Brasil completa uma década sem Tom Jobim

Bernardo Gutiérrez
Em São Paulo

Faz tempo que Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim não compartilham inspiração e cervejas no Bar Veloso no bairro de Ipanema. Faz tempo que foram morar no Olimpo dos deuses imortais da boemia.

Mas toda a Ipanema, e por extensão todo o Rio de Janeiro, gravitam ao redor das canções do maestro Jobim, cuja morte completa o décimo aniversário.

A Rua Montenegro --hoje Rua Vinicius de Moraes-- passa muito perto da avenida Antonio Carlos Jobim. E na esquina do desaparecido Bar Veloso, onde a dupla deu forma à célebre Garota de Ipanema, encontra-se hoje o Bar Garota de Ipanema. Algo na atmosfera nos remete àquela época dourada.

Homenagem sonhada

Em 8 de dezembro de 1994, Antonio Carlos Jobim morreu depois de ser operado em Nova York. Deixou para trás um impressionante legado musical.

São dele "Garota de Ipanema", "Águas de Março", "Desafinado", "Corcovado", "Wave", "Eu Sei que Vou Te Amar", "A Felicidade", "Samba de uma Nota Só" e um longo etcétera de grandes clássicos, a maioria com letras de Vinicius de Moraes ou de Newton Mendonça.

Desde que Frank Sinatra, Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald começaram a cantar versões de Jobim, dezenas de canções do maestro se transformaram em hinos célebres que rechearam o repertório de centenas de artistas, de Georges Moustaki a Ryuichi Sakamoto, passando por Bebo Valdés, Piazzola e Tete Montoliu.

Dez anos depois da morte de Tom, como era conhecido pelos amigos, todo o Brasil lembra o legado de um dos grandes clássicos da música do século 20. Documentários, livros, concertos e vários discos homenageiam o músico, que tem sete canções entre as reproduzidas mais de um milhão de vezes, e que em 1963 cometeu a ousadia de desbancar os Beatles do primeiro lugar com sua sensual Garota de Ipanema.

Novidades

Entre a chuva de novidades deste Ano Jobim, destaca-se o disco Antonio Carlos Jobim em Minas ao Vivo, gravação de 1981 no Palácio das Artes de Minas Gerais, no qual Tom nos mostra sua grandeza a sós, com seu piano e sua voz.

Foi lançado pela editora familiar, Jobim Music, e o selo Biscoito Fino, que inaugurou uma coleção Jobim. Além disso, a Biscoito Fino pretende lançar um DVD com o recital que ele deu em 11 de setembro de 1992 no Mosteiro dos Jerônimos em Lisboa.

A Jobim Music, que desde 1990 recompila o acervo do maestro espalhado por todo o mundo, publicou também o álbum Jobim Sinfônico, um fantástico concerto da Sinfônica de São Paulo, realizado graças ao empenho de seu filho Paulo Jobim, que também dirige o prestigioso Instituto Antonio Carlos Jobim.

Outra das grandes novidades é a reedição digitalizada e remixada de um álbum que marcou época, Elis & Tom (Trama), no qual Elis Regina, a grande diva do Brasil, canta sobre o piano do maestro Jobim. E sem dúvida outra bomba será o CD Documentos Sonoros, do Instituto Cultural Cravo Albin, que contém uma gravação inédita de Jobim e do grande Pixinguinha, o mítico saxofonista da música contemporânea brasileira.

Pai de um estilo

Os músicos costumam dizer que a estrutura do que foi chamada bossa-nova é um milagre. Por trás de uma harmonia redonda e suave, desse doce balanço sonoro, esconde-se uma armação complicadíssima de arranjos jazzísticos. E tudo repicado com o peculiar ritmo quebrado introduzido pelo violonista João Gilberto.

Mas Jobim, o pai harmônico da bossa-nova, preferia dizer que tocava samba. Samba erudito ou jazzístico, que deu lugar ao nascimento da nova MPB.

Conscientes da importância que o minimalista Jobim dava a sua obra, a Jobim Music editou o Cancioneiro Jobim --cinco volumes com todas as suas partituras-- e o Cancioneiro Jobim Luxo, que são dois livros, um de biografia com fotos e manuscritos inéditos e outro de partituras com obras selecionadas.

Além disso, a Jobim Music lançou o livro "Ensaio Poético", assinado por Tom Jobim, um lírico diário íntimo com fotos de sua viúva, Ana Lontra Jobim.

Broadway

Em 2006 chegará ao cartaz na Broadway "Orfeu da Conceição" (1956), a peça teatral de Vinicius de Moraes, embrião do aclamado filme "Orfeu Negro".

Terá trilha sonora de Jobim, assim como teve o filme. Em um documentário recente da TV Cultura de São Paulo, Tom explicou como conheceu Vinicius em uma noite de boemia e uísque. Vinicius lhe propôs compor a música de "Orfeu Negro". Jobim lhe perguntou: "Mas isso me dará um dinheirinho?"

Pouco imaginava o genial pianista que sua proximidade com Vinicius faria nascer a bossa-nova, a música que, como contam os cariocas, fez o Brasil começar a vender café para os Estados Unidos. E muito menos que o principal aeroporto do Rio de Janeiro um dia se chamaria Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim, onde hoje uma exposição de fotos, vídeos e canções lembram o grande músico.

Caifórnia aos pés do maestro

Os Estados Unidos também prestam homenagem a Jobim. No último dia 5, a Associação Internacional de Educação de Jazz organizou um concerto em Long Beach (Califórnia) pelo décimo aniversário de sua morte. Participaram seu filho Paulo Jobim, Dori Caymmi, Shirley Horn, Herbie Hancock e outras figuras do jazz internacional. Discos inéditos, exposições e livros lembram o pai da bossa nova Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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