"A loucura criativa me fascina", afirma DiCaprio

Gabriel Lerman
Em Los Angeles

O mundo está cheio de garotas perdidamente apaixonadas por ele, mas esse homem que completou 30 anos, embora aparente menos, não tem o menor interesse em ocupar o lugar de galã que Hollywood lhe havia reservado.

Leonardo DiCaprio, nascido em Hollywood em 1974, escolhe com precisão cada projeto, ao qual se entrega por inteiro. O último é "O Aviador", a biografia do multimilionário, aviador e diretor de cinema americano Howard Hughes, uma das personalidades mais fascinantes e controvertidas do século passado.

Continua assim uma colaboração com Martin Scorsese que começou com "Gangues de Nova York" e que continuará com "The Departed". Agora interpreta os primeiros anos de Hughes, do final da década de 20 até meados da de 40, e realiza um de seus melhores trabalhos, que o coloca na primeira fila para os Oscars. "Filmar com Scorsese é um sonho", disse o astro.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva com o ator.

La Vanguardia - O que o fascinou tanto em Howard Hughes para querer transformar-se nele?

Leonardo DiCaprio - Como ator, procuro constantemente um grande personagem. E como fanático por história, tento aprender sobre as pessoas extraordinárias que fizeram coisas assombrosas. Li um livro sobre Howard Hughes e ele me pareceu o personagem mais pluridimensional que poderia encontrar. Muita gente tentou defini-lo em biografias, mas sem conseguir classificá-lo. Fiquei tão fascinado por sua loucura criativa que levei o livro para Michael Mann e convocamos John Logan para escrever o roteiro.

LV - Por que se concentraram na juventude de Hughes?

DiCaprio - Vimos que podíamos fazer dez filmes diferentes sobre ele e que era melhor nos concentrarmos em sua juventude, porque nos interessava mostrar como a loucura foi se apoderando lentamente dele, com o pano de fundo do mundo único dos que tinham começado a transformar Hollywood em uma potência cinematográfica. Também quisemos mostrar os pioneiros do mundo da aviação, que eram como astronautas, porque arriscavam a vida para fazer a tecnologia avançar. Hughes era multimilionário, mas nunca conseguiu encontrar a felicidade nem a paz interior. Esse é um dos elementos mais interessantes do filme: por um lado, tem um sucesso total em tudo o que faz, e por outro sente-se sufocado pelos micróbios e os germes, devido a seu transtorno obsessivo-compulsivo [TOC].

LV - Você se identifica com alguma dessas coisas?

DiCaprio - Ele levou tudo muito mais longe do que eu poderia imaginar em minha vida, mas além disso era uma pessoa absolutamente obsessiva. Ficava obcecado por tudo em que se envolvia, fossem aviões, mulheres ou filmes, e isso era conseqüência de sua doença. Eu nunca poderia chegar a esses extremos. Mas posso me identificar com a parte em que ele filma "Los Angeles do Inferno", porque fiz parte de filmes que foram rodados durante meses e meses, para que tudo saísse perfeito.

LV - Você vê algum outro paralelo entre a fama de Howard Hughes e a sua?

DiCaprio - Sou uma pessoa muito reservada, e Hughes também foi. Mas no caso dele devia-se a sua enfermidade mental, tinha um medo intenso de estar perto das pessoas, quase tanto quanto dos germes. No meu caso os motivos são outros. Sou um ator e preciso que as pessoas acreditem que posso ser diferente em cada papel, e para isso não devem saber demais sobre mim. Quero permanecer nesse ramo por muito tempo.

LV - Alguma vez você sentiu que também estava ficando louco?

DiCaprio - Às vezes. Houve momentos em que não tinha vontade de falar com ninguém. Passei muito tempo sentado sozinho na sala de projeção. Mas a dor é passageira, e o cinema é para sempre. É o mais atraente neste trabalho: saber que o que você está fazendo um dia vai aparecer na grande tela.

LV - Hughes teria sido o mesmo gênio sem o transtorno obsessivo-compulsivo?

DiCaprio - Creio que uma coisa é conseqüência direta da outra. Se ele não sofresse de TOC, nunca teria ficado obcecado por construir o maior avião da história ou por voar ao redor do mundo mais rápido que qualquer outro. Nem em voltar a filmar "Los Angeles do Inferno" para que tivesse som, e continuar filmando durante quatro anos. Tudo fazia parte de sua natureza obsessiva, que o levou a ter uma vida espantosa. Naquela época não se conhecia o TOC. E ele era tão introvertido que se houvesse um médico capaz de curá-lo não teria se atrevido a consultá-lo. Ele pensava que essa era sua maneira de ser, sem suspeitar que sofria de uma enfermidade mental. Mas foi isso que o levou a fazer tudo o que conseguiu.

LV - Como você descreveria sua relação com Martin Scorsese?

DiCaprio - O que vou dizer pode parecer um pouco exagerado, mas não posso mentir. Trabalhar com ele é o sonho de qualquer ator. Se você perguntar a qualquer colega meu com quem gostaria de trabalhar, a resposta será Scorsese. Não somente é um dos melhores diretores de todos os tempos, como é um historiador cinematográfico. É um professor de cinema. Viu todos os filmes que foram feitos até 1980. Enquanto você trabalha com ele, recebe uma educação, todos os dias. Eles passa filmes para você. Fala sobre cenas específicas e lhe explica com precisão o que quer que seja visto na tela. Você pode lhe perguntar o que quiser sobre seu personagem ou como deveria fazer a cena e ele pode lhe dar 20 exemplos de como fizeram outros diretores e outros atores, e através desses exemplos explica por que alguns fizeram bem e outros mal. É uma incrível experiência educativa.

LV - E pessoalmente?

DiCaprio - Apesar de haver entre nós uma enorme diferença de geração, descobrimos que temos os mesmos gostos em um monte de coisas, não somente em cinema. Também compartilhamos gostos em música e arte, e nos desagradam as mesmas coisas. Compartilhamos a mesma ética de trabalho e nos damos muito bem. Fazemos maratonas de ensaios, que podem ser muito árduas se a gente não desfrutar do processo, mas com ele são um verdadeiro prazer. Marty consegue que as coisas saiam tão bem porque quer que tudo seja tão autêntico quanto possível. Mas além disso ele gosta que seus atores façam propostas. É muito mais receptivo nesse sentido do que qualquer outro diretor com quem trabalhei antes. Astro vive jovem Howard Hughes em novo filme de Martin Scorsese Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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