Abbas teme abstenção alta na eleição palestina

Henrique Cymerman
Em Ramallah, na Palestina

Mahmud Abbas, também conhecido como Abu Mazen, já considerado nas ruas palestinas o próximo líder da Autoridfade Nacional Palestina, não esconde um confronto aberto com os fundamentalistas do Hamas e chama o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, que considera um "interlocutor legítimo", para retomar as negociações de paz depois das históricas eleições deste domingo (9/1).

"Não temo o Hamas, só temo Alá", disse em declarações ao jornal israelense "Maariv". Abu Mazen referia-se às acusações feitas contra ele pelo grupo integralista no sentido de que "cravou uma faca em suas costas", ao exigir que ponha fim aos ataques com mísseis Qassam e morteiros contra alvos israelenses. O Hamas, segundo movimento político, boicota as eleições presidenciais e não apresenta candidato.

Nas mesquitas de Gaza distribuem-se comunicados contra o provável sucessor de Iasser Arafat, e nas ruas carros de integralistas com alto-falantes atacam Mazen.

Pela primeira vez na Faixa de Gaza, o movimento majoritário al Fatah publicou um comunicado em que adverte que o lançamento de mísseis contra Israel "prejudica o interesse nacional palestino e pode provocar uma guerra civil".

"Pedimos aos irmãos do Hamas que ponham fim à incitação à violência para evitar uma guerra fratricida e o caos e para preservar a união; a resistência não é monopólio do Hamas", diz o comunicado.

Abu Mazen, por sua vez, declarou ao jornal "Maariv" que "cada vez que o Hamas ou a Jihad lançam um projétil contra Israel sem provocar vítimas Israel responde e mata dez pessoas. O ataque do Hamas é um erro, assim como a represália de Israel. Eu já expressei minha opinião: sou contrário aos ataques".

Em uma entrevista coletiva em Nablus, cidade onde foi recebido por milhares de pessoas, Mazen disse: "Se eu ganhar será uma excelente oportunidade para a paz. Ariel Sharon é um líder eleito e negociaremos com ele. Vamos verificar se será sério ou não".

Mazen foi indagado se por causa da campanha eleitoral está vivendo um processo de "arafatização" e se é por isso que nos últimos dias se referiu pela primeira vez a Israel como o "inimigo sionista".

"Não quero falar sobre isso. O discurso de Arafat era pragmático e lógico, e se era extremista eu também sou. Mesmo assim ninguém pode ser a réplica de outro", respondeu.

Na Universidade de A-Najah em Nablus, Mazen abordou um tema que afeta milhares de famílias palestinas: os 8 mil presos em Israel. "Não haverá solução política para o conflito enquanto houver um só prisioneiro palestino em Israel", afirmou.

Imad Shakur, um dos principais assessores de Mazen, reconheceu nesta sexta-feira (8/1 )ao La Vanguardia que "a vitória do presidente da OLP parece certa".

Mas acrescentou que a grande preocupação do novo líder é que uma baixo comparecimento às urnas --menos de 60%-- ponha em dúvida sua legitimidade. Segundo as pesquisas, Mazen poderá ter de 60% a 65% dos votos.

No entanto, se apenas a metade dos eleitores acorrer às urnas isso significaria que conta com o apoio de menos da metade do eleitorado. É por isso que os seguidores da al Fatah e de Abu Mazen estão realizando um último esforço para que o maior número de eleitores participe da votação. Em Gaza, o mufti --a autoridade religiosa máxima e funcionário da Autoridade Nacional Palestina-- publicou um édito em que apresenta a votação como um preceito religioso.

O principal rival de Mazen, o médico ex-comunista Mustafa Barguti --que segundo as pesquisas poderia ter 23% dos votos-- acusou ontem a "velha guarda da OLP de fazer campanha de seus Mercedes" e de usar toda a infra-estrutura da ANP a favor do candidato oficial. Mazen, que deveria participar hoje de um comício em Jerusalém Oriental, o cancelou para evitar ser visto perto de tropas israelenses. Para candidato da Fatah, legitimidade do pleito ficaria ameaçada Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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