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Vinte anos após a queda do muro, as mulheres da antiga Alemanha Oriental prosperam

Katrin Bennhold

Em Berlim (Alemanha)

Quando o muro de Berlim desmoronou, e a Alemanha voltou a ser uma, as mulheres no antigo lado Oriental comunista pareciam ser as grandes perdedoras. Elas perderam seus empregos e seus benefícios de licença maternidade e creche. E perderam aquele tipo de igualdade trazido pelo comunismo. Criadas em uma cultura em que as mulheres dirigiam tratores e estudavam física, foram reduzidas a clichês mostrando-as como exageradamente sexuais. A premissa era que, como todo o resto, as alemãs orientais iam se tornar mais “ocidentais” -mais domesticadas e dóceis. Contudo, enquanto a Alemanha celebra 20 anos de reunificação, são as ocidentais que, de muitas formas, batalham para ficar mais como as irmãs orientais. As orientais são mais autoconfiantes, têm mais estudo e maior mobilidade, segundo pesquisas recentes. Elas têm filhos mais cedo e trabalham mais em tempo integral. é mais comum estarem satisfeitas com sua aparência e sua sexualidade e fazem menos dieta que as ocidentais. Enquanto as ocidentais ganham 24% menos que os homens, a diferença no Oriente é de meros 6% (apesar de receberem menos em todos os níveis salariais). As orientais deixaram sua marca: a chanceler Angela Merkel, física, é oriental, assim como Manuela Schwesig, a número dois na oposição do Partido Democrático Social. O mais respeitado programa de auditório político é dirigido por Maybritt Illner, outra oriental, e atrizes como Nadja Uhl e Nora Tschirner estão entre as mais populares. Como disse Schwesig, 36: “As alemãs orientais estão onde as ocidentais gostariam de estar.” Jutta Allmendiger, socióloga da Alemanha Ocidental e autora de “Women on the March” (mulheres em marcha), uma pesquisa do comportamento das alemãs, disse: “As mulheres no Oriente são mais holísticas e combinam de uma forma bem prática seus filhos, suas carreiras e sua sexualidade.” “As ocidentais vacilam. As orientais não temem”, disse ela. Quando a Guerra Fria dividiu a Alemanha em dois, o país tornou-se um experimento vivo em engenharia social. Ocidente e Oriente tinham a mesma história –na qual as mulheres criavam os filhos e cuidavam da casa, seguindo o mantra “kinder, küche, kirche”, ou “crianças, cozinha, igreja”. Quatro décadas de socialização radicalmente diferente levou a conjuntos de comportamentos muito diversos, ilustrando como a política pode formatar as relações entre os sexos. No Oriente, um Estado comunista que estava perdendo trabalhadores para o Ocidente montou creches gratuitas e escolas de tempo integral para as mulheres poderem trabalhar. As mulheres tinham um dia extra de folga por mês, um ano de licença maternidade e um turno de trabalho mais curto após o segundo filho. No Ocidente, os maridos poderiam pedir o divórcio alegando que as mulheres eram “más donas de casa” até os anos 60. Elas precisavam da permissão dos maridos para trabalhar até 1977. As escolas acabavam na hora do almoço, e as creches eram raras. Até a reunificação, mães solteiras recebiam um guardião legal. Quando o Muro de Berlim caiu, o emprego feminino no Ocidente era de 55% e no Oriente de 90%. Desde então, muito foi feito para igualar as condições do Oriente como o Ocidente. As alemãs orientais, com muitas mulheres no ex-bloco soviético, tendiam a adotar mudanças mais rapidamente que os homens. Seja porque precisavam alimentar os filhos, ou por causa da independência que adquiriram, elas se mudavam ou aprendiam uma profissão nova. Centenas de milhares se espalharam pela Alemanha Ocidental em busca de oportunidades de emprego, desafiando estereótipos e fazendo o que suas mães faziam: tendo filhos, trabalhando e competindo com os homens pelo melhor cargo. “As orientais infectaram as ocidentais”, disse Anke Domscheit-Berg, 42, diretora de relações governamentais da Microsoft da Alemanha. Ela deixou o Oriente em 1991 e procurou trabalho na lista telefônica, ligando para as empresas em ordem alfabética. A agência de viagens Ameropa contratou-a. “Na maior parte dos lugares em que trabalhei, era a primeira mãe que trabalhava em período integral, era um trator, criava os precedentes”, disse Domscheit-Berg. “Sempre apareciam outras mulheres depois de mim. é muito simples: quando as ocidentais percebem que dá para fazer, elas passam a querer fazer o mesmo. Quando ouvem falar que a diferença salarial entre os sexos no Oriente é tão menor, elas se perguntam: ‘Por que não aqui?’” As orientais talvez tenham sido criadas no comunismo, mas parecem muito mais empreendedoras que as ocidentais. Até hoje, no Oriente, as mulheres têm maior probabilidade de alcançar altos níveis gerenciais do que as ocidentais. Em Chemnitz, ex-Karl-Marx-Stadt, Brigit Mayer dirige uma fornecedora de peças de automóvel. Todos os funcionários são homens, mas “todos cresceram com mães que trabalhavam fora, então não há problema”, disse Mayer, engenheira de 48 anos. Mayer disse que as mulheres no Oriente também foram menos abaladas pela crise econômica “porque perdemos toda nossa existência uma vez e tivemos que ser criativas para nos recuperar”. Ela disse que teve que cortar pela metade seu pessoal nos últimos anos, mas planeja expandir novamente no ano que vem. Em Linda, outra cidade oriental, Romy Harnapp era contadora trabalhando meio período, mas em 2005 decidiu comprar a empresa de seu patrão, a empresa oriental de metais Blec Tec. Sua filha tinha quatro anos na época, e o filho, apenas seis meses. Nenhum dos grandes bancos ocidentais quiseram emprestar-lhe 3 milhões de euros, e ela ficou com um banco pequeno regional oriental. “Desde então, crescemos de 35 para 67 funcionários e todos os bancos estão batendo na minha porta”, disse ela. Ela não se afeta pelos estereótipos –mesmo quando os homens assumem que ela é uma recepcionista nas feiras da indústria. Seu marido, controlador de tráfego aéreo que também é do Oriente, não se importa dela ganhar mais –“desde que receba sua mesada”, brinca ela. O sucesso que as nações do bloco soviético tiveram em angariar o trabalho feminino oferece lições importantes, agora que muitos países ocidentais estão enfrentando uma falta de pessoal habilitado, um aumento do endividamento e um declínio do índice de natalidade. Hoje, 66% das alemãs trabalham. Entre as que têm filhos com menos de três anos, esse número cai para 32%. Os políticos alemães prometeram aumentar as escolas de período integral e creches. “é claro que ninguém ousa dizer que isso possa ser inspirado na Alemanha comunista. Eles dizem que é inspirado na Escandinávia e na França”, disse Mayer. O regime oriental errou muito, disse Domscheit-Berg, lembrando-se dos serviços de segurança que a pressionaram para que denunciasse seus colegas no verão de 1989 e a amarraram com sua melhor amiga em um radiador em uma cela solitária. “Mas o Oriente estava na frente em relação às mulheres”, disse ela. “Ainda estamos longe de onde estávamos há 20 anos, mas ao menos agora estamos indo na direção certa.”  

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