Submundo de artes furtadas origina dúvidas e especulações na França

Doreen Carvajal

Em Paris (França)

  • Jeffrey Arguedas/EFE

    Obras de Pablo Picasso são mostradas na exposição "Retratos Imaginários", realizadas na Costa Rica. Evento vai até 25 de outubro

    Obras de Pablo Picasso são mostradas na exposição "Retratos Imaginários", realizadas na Costa Rica. Evento vai até 25 de outubro

A vulnerabilidade dos museus e dos proprietários de grandes obras de arte aos furtos na França é uma preocupação comentada em sussurros há anos, mas dois casos recentes obrigam uma discussão mais aberta do assunto.

Um furto espetacular de 100 milhões de euros, ou US$ 127 milhões, no Museu de Arte Moderna de Paris, em maio, e o julgamento no mês que vem de três homens ligados a um audacioso furto no apartamento de uma neta de Picasso na Rive Gauche revelaram a fragilidade dos mantenedores da grande arte diante dos esforços de ladrões aparentemente meticulosos.

Ao levar cinco pinturas de três galerias do Museu de Arte Moderna - incluindo obras de Picasso, Matisse e Modigliani -, os ladrões parecem ter identificado a única janela que estava com defeito no alarme de segurança, o ritmo das rondas noturnas dos guardas e a multidão de obras de arte menores a evitar.

De maneira semelhante, no crime que está no centro do iminente julgamento -- o furto durante a noite de dois valiosos quadros de Picasso --, os ladrões usaram uma chave falsa cuidadosamente moldada para entrar no apartamento. Eles trabalharam silenciosamente para não acordar a proprietária enquanto recortavam as telas de suas molduras e mexiam em sua bolsa e saíram sem deixar impressões digitais ou vestígios de DNA.

A identidade dos ladrões nos dois casos permanece um mistério - o julgamento envolve três pessoas acusadas apenas de tentar receptar os Picassos, e não de tê-los roubado -, deixando o mundo da arte francesa saturado de especulação sobre os crimes e perguntas cheias de perplexidade.

Quem está por trás dos 20 ou mais furtos a museus de arte praticados na França todos os anos? Como os ladrões pretendem descarregar peças facilmente identificáveis de artistas importantes? E, principalmente, as orgulhosas instituições de arte do país estão prontas para enfrentar as manobras do que parecem ser diversos bandos de criminosos profissionais?

No obscuro mercado global de arte roubada, os muitos museus da França são terrenos de caça privilegiados. Enquanto o número de furtos em museus franceses chegou a um pico de 47 em 1998, nos últimos 15 anos houve uma média anual de 35 casos.

Teorias conflitantes
Os roubos geraram inúmeras teorias conflitantes, que geralmente apontam o dedo para um submundo mutável de criminosos diversos que operam em células fluidas, compartilham informações sobre potenciais compradores e obras de arte à venda e estudam cuidadosamente os museus antes de atacar.

"Outros diretores de museus me disseram que pensam nisso todos os dias", disse Christophe Girard, o vice-prefeito para cultura de Paris. "Todos eles sabem que o crime é sofisticado, e o valor da arte hoje está além da imaginação."

Girard comentou que os ladrões eram tão informados sobre o caso do Museu de Arte Moderna que o atacaram durante uma troca de exposições, um momento de menos atividade e segurança.

Museus importantes de Boston ao Egito tiveram seus chamados de despertar sobre sistemas de segurança.

Por exemplo, 13 quadros, incluindo um Rembrandt e um Vermeer, foram roubados do Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, em 1990 e provavelmente estão guardados, segundo detetives especializados em arte, em algum lugar no sul da França ou da Espanha. Quadros de Van Gogh foram saqueados, incluindo este mês uma pintura de papoulas que vale US$ 55 milhões de um museu no Cairo, onde - como em Paris - o alarme de segurança não estava funcionando por falta de peças de substituição. Em um furto alguns dias atrás, um visitante no Museu Belfort em Bruges, Bélgica, simplesmente colocou em uma sacola uma escultura de Dali de 10 quilos, que vale 100 mil euros e não estava protegida por alarme.

Investigação
Mas a França e a Itália, com seus inúmeros tesouros culturais, são mais vulneráveis aos roubos de arte, segundo a Interpol, a organização policial internacional baseada em Lyon (França) que tem mais de 35 mil itens listados em seu banco de dados de obras roubadas, criado no ano passado.

