Alexandre Magno foi um defensor da tolerância

José Enrique Ruiz-Dom'nec
Em Barcelona

No início do século 21, ressurge o mito de Alexandre Magno. Durante séculos, autores das mais variadas procedências se inspiraram nesse personagem insigne: desde a biografia romanceada do Pseudo Calistenes no século 3º até a tragédia de Racine no século 17 ou as novelas de Mann e Manfredi, passando pelo autor do "Romance de Alexandre" em plena Idade Média.

Todos coincidiram em indicar seu caráter excepcional, forjando uma infinidade de máscaras, às quais vem se acrescentar uma nova, graças à indústria de Hollywood.

Mas quem ele foi na realidade?

Alexandre era macedônio por parte de pai, o rei Felipe 2º, e grego por parte de mãe, Olímpia, que pertencia à família real de Épiro. Teve uma infância e uma adolescência modelares, educado primeiro na escola de pajens, onde estabeleceu uma relação de amizade à grega com Hefestion.

Mais tarde, recebeu o ensino diretamente de Aristóteles, que o introduziu não somente no conhecimento de cosmologia, geografia, botânica e medicina, como também na idéia de que a filosofia é útil para a vida política.

Foi um excelente leitor de literatura, preferindo a poesia épica, em particular a "Ilíada" de Homero, o que o fez imitar os heróis da Guerra de Tróia; também tinha devoção pelas "Odes" de Píndaro, a favor do esporte e do amor entre os homens.

Depois da intervenção na batalha de Queronéia, aos 18 anos, à frente da cavalaria macedônia, Alexandre se convenceu de que fora eleito pelos deuses para levar a cabo uma obra colossal. Essa impressão aumentou na medida em que suas campanhas militares somaram êxitos, ou quando se deixou convencer de que o sacerdote do templo de Amon no Egito o havia reconhecido como filho de Zeus.

Foi um homem inclinado a aceitar que o exterior determina sua vida, de se deixar vencer pouco a pouco pelo desejo da imortalidade concedida pela glória. Em troca, a aura de tolerância com que em certo momento Plutarco quer rodeá-lo lhe pesa; ele pede aos leitores de suas magníficas "Vidas Paralelas" que tributemos a Alexandre o culto que na Antigüidade todo o mundo lhe tributou, mesmo que não compartilhemos suas idéias políticas ou suas decisões de governo.

A simpatia totalmente heróica que inspira o personagem Alexandre não deve nos fazer esquecer sua maneira de envolver-se na história do Oriente Médio. Primeiro como conquistador do Império Persa em sua qualidade de líder das cidades gregas depois de seus fulgurantes êxitos em Granico, junho de 334 a.C.; Isos, no atual golfo de Izkenderun, em novembro de 333 a.C., e Gaugamela, perto de Arbela, entre as atuais cidades de Mosul e Arbil, em outubro de 331 a.C.

Depois, como libertador, o homem que levou ao mundo das autocracias orientais um sopro de liberdade e fomentou a integração de culturas diferentes depois do gesto de contrair matrimônio com a princesa persa Roxana em Susa.

Finalmente, como o conquistador da Ásia, depois de sua marcha triunfal além do Oxus (atual Amur-Daria), a chegada a Samarkanda e o Indo, o confronto com o rei Boro e o sonho de um continente unido sob seu comando. Uma vida transformada em alegoria sobre o mundo da cultura: por isso interessou durante séculos, por isso interessa agora que volte a ser necessária uma reflexão profunda sobre o sentido da história. Seu maior legado foi levar a cultura ocidental à autocrática Ásia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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