o apoio à Coreia do Norte vale a pena para uma China que deseja exercer um papel de liderança internacional. Pequim não pode abandonar a Coreia do Norte, mas a China sem dúvida recompensaria uma mudança substancial das políticas de Pyongyang, ou até mesmo promoveria uma facção anti-Kim. Um terceiro motivo para esperança pode ser, paradoxalmente, uma relutância crescente por parte da Coreia do Sul em adotar uma postura confrontativa diante da provocação norte-coreana. é verdade que a recente modificação promovida pelo presidente Lee Myung-bak no seu gabinete demonstrou que ele não está abandonando a sua linha dura. Mas pode ser que a Coreia do Sul não necessite de uma grande modificação em Pyongyang para abrir caminho para uma retomada da chamada política “Raio de Sol”, e de um acordo subsequente para a interrupção da fabricação de armas atômicas em troca do reconhecimento da Coreia do Norte por parte dos Estados Unidos. Uma reunificação instantânea segundo o modelo alemão continua sendo improvável. Nenhum dos dois países deseja isso, e a zona desmilitarizada é uma barreira de minas e florestas que não pode ser rapidamente desfeita. Mas uma rebelião popular de estilo romeno na Coreia do Norte não é impossível naquela sociedade altamente urbanizada, caso a luta pelo poder dentro do exército e do partido fiquem expostas. Além do mais, a reunificação poderá se revelar não tão dispendiosa quanto frequentemente se acredita. A Coreia do Sul tem carência de mão-de-obra, enquanto que a Coreia do Norte conta com uma força de trabalho alfabetizada e oferece oportunidades enormes para que as companhias sul-coreanas reconstruam a sua infraestrutura. As perspectivas de reunificação em um futuro próxima continuam sendo remotas. Mas a possibilidade de mudanças radicais na Coreia do Norte é maior. Embora as esperanças tenham sido frustradas durante muito tempo, não existe motivo para se acreditar que essa situação jamais mudará.

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