Quadrilha de videntes do Brasil é presa na Europa

Paloma Arenas e
Eduardo Martin de Pouzelo
Em Barcelona

O mal passará com o dinheiro, eles diziam, e os clientes incautos, sempre pessoas oprimidas por graves problemas sentimentais, de saúde ou familiares, pagavam o que fosse preciso na esperança de que a magia que lhes ofereciam mudasse sua vida para melhor.

Mas a única coisa que mudava de mãos era o dinheiro, pois se tratava de um bando de estelionatários que o Corpo Nacional de Polícia desarticulou em Sabadell, a última localidade que os supostos delinqüentes tinham escolhido para agir antes de voltar ao Brasil, sua terra natal.

Como a investigação está no início, não se sabe com certeza a quantidade extorquida nem o número de vítimas, mas "um cálculo muito prudente", nas palavras dos investigadores, indica que os extorquidos devem ser centenas e o dinheiro roubado pode chegar a vários milhões de euros. "Só em Navarra se acredita que conseguiram um milhão de euros", explicou um agente, a título de exemplo.

Os detidos são sete, dois homens e cinco mulheres, todos brasileiros, e pelo que se pode averiguar com uma longa trajetória de fraudes cometidas em várias cidades espanholas, de Pamplona a Palma de Maiorca, segundo informaram fontes policiais, que não descartam que possam ter agido em outros lugares da Espanha e até em Portugal.

Eles são Jone M.T., de 40 anos; Melinda C., 24; Leonardo C.K., 27; Olga M., 58; Marta C., 57 e com antecedentes por extorsão; Sonia M., 49, e Lilia M., 27, a qual era procurada pela polícia de Jaén. Além disso, os sete encontravam-se em situação irregular na Espanha, e já se iniciaram os expedientes de expulsão.

O modo de agir desse grupo de supostos estelionatários era sempre o mesmo. Chegavam com seus carros a uma cidade, alugavam um apartamento, instalavam-se nele e em seguida punham anúncios na imprensa ou meios de comunicação locais oferecendo-se como curandeiros, videntes e professores espíritas capazes de solucionar graves problemas de saúde, questões sentimentais, mau-olhado e situações semelhantes. Essas atividades eram habitualmente dirigidas pelos homens do grupo.

Uma vez divulgados seus poderes, preparavam o cenário para aplicá-los, e para isso decoravam o apartamento com objetos esotéricos, tarô, bonecos, cabelos, velas e até animais mortos. Desse modo, conseguiam que o lugar se transformasse em algo misterioso, no qual aparentemente tudo era possível.

Nesse cenário mágico, as mulheres atuavam com clientes predispostos a acreditar e que buscavam ajuda para acabar com seus problemas. Segundo testemunhas, elas tinham uma capacidade de convicção tão extraordinária que entre os enganados estão inclusive proprietários dos apartamentos alugados e gerentes de empresas de mala-direta que contrataram para fazer publicidade.

Obviamente, pediam dinheiro às vítimas. Quando estas não tinham, eram instadas a pedir crédito ou a que lhes entregassem objetos de valor, que os "videntes" guardavam em hospedarias onde alugavam um quarto para esse fim.

Quando as vítimas diziam que não podiam pagar, as bruxas vaticinavam a morte de um ser querido ou uma doença gravíssima, maldições que, afirmavam, só poderiam ser anuladas com mais dinheiro.

Além dos apartamentos que alugaram, os detidos utilizaram um quarto da hospedaria Ric de Sabadell durante três meses, supostamente para guardar os objetos de valor que cobravam dos clientes que não podiam pagar com dinheiro.

Manuela, a dona dessa hospedaria situada na estrada de Terrassa, lembrou nesta quarta-feira (12/01): "Sempre tratamos com um mesmo homem brasileiro, muito bem vestido, educado e de meia-idade". Embora ela não lembre o nome com que ele se registrou, tudo aponta para Jone M.T., nascido em Goiânia e de 40 anos, o mais velho dos homens detidos.

Manuela afirma que ele sempre pagou a hospedagem, mas nunca dormiu no quarto, aonde só levava pacotes. "Um dia meu marido, cansado de ver que não paravam de trazer malas e sacolas, começou a suspeitar. Aquilo não era muito normal. Então eu me fiz passar por uma empregada e lhe disse que parasse de trazer coisas porque o chefe tinha me dado uma bronca", explica Manuela, que abriu o estabelecimento há dez anos.

"O homem respondeu que sentia muito, mas sua filha acabara de se casar e eram os presentes. Inclusive me disse um dia para ajudá-lo a subir as sacolas", acrescenta indignada.

No final de novembro passado, a polícia, com uma ordem judicial, entrou no quarto e requisitou todos os volumes. "Eu não quis olhar o que acontecia na rua porque senti medo, mas me contaram que foi uma grande confusão, que tiraram muitos volumes e naquele dia os detidos estavam na rua."

Foi então que Manuela percebeu que o palpite de seu marido estava certo. "Com todos esses anos já aprendemos: não se pode confiar em ninguém", conclui. Valores roubados por charlatães podem chegar a milhões de euros Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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