Luxo de Saint-Tropez acaba envolto em polêmica ambiental

Entre todos os lugares para se gastar punhados de dinheiro em Saint-Tropez, o requintado Le Club 55 está no topo da lista de quase todos os ricos e famosos.

Localizado nas areais brancas de Pampelonne, uma das praias mais belas da Cote D'Azur, “Le Club” oferece um trecho privado de praia onde os frequentadores pagam cerca de 200 euros por dia, ou US$ 225, para alugar um par de cadeiras reclináveis e um guarda-sol e desfrutar de um almoço leve – que não inclui vinho.

Mas o negócio de mimar os ricos – lá e em outros 27 clubes e restaurantes que servem os famosos visitantes da Cote d'Azur há décadas, desde Brigitte Bardot a Paris Hilton – corre o risco de virar de pernas para o ar.

A prefeitura diz que os estabelecimentos são uma ameaça ao meio ambiente; as autoridades propuseram desmontar as estruturas existentes na praia e diminuir a área reservada às praias particulares para proteger a fauna delicada e as dunas desgastadas pela pressão de pés bem cuidados.

Como resultado, apesar da atmosfera de hedonismo de agosto, um ar incomum de rebelião está agitando Sanit-Tropez, cujas empresas contemplam sua primeira “greve” de todos os tempos.

Os planos do governo são “totalmente estúpidos – todo mundo acha”, diz Patrice de Colmont, dono do Le Club 55 e líder da luta local.

“Se disséssemos que os prédios em Paris não poderiam ser acima de uma certa altura você não cortaria o topo da Torre Eiffel”, diz Colmont. “Bem, esta é a Torre Eiffel da Riviera Francesa.”

O prefeito está buscando um meio termo, mas não desistiu da ideia. A prefeitura em Ramatuelle, onde fica Pampelonne, planeja abrir suas portas a partir de segunda-feira, para receber comentários do público.

“Todos nós queremos ficar aqui por muito tempo”, diz Guy Martin, chefe de gabinete do prefeito Roland Bruno. “É por isso que precisamos nos certificar que existe um equilíbrio sustentável entre o ambiente e a comunidade.”

Como na maior parte da França, entretanto, a disputa não é tão simples. Oponentes da medida dizem que ela é uma tentativa de abrir caminho para companhias grandes e bem conectadas dentro do comércio local. As autoridades respondem que a comoção levantada por Colmont e seus colegas é principalmente na defesa de sua forma crassa de comercialismo.

“Eles têm interesses de curto prazo em mente e querem manter suas margens grandes e confortáveis”, disse Martin. A lei francesa proíbe a construção privada em praias públicas. Mas há algumas décadas, as empresas locais construíram em Pampelonne depois de obter alvarás renováveis de um ano que permitem que ofereçam “serviços públicos” como aluguel de jet skis e salva-vidas desde que a construção seja desmontada quando o contrato expirar.

Se pedir o alvará todos os anos é um incômodo, pelo menos ele protegia os donos de pequenas empresas, uma vez que nenhuma grande companhia tinha disposição para arcar com a incerteza e o risco de perder um investimento substancial, diz Carole Balligand, presidente da Save Pampelonne, grupo que representa os empresários locais que estão ameaçados.

Da perspectiva do governo, entretanto, toda a atividade prevista nos alvarás acelerou a erosão de uma importante duna de Pampelonne coberta com espécies de plantas nativas e raras. Em 1986, o parlamento francês aprovou uma lei para restaurar a área, que também sofreu por conta do aumento recente de tempestades violentas ao longo da Cote d'Azur. Há quatro anos, ele pediu à comunidade para encontrar um equilíbrio melhor entre o ambiente e a atividade comercial.

De acordo com o plano do governo, os lotes destinados a praias privadas serão reduzidos para 20% a 30%, e o número de espaços de praia comercializados diminuirão de 28 para 23. Quanto à duna, ela será cercada para deixar a natureza fazer o seu trabalho.

Moradores locais estão irritados com outra exigência proposta para encerrar as atividades nas praias particulares em todo 1º de setembro – ainda alta temporada – e permitir que novas empresas construam atrás da duna restaurada com uma permissão de dez anos. Isso, suspeitam os locais, não é para proteger o ambiente, mas para atrair companhias de férias em massa com bolsos maiores, como a Club Med.

“Isso significaria a destruição total de tudo o que está aqui há quase meio século”, diz Balligand. Ela e outros calcularam que os novos lotes podem acomodar cerca de quatro cadeias grandes de hotel. “Eles nos transformarão num lugar como Cannes, onde não há alma”, diz ela.

Além disso, seu grupo, depois de encontrar fotos do pouco aliado na praia de Pampelonne em agosto de 1944, afirma que nunca existiu nenhuma duna. Ela afirma que o governo está usando argumentos ambientais como desculpa para trazer empresas maiores.

No verão, cerca de 20 mil pessoas passam pela praia de Pampelonne todos os dias. Enquanto Paris e Nicky Hilton, Tina Turner, Bono e uma constelação de outras celebridades frequenta seu playground, o mesmo vale para inúmeros artistas internacionais, intelectuais e políticos. Muitos se misturam com o grupo de moradores locais ricos e desconhecidos, cujas famílias estavam aqui bem antes que Bardot colocasse Pampelonne no mapa no lendário filme francês “E Deus Criou a Mulher”, de 1956.

“Depois da guerra, o desenvolvimento chegou, e eventualmente Brigitte Bardot”, diz Martin. “E daí o grande público veio, porque havia pouca gente que Brigitte Bardot não atraía.”

Antes de Bardot, Saint-Tropez era uma espécie de bairro de Saint-Germain-des-Pres da Paris dos anos 20. Era uma cidade de praia eclética que atraía alguns ricos. Hoje em dia, “o Golfo de Saint-Tropez é coberto de iates, e praticamente a maioria é registrada em paraísos fiscais”, diz Martin.

A perspectiva de perder esses clientes e seu fluxo de dinheiro alarmou Colmont. Seu pedaço de praia privada é pequeno, mas é famoso desde que Bardot e o diretor Roger Vadim foram lá procurar comida entre as filmagens, mas tudo o que havia era a mesa de jantar montada ao ar livre pelo pai de Colmont para sua família.

Na última quinta-feira, Colmont desistiu de sua greve de um dia, diz ele, depois que o escritório do prefeito reuniu-se com ele e outros empresários locais para discutir a questão “de forma mais razoável”. Mas ele não descarta uma greve no final deste verão se o governo resistir.

Em sua luta, Colmont terá pelo menos um peso-pesado a seu lado. “Joan Collins me deixou uma mensagem outro dia para perguntar o que ela poderia fazer para me apoiar”, diz ele. “Ela propôs vir para cá para expor seu ponto de vista” para o prefeito.

Essas celebridades, é claro, atraem muitos curiosos. Colmont quer garantir que a multidão não saia de controle, afastando o público mais rico. Recentemente, diz ele, 300 clientes pagaram para usar as instalações do Le Club 55, enquanto 100 pessoas estavam sentadas na praia pública maior, ao lado da sua.

“Eu preferiria não ter pessoas do Club Med expulsando as que já estão aqui”, diz ele.

Tradução: Eloise De Vylder

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