Rebeldes cingaleses recrutam órfãos do tsunami

David Dusster
Em Medan, Indonésia

O chefe da Unicef no Sri Lanka, Ted Chaiban, denunciou nesta sexta-feira (14/01) em Colombo que a guerrilha Tigres de Libertação da Pátria Tamil (ETTL) está recrutando crianças que perderam seus pais na catástrofe do tsunami, que no Sri Lanka, o segundo país mais atingido, deixou o terrível balanço de 31 mil mortos, 6 mil desaparecidos, 15 mil feridos e 482 mil desabrigados.

Chaiban disse que sua organização confirmou três casos de alistamento infantil na costa leste do país e que está negociando sua libertação com o ETTL. As crianças foram um terço das 160 mil vítimas fatais do tsunami de 26 de dezembro, segundo dados da ONU, e em algumas localidades indonésias, como Meulaboh, o mar levou praticamente toda a população infantil, deixando uma geração marcada para sempre.

Desde que começou a guerra civil em 1983, os Tigres Tamis, que querem a independência das províncias do norte e do leste --território equivalente a um terço do Sri Lanka--, de população majoritariamente da etnia tamil e religião hindu, se distinguiu por contar com meninos-soldados, a ponto de se calcular que havia mais de 2.500 no momento em que se negociou uma trégua em 2002, e que ainda mantinha cerca de mil em suas fileiras.

Dava Master, porta-voz do ETTL, refutou as acusações da Unicef, afirmou que os chefes do movimento haviam dado ordens para não recrutar menores de 17 anos e disse que a denúncia faz parte de uma campanha de intoxicação informativa do governo.

O padre Tily, responsável por um escritório de defesa dos direitos humanos no nordeste do Sri Lanka, também desqualificou as acusações, em declarações à Agência France Presse, e ressaltou que o ETTL não tem necessidade de meninos-soldados porque o cessar-fogo continua vigente, apesar de sua fragilidade.

Antes do tsunami o Sri Lanka não vivia em paz, mas tampouco em guerra. Mas pareciam insolúveis as diferenças entre as duas partes, que não concordavam com o objetivo de criar uma federação com um só país. O governo e os Tigres Tamis priorizaram as tarefas de resgate logo após a tragédia, mas a desconfiança e o jogo político voltaram a surgir.

A irritação do ETTL aumentou quando a presidente do Sri Lanka, Chandrika Kumaratanga, impediu que o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, visitasse a zona devastada, controlada pelos Tigres Tamis. A guerrilha, que tem seu quartel-general na cidade de Kilinochchi, mantém um rígido controle da região setentrional de Vanni.

O ETTL dirigiu a operação de emergência e ajuda humanitária nesse território, ao qual não tiveram acesso os delegados governamentais. O representante do Banco Mundial no Sri Lanka, Peter Herold, reuniu-se na sexta-feira com o líder tamil, apelidado de Thamilselvan, diante da irritação do governo do Sri Lanka, para avaliar os danos causados pelo maremoto e as necessidades de reconstrução na região.

A eficácia, rapidez de mobilização, recursos e disciplina da guerrilha para auxiliar as vítimas do tsunami confirmaram a capacidade organizadora do movimento, que funciona como um Estado paralelo e quis aproveitar a catástrofe para demonstrar sua solidariedade com a população civil, que sofreu a maior parte das 60 mil mortes que houve no conflito armado.

Mas, como qualquer guerrilha que mantém a luta armada de forma infrutífera durante décadas, os Tigres Tamis praticam a extorsão e os pedágios revolucionários, como o alistamento de crianças, que era uma exigência feita às famílias tamis antes do maremoto.

Quando a Unicef alertou na semana passada sobre o seqüestro de órfãos indonésios, Jacarta proibiu que os menores de 16 anos saíssem sozinhos da região de Aceh, a mais arrasada pelo maremoto.

O problema de Colombo é que não tem meios e influência para impedir o recrutamento de meninos, assim como para, se a ajuda internacional chegar exclusivamente a suas mãos, poder distribuí-la nas zonas controladas pelo ETTL se não chegar a um acordo com os rebeldes.

Isso seria a paz. O tsunami colocou o Sri Lanka diante do dilema de voltar à mesa de negociações que foi abandonada em 2003 ou cair novamente na guerra civil. Unicef acusa grupo Tigres Tamis de aproveitar tragédia humanitária Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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