'Não posso dizer que torço pelo Real', diz Ronaldo

Ketty Calatayud e
Dagoberto Escorcia
Em Madri

Pouco podia imaginar o doutor Ronaldo Valente quando trouxe ao mundo o terceiro filho de Sônia dos Santos Barata que seu nome se tornaria famoso graças a um dos melhores atacantes do mundo e um dos maiores jogadores do futebol moderno.

Ronaldo Luiz Nazário de Lima, nascido no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1976, o último goleador que teve o Barça (34 gols, na temporada 1996-97) e agora santo salvador do Real Madrid, é o grande artífice da recuperação da equipe branca depois de ter provocado o pênalti que deu a vitória a sua equipe na partida de seis minutos e conseguir os dois gols que valeram a vitória na última partida madrilenha.

O "Fenômeno" fala com o máximo respeito de sua passada fase azul-e-vermelha e profunda admiração por seu compatriota e amigo Ronaldinho. Leia a seguir à entrevista que o craque concedeu ao La Vanguardia.

LV - Assim como Ronaldinho, você sempre parece contente e feliz...

Ronaldo - Sim, sou muito feliz. Principalmente porque faço o que mais gosto, que é jogar futebol. Todos os dias quando acordo dou graças a Deus e à bola por tudo o que tenho e tudo o que sou, porque o futebol me ensinou muito. Só tenho motivos para sorrir.

LV - Mesmo quando o criticam? De que modo as críticas o afetam?

Ronaldo - Sou uma pessoa que aceita todas as críticas. Tento melhorar a cada dia para ajudar minha equipe, e as críticas quando são justas o ajudam a melhorar. Por exemplo, não é preciso ver as estatísticas para dizer que não sou bom arrematando de cabeça e preciso melhorar nisso, apesar de achar complicado... É preciso tirar sempre o melhor das críticas.

LV - Você acredita que aos 28 anos ainda pode ser melhor do que é?

Ronaldo - Sempre se pode melhorar. Se na última partida toquei duas vezes a bola e marquei dois gols, na próxima tentarei tocar três ou quatro vezes para ver se faço três ou quatro gols.

LV - Você não acha engraçado ler e ouvir que Ronaldo está gordo, que está fora de forma... e depois ser o que sempre faz a diferença?

Ronaldo - Não, não... na semana passada me aborreci. Meu forte não são as corridas de longa distância, e como fiquei por último saiu em duas capas, comentários na televisão, no rádio... que se a mão dura de Vanderlei... Depois vem a partida de seis minutos e na primeira bola que toquei, em uma jogada de velocidade que é o meu negócio, veio o pênalti. Acontece que estava em má forma e em cinco dias estava em uma forma impressionante e era o melhor. É incrível!

LV - A crítica é sempre igual, na Holanda, no Brasil, em Barcelona ou em Madri?

Ronaldo - Sim. Talvez na Itália sejam mais técnicos em seus comentários, em suas críticas... mas em todo lugar são parecidas.

LV - Você não acha que o Bernabeu nunca se entregou como o Camp Nou na sua época?

Ronaldo - Creio que o público do Bernabeu é muito mais exigente que qualquer outro.

LV - Não acha talvez que esse público aplaude com mais facilidade a grande corrida, o esforço físico, que o detalhe técnico?

Ronaldo - Não, creio que aplaude as duas coisas. O pessoal do Madrid quer uma entrega total e quer jogadores técnicos, e me parece certo.

LV - Às vezes parece que você sai do campo com cara de "não sei o que mais tenho de fazer para agradar"...

Ronaldo - Creio que com o tempo e com os gols receberei mais carinho. Acho que hoje gostam mais de mim que no primeiro ano e que no segundo.

LV - Se a torcida do Bernabeu é mais exigente, como você definiria a do Camp Nou?

Ronaldo - Eu passei só um ano lá, e foi um ano espetacular. Ali não havia partida com menos de 100 mil pessoas, mas é um público diferente. Aqui eles vêm, aplaudem ou vaiam depois de uma jogada... Creio que no Camp Nou o público participa mais. Gostaria que o Bernabeu também fosse assim, como um estádio brasileiro, onde as pessoas passam o tempo todo gritando e torcendo para o time. Se fosse assim, seria quase impossível ganhar uma partida no Bernabeu.

LV - Quer dizer que existe mais apoio ao jogador?

Ronaldo - Acho que sim.

LV - Quando você estava no Barcelona viveu a despedida de Bakero e chegou a comentar que se um dia saísse do Barça gostaria de viver essa emoção que sentiu. Acredita que conseguirá isso em algum time?

Ronaldo - Tomara. Mas para isso, como Bakero, é preciso passar muitos anos em um clube. Eu, o máximo que fiquei foram cinco anos na Inter. E dois deles fiquei sem jogar. Aqui estou há duas temporadas e meia. No final de minha carreira verei com que clube me sinto mais identificado, e espero que algum dia possa ter uma despedida tão boa como a de Bakero ou a de Zico.

LV - É muito diferente o Ronaldo que chegou a Barcelona com 20 anos e o Ronaldo de hoje?

Ronaldo - Bem, aprendi coisas nesse tempo, tenho mais experiência. Na época era muito jovem, tinha 20 anos, não tinha ganhado quase nada...

LV - Ainda tem sonhos para realizar?

Ronaldo - A Liga dos Campeões é meu sonho de cada noite. Em nível de clube e de seleção ganhei praticamente todos, menos a Campeões.

