Depois de anos de crescimento, Austrália enfrenta escolhas difíceis

Philip Bowring

Em Hong Kong

  • EFE/Allan Porritt

    A primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard, observa um projeto no Centro Eletrônico da Universidade de Queensland, em Brisbane

    A primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard, observa um projeto no Centro Eletrônico da Universidade de Queensland, em Brisbane

A baixa qualidade do debate entre os principais partidos políticos da Austrália parece ser uma das razões pelas quais nenhum deles atingiu a maioria nas eleições deste sábado. O eleitorado parece reconhecer, mesmo incoerentemente, que após uma década de crescimento e prosperidade quase ininterruptos, o país enfrenta algumas escolhas difíceis. A mais importante gira em torno de uma questão: população.

Vários aspectos deste problema foram ressaltados nas eleições. O mais óbvio e potente politicamente é o índice de imigração, que recentemente foi muito alto apesar dos altos padrões de uma nação construída por migrantes.

O segundo é a população que está envelhecendo rapidamente. A idade média deve subir de 35 em 2000 para 40 em 2020, enquanto o número de pessoas com 65 anos ou mais deve subir de 12% para 17% no final da década. Assim, a questão de como pagar pelas aposentadorias e serviços relacionados com a idade torna-se uma consideração tributária crucial.

O terceiro fator é a divisão entre a Austrália urbana, confortável e em expansão e o interior rural amplo, parte do qual enfrenta decréscimo populacional e grita por apoio do governo.

Desde 1945, a população da Austrália cresceu de 7 milhões para 22 milhões graças a políticas em favor de um crescimento populacional constante para ocupar o continente. Os números mudaram ano a ano, dependendo das condições econômicas, e houve ocasionais demandas por crescimento populacional zero. Mas a crença que a Austrália poderia e deveria ter um crescimento populacional anual de 1,5% a 2,5% foi sempre forte.

Agora, porém, os dois partidos se comprometeram a cortar o número de imigrantes entrando no país de 270 mil em 2009 para 170 mil ou menos. Com a população existente envelhecendo rapidamente, a imagem de uma Austrália cada vez maior ficará ainda mais erodida.

Parte da mudança de atitude pode ser simplesmente cíclica. A economia da Austrália vem crescendo com a demanda chinesa pela riqueza mineral do país, mas isso não cria empregos diretos nas grandes cidades, particularmente para os imigrantes com pouca formação. E há outras pressões para a redução do número de imigrantes que não são de ordem econômica. A inquietação com a diversidade cultural ainda é um fator. O investimento público inadequado em transporte, água e hospitais e forte aumento nos preços de imóveis geraram mais dúvidas no público em relação à alta imigração.

Ambientalistas se preocupam com as demandas excessivas que o crescimento populacional está fazendo em um continente seco que está ficando mais seco. Suas preocupações devem aumentar agora que os dois principais partidos políticos efetivamente desistiram de colocar um preço nas emissões de carbono, apesar de a Austrália ter um dos índices de emissão per capita mais altos do mundo.

A Austrália sobreviveu à recessão global muito bem, graças principalmente a uma forte demanda da China por minerais que deu suporte à imigração contínua e a uma explosão nos preços de imóveis. Mas é provável que a necessidade de trabalho imigrante caia fortemente se o setor de mineração, que deveria ser a fonte de mais impostos que financiaria uma sociedade mais idosa, caia em tempos mais difíceis. A questão de quanto o setor de mineração será taxado, porém, continua no ar. O plano apresentado pelo ex-primeiro-ministro Kevin Rudd contribuiu para a súbita queda dele em junho.

É provável que haja um novo imposto, mas será de pouca valia se o preço dos minerais afundar. Por enquanto, com a dívida do governo em apenas 6% do PIB, a Austrália faz inveja à maior parte dos países desenvolvidos. Mas grande parte do sucesso do país nos últimos anos resultou simplesmente do alto preço das commodities. Apesar dessa boa sorte, a dívida externa aumentou para 50% da renda nacional e a dívida das famílias em 112%.

A atual prosperidade do setor de mineração contrasta dramaticamente com a renda deprimida de muitos australianos que moram nas áreas rurais e dependem da agricultura.

Sai caro tratar da divisão entre as situações rural e urbana. Por exemplo, o Partido Trabalhista propôs construir uma rede de fibra ótica para atingir 97% da população, para responder à demanda rural por acesso à comunicação moderna e ampliar a oferta de empregos. Mas o projeto custará cerca de US$ 37 bilhões (em torno de R$ 70 bilhões), financiados na maior parte pelo contribuinte.

As dificuldades das zonas rurais em parte resultam da falta de água e da degradação da terra, mas o sofrimento no campo tem um peso emocional e político. Os agricultores invariavelmente fazem pressão por mais apoio do governo e, em alguns casos, proteção contra importações. Agora, eles terão três membros independentes do Parlamento que talvez detenham o equilíbrio de poder. Eles vêm de municípios rurais e defendem políticas econômicas mais nacionalistas do que a Austrália teve nos últimos anos.

É improvável, contudo, que um partido político encontre políticas que unam essas questões populacionais diversas. Mas quem quer que governe terá que lidar com todas elas em uma época em que a mineração talvez não seja mais uma fonte mágica de riqueza quando a idade chegar à Austrália.

Tradutor: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos