Banda de Woody Allen dá show em Barcelona

Donat Putx
Em Barcelona

Woody Allen é como se vê em seus filmes. Baixinho, encurvado, feio e com muito pouca graça para se vestir. Na noite desta quarta-feira (29/12), ele se apresentou no Auditori, tradicional praça de eventos de Barcelona, com calça de veludo marrom presa quase na cintura e uma camisa de azul duvidoso com mangas arregaçadas.

"É a terceira vez que estamos aqui. Isso é incrível e excitante", disse o cineasta e clarinetista ocasional como saudação, nos primeiros compassos do concerto que protagonizou junto com sua New Orleans Jazz Band, integrada por Simon Wettenball (trompete), Jerry Zigmont (trombone), Cynthia Sayer (piano), Hendi Davis (banjo), Conald Fowlkes (contrabaixo) e Ron Gracia (bateria).

Jazz tradicional de Nova Orleans, um pouco de blues, um pouco de spiritual negro e outros tons de seus dias do rádio formaram o repertório da noite. Entre os números cantados, Jerry Zigmont interpretou com muita convicção "Precious Lord, take my hand", enquanto Conald Fowlkes se destacou em castelhano com uma apreciada versão de "Para Vigo me voy".

Um cardápio musical que ninguém havia pensado antes. A cada pausa, Allen e seus companheiros trocavam olhares para decidir qual seria o próximo número da apresentação. Os músicos atuaram agrupados no centro do palco sob a luz de um grande refletor, e sentados (menos o contrabaixista, por motivos evidentes).

Woody Allen estava entre amigos, mais interessado em passar um bom momento que outra coisa. Desenvolvia-se com total naturalidade, a ponto de se afastar algumas vezes para remexer numa maleta.

Não pareceu perceber o desmaio de um espectador nas primeiras fileiras, felizmente socorrido e removido por uma lateral do palco. Descontraído, atacava o clarinete como melhor podia: tem um toque irregular, com pouco fôlego, mas em todo caso honesto. "Se eu não fosse tão conhecido", declarou em várias ocasiões, "as pessoas não iriam a meus concertos."

Provavelmente é verdade, como também é o fato de Barcelona ter comparecido em peso à exibição, já que os ingressos se esgotaram.

Povoava o Auditori um público que de modo geral passava dos 40: cidadãos que mostravam no rosto o relaxamento próprio das férias natalinas e a excitação de quem tem praticamente ao alcance da mão um gigante do cinema.

Era o cineasta --o personagem neurótico, viciado em amor e em psiquiatria-- que o público aplaudia com paixão muitas vezes desmesurada. É verdade que o cineasta sempre dispensou em suas produções uma atenção especial ao jazz à moda antiga que apresentaram na sessão dessa noite.

Allen não é como Marshall: não passará despercebido. "Voltaremos muitas, muitas vezes", afirmou em sua tentativa de despedida, antes da longa série de bises. Bem sabe que o espera uma legião de aficionados do cinema para aplaudi-lo em concerto. Cineasta afirma que o público só foi ver porque ele já é famoso Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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