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Mais cinco anos para as metas do milênio

Jeffrey Sachs

  • Goran Tomasevic/Reuters

    Com a irmã presa às costas, menina quebra pedras em Juba (Sudão)

    Com a irmã presa às costas, menina quebra pedras em Juba (Sudão)

Quando 140 chefes de Estado e governo se reunirem na segunda-feira na cúpula das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio, eles e a opinião pública se perguntarão o que resultou desse esforço de uma década. A resposta irá surpreendê-los: muita coisa foi conquistada, e algumas das mudanças mais entusiasmantes aconteceu na áfrica. Lembro como as Metas de Desenvolvimento do Milênio foram inicialmente recebidas com cinismo – como algo inatingível, fantasioso, uma pose para foto em vez de uma estratégia de desenvolvimento. O cinismo foi substituído pela esperança, nasceu da experiência, compromisso e mudanças. Em 2000, a situação na áfrica era vista por muitos como perdida. Cerca de metade da população da áfrica vivia com menos de um dólar por dia. A Aids, malária e tuberculose estavam fora de controle. As guerras eram pervasivas; a Libéria, Serra Leoa, Sudão, Uganda, Somália, e o maior de todos, o Congo, estavam emaranhados em conflitos. As economias africanas haviam estagnado ou minguado por uma geração. Quando meus colegas e eu sugerimos que a Aids, a malária e outras doenças epidêmicas poderiam ser controladas e que o crescimento econômico da áfrica poderia ser estimulado se o mundo ajudasse o continente a atingir as Metas do Milênio, fomos com frequência ridicularizados. A áfrica, diziam-me, era simplesmente muito violenta, muito corrupta, muito dividida para melhorar. Uma década depois, o quadro mudou drasticamente. A incidência da Aids diminuiu, de 2,3 milhões de novos casos estimados em 2001 para 1,9 milhões em 2008; a longevidade aumentou tremendamente, com milhões de africanos em tratamento antiretroviral. A malária está caindo decisivamente por causa de programas para distribuir mosquiteiros e fornecer remédios. As mortes por sarampo caíram 90% entre 2000 e 2008, antes de um frustrante aumento súbito no ano passado quando os doadores cortaram equivocadamente seu financiamento para a vacinação. O número de matrículas na escola primária aumentou de 58% em 2000 para 74% em 2007. A maior parte das principais guerras africanas se apaziguou. A economia da áfrica também melhorou. De 1990 a 2000, o PIB per capita da áfrica caiu 0,3% por ano. Entre 2000 e 2010, o crescimento per capita ficou em torno de 3,1% por ano. E a áfrica mostrou resiliência durante a crise atual, e o crescimento econômico per capita deste ano está em torno de 2,5%. A pobreza extrema está diminuindo, mas não rápido o suficiente para atingir as metas do milênio. A porção da população africana que vive em extrema pobreza também caiu de cerca de 58% em 1999 para provavelmente menos de 50% em 2010. As Metas de Desenvolvimento do Milênio merecem bastante crédito por fornecer uma estratégia poderosa de organização e um prazo ousado mas realista. Dezenas de governos africanos adotaram agora estratégias nacionais de planejamento baseadas nas Metas do Milênio. Países do mundo todo têm agora planos específicos, com prazos e orientados por resultados, que mostram um progresso real porque estão investindo na sinergia entre a redução da pobreza, o aumento da produção agrícola, o controle de doenças, o aumento das matrículas na escola e a melhora da infraestrutura como estabelecido pelas Metas de Desenvolvimento do Milênio. Os países doadores ajudaram a promover grandes avanços em saúde pública quando criaram o Fundo Global para Luta contra Aids, Tuberculose e Malária, e a Aliança Global pelas Vacinas e Imunizações. A ascensão econômica da China também aumentou a demanda pelos recursos minerais e hidrocarbonetos da áfrica. A China ajudou também ao se tornar um dos principais financiadores de estradas e redes de energia elétrica na áfrica – áreas críticas em que os Estados Unidos e a Europa praticamente pararam de financiar investimentos para projetos. A ásia e o Oriente Médio se tornaram recentemente também grandes mercados para a produção agrícola tropical da áfrica. Líderes africanos, como o presidente Bingu wa Mutharika do Malawi, também rompeu com costumes antigos dos doadores ao estabelecer novos programas do governo para conseguir fertilizantes e sementes de alto rendimento para agricultores pobres que não podiam pagar por esses insumos. As safras agrícolas aumentaram quando o nitrogênio voltou aos solos empobrecidos. As Metas de Desenvolvimento do Milênio sempre reconheceram a necessidade de uma parceria para acabar com a pobreza, e o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon e as agências da ONU foram persistentes em seu apoio a essa agenda ambígua. Ironicamente, entretanto, os principais obstáculos para atingir as metas até 2015 na áfrica têm origem fora do continente, muitos por causa de países ricos.

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