Contando o custo do machismo

Katrin Bennhold

Em Paris (França)

Quando Alexandra Pascalidou, escritora greco-sueca e apresentadora de televisão, brincou num programa de culinária grego que o pai em vez da mãe poderia fazer o jantar dos filhos, o produtor do programa gritou no aparelho de ponto que ela usava no ouvido: “pare com esse nonsense feminista”, lembra-se.

Na Itália, uma série de escândalos sexuais envolvendo o primeiro-ministro Silvio Berlusconi não impediu seus aliados de vencerem as eleições regionais no começo do ano, enquanto um pouco mais adiante na costa do Mediterrâneo, a mídia espanhola se interessa cada vez mais pelas roupas da ministra da defesa do que por suas políticas.

O sul da Europa, endividado e pouco competitivo, é há muito tempo o elo fraco da eurozona. Mas além de um clima ensolarado e fundamentos econômicos abalados, ele também compartilha um machismo arraigado que custa caro. A porcentagem de mulheres adultas na força de trabalho na região é 20 pontos percentuais menor do que a de homens, em comparação com 12 pontos em toda a União Europeia, 9 nos Estados Unidos e apenas 4 na Suécia.

O sexismo, é claro, não é a causa da crise do débito soberano da Europa, e no curto prazo, as perspectivas do euro dependem mais da mistura certa de austeridade fiscal e estímulo monetário do que de fraternidade feminina. Mas a longo prazo as mulheres podem muito bem ter a chave para superar uma fraqueza econômica fundamental que aflige não só o sul da Europa mas a maior parte do resto do continente: o envelhecimento da população e a redução da força de trabalho que está ameaçando explodir os orçamentos de aposentadoria e assistência à saúde.

Em jogo está a capacidade da “superpotência do estilo de vida” do mundo sustentar seus confortáveis benefícios pós 2ª Guerra como a aposentadoria precoce, remédios gratuitos e generosos benefícios para os desempregados – em resumo, o apreciado estado de bem-estar social europeu. “Se os europeus quiserem manter sua infraestrutura social, precisam melhorar a integração das mulheres no mercado de trabalho”, diz Stefano Scarpetta, vice-diretor de emprego e assuntos sociais na Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, o braço de pesquisa das principais democracias de mercado livre do mundo.

Assim como em qualquer lugar do mundo desenvolvido, as mulheres já representam a maioria dos graduados universitários na Europa. Atrair mais mulheres para o trabalho assalariado acarretaria em muitos dividendos: aumento da produção econômica principalmente nos serviços; fomento ao consumo e aumento do número de contribuintes hoje e amanhã.

Kevin Daly, economista do Goldman Sachs em Londres, reconhece que acabar com a diferença entre as taxas de emprego de homens e mulheres nos 16 países que utilizam o euro aumentaria o PIB em até 13%; no sul da Europa, o ganho seria mais próximo de 20%. Por outro lado, aumentar os níveis de produtividade na eurozona para o nível dos Estados Unidos resultaria num aumento de 7% no PIB, calcula Daly.
“O ganho potencial de aumentar a participação feminina é significativamente maior do que o de aumentar a produtividade”, diz ele.

Isso não é para dizer que o governo não deva tentar aumentar ambos. Na verdade, às vezes os mecanismos políticos são idênticos, diz Scarpetta da OECD, apontando para a rigidez das regras de contratação e admissão na Grécia e Itália, que protegem alguns trabalhadores improdutivos e mantém muitas mulheres talentosas sem trabalho.

Da mesma forma, embora desafie as tradições sociais, retirar os incentivos de impostos que mantêm as mulheres em casa ou aumentar a idade de aposentadoria para mulheres nos países em que ela é menor do que a dos homens (no setor público da Grécia e da Itália, por exemplo) forneceria benefícios econômicos a partir de pouco ou quase nenhum custo fiscal.

Até mesmo subsídios generosos para o cuidado com as crianças seriam recompensados: um estudo do Bundesbank alemão feito em 2002 descobriu que o investimento público em berçários na Alemanha acabou aumentando os rendimentos do governo uma vez que mais mães retornaram para seus empregos.

E talvez surpreenda que o fato de encorajar as mulheres a trabalhar fora também as encoraja a ter mais filhos, produzindo assim mais contribuintes para o futuro. Décadas de experiência nos países nórdicos mostram que uma vez que as mulheres não são mais obrigadas a escolher entre os empregos e os filhos, elas fazem ambos.

A Suécia, à frente da liberação feminina, orgulha-se de uma taxa de emprego feminino de 70% e uma taxa de natalidade de cerca de dois filhos por mulher, a mais alta da Europa ao lado da Noruega e França. Na Itália, apenas 46% das mulheres trabalham, e a taxa de natalidade está estagnada em torno de 1,3. (No caso que você esteja se perguntando: a relação entre dívida e PIB da Suécia deve cair para menos de 37% este ano, enquanto as futuras gerações da Itália terão que arcar com um custo de 115%). Os países do sul da Europa só têm a ganhar ao incentivar o trabalho feminino – principalmente porque a quantidade de mulheres fora do mercado de trabalho é tão grande.

Na Grécia, a diferença nas taxas de desemprego entre os gêneros é de quase 25 pontos percentuais. Na Itália é de 22 pontos; e a Espanha, com 14 pontos, está bem mais perto da média dos EUA, mas ainda fica atrás. Portugal está melhor, com uma diferença de 10 pontos, devida em parte à especialização dos setores têxtil e de confecção. Como uma alternativa à austeridade, alguns políticos da região começaram a ver o potencial econômico de políticas que ajudam a reduzir essa diferença.

“A igualdade de gêneros não é mais uma questão de direitos humanos, mas também uma necessidade econômica”, diz Maria Stratigaki, encarregada de igualdade de gêneros no governo grego. Ela está usando o corte orçamentário em seu país para defender regras que garantam que os homens não recebam mais recursos do Estado do que as mulheres. O primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero da Espanha foi o primeiro da região a colocar o tema na agenda, apontando um gabinete composto metade por mulheres, aprovando uma legislação antidiscriminação e exigindo às companhias que nomeiem mais mulheres para seus conselhos.

Aos 53%, a taxa de emprego de mulheres na Espanha continua menor do que a média europeia. Mas se as mulheres acima de 45% têm uma das menores taxas de participação da Europa, as abaixo de 30 anos não estão tão distantes dos níveis da Suécia. A primeira coisa que Stratigaki fez quando foi nomeada em novembro passado foi traduzir as leis de igualdade de gênero de Zapatero para o grego e distribuí-la nos círculos do governo.

“Pode ser difícil transformar a Grécia na Suécia – pelo menos de pronto”, observou. “Mas talvez possamos começar nos tornando um pouco mais como a Espanha.” Talvez a crise atual, disse Pascalidou, que mudou de Atenas de volta para Estocolmo há quatro anos, será lembrada como um ponto de virada para as mulheres trabalhadoras, assim como a falta de mão-de-obra na Suécia dos anos 60 serviu como catalisadora lá.
“É uma janela de oportunidade”, disse ela. “Não há nada como um bom argumento econômico para vender a igualdade de gênero.”
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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