Especialistas buscam forma de medir a felicidade

Andy Robinson
Em Nova York

Thomas Jefferson insistiu em incluir o direito a "buscar a felicidade" na Declaração de Independência dos Estados Unidos em 1776, em parte porque era seguidor do então muito em voga filósofo e economista Jeremy Bentham, que, como bom representante do Iluminismo inglês, entendia por felicidade um simples acúmulo de "utilidades".

Dois séculos depois, enquanto a Catalunha debate a inclusão da mesma frase em seu novo Estatuto de Autonomia, os economistas continuam procurando um instrumento para medir a felicidade. Esta semana na Filadélfia, o prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman uniu-se a neuropsicólogos na conferência da Associação Americana de Economistas para investigar a viabilidade de elaborar um indicador quantificador da felicidade, um complemento de indicadores como o Produto Interno Bruto, que mede o volume de uma economia, ou os salários. Até a revista "Time" anuncia em sua última capa a nova ciência da felicidade.

Para o utilitarista Bentham, o objetivo da política econômica era "dar a maior felicidade ao maior número de pessoas".

Mas permanecia a questão: como se mede algo tão subjetivo quanto a felicidade?

Agora, Kahneman, em colaboração com Alan Krueger, da Universidade Princeton, e o neuropsicólogo Ed Diener da Universidade de Illinois --conhecido como Doutor Felicidade--, está prestes a lançar um índice de felicidade.

"Estamos avançando para a criação do indicador confiável de bem-estar", explicou Alan Krueger ao La Vanguardia.

A questão não é anedótica. Os cidadãos ficaram muito mais caprichosos em sua busca da felicidade do que Bentham poderia imaginar. Apesar de o crescimento econômico ser a prioridade de todo governo, não está claro que os aumentos de riqueza econômica --o arquicitado PIB-- tragam mais felicidade. Nos Estados Unidos, a duplicação do PIB per capita desde 1955 coincidiu com uma redução de 20% dos que se dizem muito felizes.

A Espanha, uma das economias que mais crescem na Europa, registra um grau de felicidade menor que a média, apesar de as comparações internacionais serem cientificamente odiosas. Inclusive em muitos países em desenvolvimento, "os aumentos da renda nos últimos 50 anos não produziram qualquer melhora no grau subjetivo de satisfação", explica Kahneman.

Ele descobriu a mesma coisa em seus estudos da satisfação com a vida cotidiana nos Estados Unidos. Em seus chamados métodos de "reconstrução do dia", ele faz uma série de perguntas sobre o estado anímico durante cada atividade, desde as ligações telefônicas até o exercício físico, desde ver televisão até rezar.

Conclui que fatores como a qualidade do sono ou o estado emocional "são muito mais importantes para a felicidade do que circunstâncias gerais como a renda ou a educação".

"A renda real cresceu tanto desde a Segunda Guerra Mundial que hoje temos de averiguar o que mais existe no bem-estar", diz Andrew Oswald, o economista britânico que participou da conferência da AEA. Nos próximos anos "vamos ter um indicador de felicidade nacional bruta".

Mas em outras áreas a economia incide diretamente na felicidade. Oswald descobriu que enquanto os níveis absolutos de renda não influem muito na satisfação, os níveis relativos --o grau de desigualdade-- são um fator crucial.

Segundo seus estudos sobre os Estados Unidos, nos Estados rurais, como Kansas, existe uma maior desigualdade de renda e por isso "o cidadão médio é um pouco menos feliz que nas cidades". É uma conclusão que dá o que pensar, diante do consenso ortodoxo atual, em que a otimização do crescimento do PIB exige um sistema tributário menos redistributivo.

Além disso, segundo David Leibser, economista da Universidade Harvard, "muitos americanos, inclusive os de alta renda, trabalham muito e não são felizes". Mas segundo a ortodoxia econômica é exatamente o maior número de horas em que se trabalha nos Estados Unidos o que explica sua superioridade diante da Europa em crescimento e riqueza.

"Por difícil que seja medir a felicidade, me parece louvável definir no Estatuto da Catalunha que é preciso criar condições para que se possa alcançá-la", considera Leibser.

O sonho utilitarista de Bentham -- hoje embalsamado no University College de Londres -- teria sido um indicador tão objetivo de felicidade quanto a produção de sapatos. E, segundo o neuropsicólogo Brian Knutson, de Stanford, logo haverá uma medida da felicidade afetiva que é alheia à interpretação humana.

Graças aos avanços no estudo de atividades cerebrais --notadamente imagens de ressonância magnética e eletroencefalogramas--, será possível medir as "reações hedonistas" sem consultar os que as experimentam.

"Vai ser apaixonante para os economistas. Vamos medir se vale mais uma nota de cem dólares ou o sorriso de um membro do sexo oposto", afirma Knutson ao La Vanguardia. Conforto material e fatores afetivos são balanceados na "equação" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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