Karl Heinz Kind, que chefia a unidade de obras de arte roubadas da Interpol, zombou das ideias românticas e cinematográficas alimentadas por "Thomas Crown - A Arte do Crime", que mostrava um Monet roubado, de que ricos colecionadores estão por trás dos furtos. "É pura ficção", ele disse.

Pelo contrário, como indicam tanto o Museu de Arte Moderna de Paris como o apartamento da herdeira de Picasso, a organização de grupo parece ser um ponto forte desses ladrões de arte, segundo Robert Wittman, um ex-agente do FBI. Wittman se infiltrou em um bando de criminosos no sul da França posando como um rico especialista em arte da Filadélfia, e ajudou a polícia na recuperação de um Monet e outros quadros roubados em Nice em 2007.

Enquanto ele tentava negociar um acordo, um deles se gabou de que haviam passado sete meses planejando o furto, lembrou Wittman. "Eles realmente se orgulhavam de seu trabalho, porque diziam: 'trabalhamos muito duro por esses quadros'."

Wittman disse que um dos ladrões alegou ter um inventário de mais de 75 quadros roubados à venda, embora Wittman não os tivesse visto antes de seus contatos serem presos pelo roubo de Nice.

Ele alega que alguns ladrões de arte têm ligações com a Brise de Mer - um bando criminoso da Córsega que foi dizimado por uma onda de queima de arquivos -, mas geralmente, acredita Wittman, são ladrões diversificados que apenas querem produtos para vender.

"Eles têm uma organização frouxa", disse Wittman, autor de um livro, "Priceless" [Sem preço], no qual descreve alguns deles e suas próprias explorações sigilosas. "Eles têm células em todo o país e sabem o que as outras células estão fazendo. Se o grupo de Marselha aparece com um comprador, eles notificam a outra célula. Ninguém é especializado. Eles são ladrões, ponto."

"Cadeia de DNA"
Esse é o tipo de grupo responsável pelo furto no Museu de Arte Moderna de Paris?

Charles Hill, um detetive de arte aposentado da Scotland Yard que se tornou um investigador privado, foi disfarçado recuperar "O Grito" de Munch depois que ele foi roubado em 1994 da Galeria Nacional de Oslo, Noruega. Ele também recuperou um Vermeer levado por bandidos irlandeses de uma casa de campo inglesa.

"Esses grupos são como uma cadeia de DNA: estão todos conectados e estão todos em um cordão", disse Hill. "Eles têm grandes conexões com bandidos na Bélgica e na Holanda, especialmente para cuidar dos produtos roubados."

A polícia francesa e o juiz que cuida do caso permaneceram extraordinariamente sigilosos sobre a atual investigação no museu de Paris, mas negam a ideia de que a Brise de Mer estivesse envolvida.

"Quando você diz Brise de Mer, todo mundo fica impressionado, mas não existe uma evidência precisa ou fatos que nos permitam envolvê-la", disse Pierre Tabel, que já liderou o esquadrão de arte da Polícia Nacional francesa e hoje é um coronel encarregado de operações. "Não é negócio deles, e não acho que eles saibam disso. O que a Brise de Mer vai fazer com um grande quadro?"

Mistério
A organização frouxa do roubo de arte é ilustrada pelo caso de Bernard Jean Ternus, um criminoso francês que hoje está em uma cadeia americana no Texas, depois de negociar com Wittman e outros agentes disfarçados do FBI bebendo champanhe em um iate em Miami para vender o Monet e outros três quadros que desapareceram em 2007.

Os quadros foram furtados do Museu de Belas Artes de Nice por cinco homens armados e mascarados, vestindo macacões de paraquedista, que entraram e saíram das galerias em quatro minutos.

Ao se infiltrar no grupo de Nice - que incluía o dono de uma loja de motocicletas e um operador de escavadeiras que depois foi preso -, Wittman também se viu falando com Ternus e outro francês sobre a disponibilidade de dois quadros de Picasso furtados do apartamento da neta do artista, Diana Widmaier Picasso.

Se Ternus tinha realmente ou não contatos com o bando que furtou os Picassos não se sabe, mas Wittman disse que recebeu um e-mail com fotos dos quadros furtados ao lado de um jornal com data de uma semana após o furto.

