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Uma estratégia para o Afeganistão

John Chipman

  • Yuri Cortez/AFP

    Soldados americanos rezam em capela na base da Otan em Kandahar, no Afeganistão

    Soldados americanos rezam em capela na base da Otan em Kandahar, no Afeganistão

é hora dos governos ocidentais desenvolverem uma nova abordagem para seu envolvimento no Afeganistão. A atual estratégia de contrainsurreição é ambiciosa demais, exaustiva demais e desproporcional à ameaça representada pelo país.   Faz bem lembrar o propósito original da presença ocidental lá: deter, desmontar e derrotar a Al Qaeda e impedir seu retorno.   Objetivos de guerra tradicionalmente expandem, mas no Afeganistão eles têm inchado desde 2001, em uma estratégia abrangente para tornar o Afeganistão estável e seguro, assim como para desenvolver e modernizar o país e seu governo. Este é um caso não apenas de desvio de missão, mas de multiplicação de missão.   Derrotar a insurreição do Taleban se transformou virtualmente em sinônimo de derrotar a Al Qaeda, apesar de grande parte da capacidade organizada da Al Qaeda ter se deslocado para o Paquistão.   Mas as duas tarefas não são a mesma. A meta original foi atingida: altos oficiais americanos confirmaram que a Al Qaeda está pouco presente no Afeganistão. A campanha contra o Taleban, entretanto, promete permanecer extremamente desgastante caso continue. Mas o Taleban afegão não representa uma ameaça externa ao Ocidente.   O presidente Barack Obama anunciou que a presença de tropas americanas começará a diminuir a partir de meados de 2011. O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, disse que até 2015 ele deseja que o Reino Unido não tenha mais tropas de combate no Afeganistão. Outros países que contribuem com tropas naturalmente seguirão o exemplo desses países. Assim, uma retirada significativa parece preparada para os próximos anos. O que falta é uma estratégia que permita que isso aconteça de modo a preservar os interesses do Ocidente.   A melhor forma de seguir em frente é a adoção de uma política de contenção e dissuasão que trate da ameaça de terrorismo internacional das regiões de fronteira do Afeganistão/Paquistão. Esta é uma estratégia que terá que ser implantada em caso de retirada das forças de combate. Mas deve ser introduzida mais rapidamente.   Conter a ameaça internacional da fronteira afegã/paquistanesa e impedir a reconstituição da Al Qaeda no Afeganistão teria elementos políticos, diplomáticos, econômicos e militares.   Ela exigiria acordos políticos no Afeganistão e entre importantes potências regionais, como a índia, Paquistão, Irã e os Estados centro-asiáticos. Ela envolveria promessas de apoio econômico e ao desenvolvimento para aqueles que a abraçarem, assim como a ameaça de ataques militares contra qualquer reconcentração de elementos terroristas internacionais.   Diferente da atual estratégia de contrainsurreição, esta nova abordagem não seria tão dependente da orquestração de resultados quase ideais de política interna e desenvolvimento no Afeganistão. Nem exigiria a degradação das capacidades do Taleban ao ponto de quase rendição, uma perspectiva que está longe de imediata.   Não dependeria da vitória de uma sucessão de batalhas locais cada vez mais longas, contra um inimigo que é motivado pela presença de forças estrangeiras.   Em vez de sinalizar uma vitória para o inimigo, ela representaria uma política que atenderia a principal meta de segurança por um período mais longo do que a abordagem atual, dado o baixo apoio à campanha entre os eleitorados ocidentais.   Na verdade, enfatizaria o fato de que a meta original do combate já foi atingida.   Como um primeiro passo, as forças estrangeiras deveriam ser reestruturadas para deter e impedir a reconstituição da ameaça terrorista. Isso significaria um reposicionamento no norte do Afeganistão e o acerto de um acordo que permitiria uma intervenção no sul contra qualquer reconstituição da capacidade jihadista.   Isso poderia envolver operações direcionadas, mas não ataques contra as forças do Taleban que não representem ameaça fora da província.   Segundo, as potências externas devem buscar orquestrar um Afeganistão mais federal, onde as províncias aceitem que a autoridade externa e o governo formal residem na capital, e onde a capital cede soberania prática às províncias na maioria das questões.   Por mais paradoxal que possa soar, um equilíbrio de fraquezas entre a capital e as províncias pode ser mais conducente à estabilidade. A cooperação internacional prosseguiria, mas não a ponto de investir mais poder em um governo central ineficiente.   Terceiro, a nova estratégia aceitaria que o Exército Nacional Afegão precisaria ter um caráter federal, utilizando forças locais com raízes locais.   Líderes militares da coalizão já discutiram com o presidente Hamid Karzai a criação de forças de segurança locais uniformizadas: um Exército afegão emblematizado poderia vir em seguida.   Quarto, os Estados Unidos e os outros países teriam que aprofundar o engajamento com o Paquistão, persuadindo Islamabad de que o contato com uma série de atores no Afeganistão é necessária, além de um engajamento mais pleno com outros atores regionais, incluindo a índia.   Se a presença de forças de combate estrangeiras no sul for removida, não é óbvio que a área se transformaria em um ímã para uma reconstrução da Al Qaeda. Os líderes do Taleban pensariam duas vezes antes de convidá-la de volta, dada a experiência da última década. Ao menos eles poderiam pensar duas vezes. Uma estratégia eficaz de contenção e dissuasão poderia garantir que isso não ocorra.   (John Chipman é o diretor-geral do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos.)

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