Ação militar dos EUA devido a tsunami irrita Índia

David Dusster
Em Phuket, Tailândia

A reação ao maremoto que devastou o sudeste da Ásia ganha coloração geopolítica cada vez maior.

Enquanto esta cidade continua procurando cadáveres entre os escombros, Sri Lanka e Indonésia ainda lutam para evitar o surgimento de doenças ou para chegar às zonas mais distantes devastadas pelo grande maremoto. Os Estados Unidos, a Índia e em menor medida a Austrália travam um jogo geopolítico para estender sua influência à região através da ajuda.

A chegada do primeiro contingente de 1.500 fuzileiros navais que os Estados Unidos deslocaram para o Sri Lanka constitui o último episódio da estratégia humanitária.

A Índia observa com receio a presença de tropas americanas no Sri Lanka. Nova Déli considera que a chegada dos fuzileiros não combina muito com o espírito do convite que George W. Bush fez a Índia, Austrália e Japão para constituir o núcleo central da distribuição de ajuda humanitária.

Além disso, o governo indiano está seriamente preocupado com as repercussões que a perda da base aérea militar nas ilhas Nicobar --que foi completamente destruída pelo maremoto-- poderá ter sobre o controle do tráfego marítimo ilegal que abastece os guerrilheiros tamis no Sri Lanka e os rebeldes que entram na Índia por Bangladesh.

"Além de participar do núcleo central liderado pelos Estados Unidos, a Índia, que é uma potência regional principal, deve encabeçar outro tipo de iniciativa", escreve o analista Siddharth Varadarajan no jornal "The Hindu", o mais influente do Estado de Tamil Nadu, onde se concentrou a maior parte das vítimas do tsunami no subcontinente indiano.

Nova Déli contabilizou 9.541 mortos e um número menor de desaparecidos, sobretudo no arquipélago de Andaman e Nicobar, um território remoto situado mais perto da Tailândia que das costas da Índia.

Apesar da magnitude da tragédia, o governo de Manmohan Singh recusou taxativamente a possibilidade de receber ajuda financeira ou de qualquer outro tipo e, pelo contrário, prometeu US$ 25 milhões para as outras áreas atingidas e planejou três operações militares simultâneas de ajuda, em Sri Lanka, nas ilhas Maldivas e na Indonésia.

Os Estados Unidos anunciaram um pacote de ajuda no valor de US$ 35 milhões e distribuíram comida com helicópteros em distritos da província de Aceh, que não haviam sido alcançados desde o terremoto do dia 26. Os americanos tamém enviaram dois barcos com material médico para a Indonésia, seis helicópteros, dois aviões, mil soldados e seis navios, incluindo um hospital flutuante, para o Sri Lanka, e apoio logístico para garantir água potável nas Maldivas.

Nova Déli tentou nos últimos anos reformular as tensas relações que mantinha com o Sri Lanka desde 1983, início da guerra civil entre os guerrilheiros tamis e o governo local, quando se descobriu que a população tamil da Índia ajudava os campos de treinamento e doava material para os rebeldes cingaleses. Por isso se empenhou na ajuda humanitária a Colombo, como fez nas inundações que assolaram o Sri Lanka em 2001.

A Tailândia, o quarto país mais afetado, também expressou publicamente que não necessita de ajuda financeira, mas precisa urgentemente de material e pessoal médico e de meios para evitar a deterioração dos cadáveres.

O secretário de Estado americano, Colin Powell, chegou nesta terça-feira (4/1) a Bangkok (capital tailandesa) para avaliar a situação no oceano Índico, e prepara a conferência de doadores que se realizará esta semana em Jacarta e da qual supostamente não participará a Tailândia, por motivos não declarados.

Mas a Tailândia aceitou a proposta de Washington de se transformar no centro operacional de distribuição da ajuda para a região, mesmo que parte do material, devido à proximidade com a Indonésia, possa ser armazenada no aeroporto internacional de Kuala Lumpur, na Malásia.

Austrália ajuda mais Indonésia

A Austrália concentrou sua ajuda humanitária na Indonésia, país que apresenta o balanço mais mortífero, com cerca de 90 mil mortos, e o único que sofreu o tsunami e o terremoto que o originou, de 9 graus na escala Richter.

Soldados australianos conseguiram nesta terça instalar um sistema de água potável na capital de Aceh, uma das prioridades das organizações internacionais, que temem que, se não melhorarem as condições higiênicas, poderão surgir epidemias de cólera e disenteria.

A Austrália tenta exercer um maior controle sobre a Indonésia desde que o terrorismo islâmico demonstrou sua implantação no arquipélago, com o atentado em Bali em 2002, que deixou 200 mortos, na maioria australianos, e desde que houve diversos conflitos relacionados a barcos de imigrantes sem documentação que tentavam chegar às costas australianas.

A presença militar australiana na Indonésia se completa com a assistência médica à Tailândia. A Austrália lidera a equipe internacional de legistas que aplicam testes de DNA aos 5 mil cadáveres encontrados sem identificação.

Os especialistas australianos precisaram de cinco meses para identificar as vítimas de Bali. Na Tailândia, o número de restos mortais que falta identificar é 30 vezes maior, mas apesar do estado de decomposição a maioria dos corpos não sofreu mutilações, como foi o caso no atentado a bomba contra a discoteca em Bali. País se julga potência regional e quer dar em vez de receber ajuda Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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