Total de vítimas retarda identificação na Tailândia

Davis Dusster
Em Phuket, Tailândia

Respira-se frenesi e desespero no templo budista Yan Yao de Takua Pa. Mesas junto à estrada protegidas por guarda-sóis abrigam centros de informação improvisados. Locutores com microfones gritam em vários idiomas as normas higiênicas que devem ser respeitadas antes de entrar na zona habilitada como necrotério.

Dezenas de voluntários distribuem máscaras, aventais e botas de borracha como prevenção diante dos surtos de doenças. Um trailer abre caminho, entra na área restrita e descarrega dezenas de cadáveres envoltos em sacos de pano, bolsas de plástico e até descobertos.

Uma vez no chão, despejam-se blocos de gelo seco para atenuar a decomposição, mas o odor nauseabundo torna-se insuportável: o calor contribui tanto quanto os sete dias transcorridos desde o implacável maremoto. O pátio dos pagodes, de tamanho semelhante a uma quadra de basquete, já acolhe cerca de mil restos mortais. Yan Yao se transformou no templo da morte.

As autoridades tailandesas tentam enfrentar como podem a desolação que provocou violentamente o mar de Andaman. Fora a ajuda financeira, o que a Tailândia mais necessita são equipes de legistas e câmaras e caminhões frigoríficos.

Em Yan Yao, existem dez câmaras, mas seriam necessárias 45. O número de mortos cresceu de maneira espetacular nos últimos três dias: já são 4.985. E ainda há outros 6.542 supostos desaparecidos.

O primeiro-ministro tailandês, Thaksin Shinawatra, adiantou que as previsões apontam para que no final sejam recuperados entre 7 mil e 8 mil cadáveres. Enquanto isso, o processo de identificação das vítimas está à beira do colapso.

Khunying Pornthip, vice-diretora do Instituto Central de Ciências Forenses, que coordena as tarefas no templo de Yan Yao, esclarece que a prioridade é deter a putrefação e conseguir que os parentes das vítimas possam entregar amostras de DNA para comparar com as que são colhidas na morgue improvisada.

Takua Pa pertence à província de Phang Nga, a mais castigada pelo inesperado tsunami. Somente entre a lama e as ruínas dos complexos turísticos dessa região costeira, que contava com a exclusiva praia de Khao Lak, já foram retirados os restos de 3.943 pessoas, na maioria estrangeiros que passavam férias.

O trabalho de identificação é penoso. Uma jovem tailandesa pergunta aos visitantes se vieram levar algum cadáver para repatriá-lo, enterrá-lo ou incinerá-lo. Familiares fazem abrir bolsas para examinar objetos pessoais que possibilitem o reconhecimento.

O recebimento de cadáveres é feito nos diversos templos do litoral para que os monges budistas possam realizar os ritos pertinentes quando se trata de vítimas tailandesas. Mas é cada vez mais difícil distinguir se os corpos correspondem a asiáticos ou a europeus. Policiais europeus que estão colaborando em Yan Yao advertem que o problema, mais que o estado de decomposição, é a grande quantidade de cadáveres e a confusão que se vive nos necrotérios.

O governo tailandês, cuja organização está sendo elogiada pelas agências européias de resgate --os cadáveres são fotografados e numerados, além de o atendimento e a coordenação estarem funcionando corretamente--, já anunciou que vai permitir o acesso às morgues somente a equipes de médicos e de policiais, e recomenda que se enviem amostras de DNA por intermérdio das respectivas embaixadas.

Desespero escandinavo

A Suécia, país ocidental com maior número de desaparecidos na tragédia asiática, chegou a um acordo com a Tailândia para realizar essas análises sem que os parentes tenham que atravessar o horrendo umbral de Yan Yao.

As perspectivas para a Suécia são aterradoras. Até o momento se registraram 59 mortes, mas a lista de desaparecidos inclui 3.500 suecos dos 20 mil que estavam na Tailândia no dia 26.

"Espero que esse número diminua um pouco quando acabarmos de verificar, pois pode ser que haja duplicidades, mas em todo caso é a maior tragédia do país, superior ao naufrágio do ferry-boat Estônia, dez anos atrás", afirma Greta Svensson, porta-voz da agência sueca de serviços de resgate. Templo budista de Yan Yao abriga 4 mil corpos, maioria de turistas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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