Olivier Baratelli, o advogado francês da família Picasso e também vítima de furto de arte, disse que ninguém pediu resgate pelos dois quadros muito conhecidos e um desenho de Picasso, que desde então foram recuperados. "Francamente, não temos explicação e tudo permanece um grande mistério."

Os ladrões foram tão cuidadosos na noite do furto, ele explicou, que causaram poucos danos aos quadros, com exceção de pequenas rachaduras quando as obras foram enroladas em tubos.

No final, três homens de meia-idade - todos ligados com o circuito local de mercados de pulgas e comércio de antiguidades - foram presos quando tentavam mediar um negócio com um quarto especialista em arte não identificado. Um dos suspeitos era Abdelatif Redjil, que havia adquirido certa fama quando alegou ser a primeira pessoa que confortou a princesa Diana logo após seu acidente de carro em Paris, próximo ao Museu de Arte Moderna.

O julgamento - muito adiado por causa de problemas cardíacos alegados por um dos suspeitos - está marcado para começar em 21 de setembro, oferecendo uma rara visão da mecânica do roubo de artes. Um suspeito, Paul Sabbah, afirmou em audiências que foi abordado em um bar de apostas de corridas de cavalo por um homem norte-africano para lhe vender os quadros, mas achou que eram falsificações.

A polícia disse que escutou Redjil falando em código sobre as pinturas em conversas por telefone. Ele nega ter qualquer coisa a ver com o furto.

Enquanto a polícia suspeita deles no caso, os homens são apenas acusados de receptar propriedade roubada, porque não foram encontradas impressões digitais nem vestígios de DNA deles no apartamento de Diana Picasso.

Roubar é o passo mais fácil
Especialistas dizem que é relativamente fácil roubar arte. A parte mais difícil é vendê-la, o que exige organização e distribuição. Geralmente, é no momento da venda que os ladrões são apanhados, segundo Wittman, segundo o qual os criminosos são muitas vezes melhores ladrões que negociantes.

Um caso recente na Alemanha ilustra os riscos do mercado: quatro homens, entre eles dois advogados, foram presos neste verão quando tentavam negociar para receber um resgate pela devolução de oito quadros no valor de 900 mil euros, roubados do banco Bankhaus Lampe, de Düsseldorf.

Nesse furto de 2008, os ladrões saíram sem deixar vestígios: nenhuma entrada arrombada, nenhuma imagem de vídeo, as portas fechadas como sempre.

Até hoje, diz Girard, da prefeitura de Paris, não houve qualquer pedido de resgate, e o Museu de Arte Moderna tenta retomar sua rotina. Hoje sua espaçosa galeria da Escola de Paris - de onde foi roubado "Mulher com Leque", de Modigliani - foi repintada e os quadros, reorganizados.

Os furtos ainda repercutem entre os 80 funcionários do museu, incluindo seu diretor, Fabrice Hergott, que algumas semanas depois do furto disse que toda a equipe estava traumatizada pela perda e que ele mesmo não conseguia olhar para a imagem fugaz de um ladrão com capuz em um vídeo de 10 segundos.

Nos círculos policiais existe certa suspeita de que alguém de dentro pode ter facilitado a ação, por causa de uma rixa com o diretor. Mas em uma reunião dos diretores de museus de Paris em junho Hergott disse que confia em sua equipe.

Bernard Aland, representante do sindicato de seguranças, disse que a polícia entrevistou cada membro da equipe, essencialmente perguntando quando eles souberam que havia uma falha no sistema de segurança e como souberam do furto. Embora a prefeitura insista que os diretores não foram informados de que um alarme não estava funcionando enquanto a firma de segurança SPIE esperava uma peça para substituição, Aland disse que até cem pessoas sabiam da lacuna.

"Até um colega meu de outro museu sabia disso", ele disse.

Embora desde então Paris tenha reforçado sua segurança, um elemento permanece o mesmo na França. Os ladrões condenados - não importa o valor do furto - podem ser sentenciados a no máximo cinco anos de prisão, um padrão que varia por toda a Europa.

Se houver condenações no julgamento em setembro, disse Baratelli, o advogado da família Picasso, os criminosos provavelmente pegarão pouco mais de dois anos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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