LV - Depois de ganhar o primeiro título de campeonato de sua carreira comentou que não pensava que fosse ter tantos problemas...

Ronaldo - Sempre haviam me contado a tradição de subir a La Cibeles, e não pudemos... Depois houve o do treinador, o de Hierro... Houve mudanças que pessoalmente não entendi e continuo sem entender.

LV - O que Barcelona deixou em sua vida profissional e pessoal?

Ronaldo - Em nível pessoal, amizades que continuo tendo hoje, uma experiência fantástica como jogador em uma grande equipe como o Barcelona e todos os gols que marquei...

LV - Hoje, com a perspectiva do tempo, o que representou o gol de Compostela em sua carreira?

Ronaldo - Foi incrível, um de meus melhores gols. Anos depois, quando o Barça completou o centenário, me enviaram um troféu por ter sido escolhido o segundo melhor gol da história do Barça, e o guardo em meu salão de troféus.

LV - E da cidade, guarda boas lembranças?

Ronaldo - Eu era muito jovem e não saía nunca (risos). Ia muito ao Planet Hollywood, e ao lado tinha um lugar com uma garotas incríveis que dançavam de biquíni. Me diverti muito em Barcelona.

LV - O Milan lhe traz más recordações por causa da lesão?

Ronaldo - Não, não, os três primeiros anos foram muito bons, marquei muitos gols, três segundos lugares... ganhamos a Uefa.

LV - A Inter fez uma aposta muito alta em você, não sente que lhe deve algo?

Ronaldo - Eles sempre se portaram muito bem comigo, assim como eu com eles. Tenho uma amizade muito boa com o presidente da Inter e falamos muito.

LV - Lembra-se da noite em que rompeu com o Barça?

Ronaldo - Lembro-me como se fosse hoje, estava brindando com champanhe e tínhamos feito uma reportagem com Pepe Gutiérrez da Antena 3. Me chamaram por telefone e disseram que não podiam aceitar algo que eles já tinham assinado. E nada, tudo voltou atrás. Depois de uma semana queriam assinar outra vez, mas eu já não acreditava em ninguém dali. Veio a Inter, pagou a cláusula e eu fui, de coração partido.

LV - Guarda rancor por isso?

Ronaldo - Não, rancor não, mas eu gostaria de ter ficado, embora depois a história, tal como aconteceu, também me agrade.

LV - Aprendeu muito com isso?

Ronaldo - No futebol se aprende muito. Há muito interesse, muito dinheiro para todos, para diretores, jogadores, clubes...

LV - O dinheiro é importante em sua vida?

Ronaldo - O dinheiro é importante na vida de todo mundo, mas não tem nada a ver com o prazer que o trabalho lhe dá. Para mim o futebol é como um hobby, e me pagam para fazer o que mais gosto.

LV - Você veio para Madri perdendo dinheiro?

Ronaldo - Perdendo bastante dinheiro.

LV - Seu amigo Ronaldinho diz que quer fazer história no Barça. Ele vai conseguir?

Ronaldo - Sem dúvida que sim, na verdade já está fazendo, ganhou o troféu de melhor jogador do ano. Ronaldinho tem tudo. É um grande jogador, um grande sujeito e um grande amigo.

LV - Escolheu bem, vindo para o Barça?

Ronaldo - Creio que sim, está em um grande time, um dos melhores.

LV - O que você mais destacaria nele?

Ronaldo - Sua técnica incrível. O que ele pode fazer com a bola nunca vi ninguém fazer, nem com a mão se pode fazer!

LV - E do Barcelona atual, do que você mais gosta?

Ronaldo - Na verdade gosto de tudo. Fora a última partida, este ano o Barcelona está jogando muito bem, com muitos jogadores próximos um do outro. Ataca com muitos, defende com quase todos.

LV - Você acredita que a virtude do Barça é seu coletivo e o problema do Madrid é exatamente o contrário, que tem muito boas individualidades mas falta força como grupo?

Ronaldo - Os balanços são feitos no final da temporada, mas não se pode dizer que isso seja um problema em uma equipe que nos últimos cinco anos ganhou quase tudo e continua com opções. O Barça sim, tem motivos para estar preocupado, porque faz anos que não ganha um título, fora a Copa Catalunha. Mas se podemos aprender algo com o Barça e imitá-los, como está jogando, o faremos, não há nenhum problema nisso. No futebol é preciso aprender sempre.

LV - Para você é bom que haja um treinador brasileiro no Madrid?

Ronaldo - Não me perguntaram sobre a possibilidade de que viesse um treinador brasileiro, mas eu gosto. Luxemburgo é um grande treinador, ganhou tudo no Brasil e tem muita gana de triunfar na Europa. É um treinador muito capaz, muito capaz.

LV - Se estivesse na situação do Barça, com 7 pontos de diferença, estaria nervoso com esse Madrid?

Ronaldo - Não por causa de como estão jogando, mas de qualquer maneira ainda falta muito campeonato e não se pode dizer nada. No ano passado, nesta altura, estávamos a 18 pontos do Barça e eles acabaram com 4 a mais que nós.

LV - Luxemburgo é o treinador de que o Madrid precisava?

Ronaldo - É um grande treinador, conhece tudo de futebol, é um grande estudioso e quer triunfar na Europa. Isso é o melhor. No Brasil ganhou cinco campeonatos e com a seleção também ganhou.

LV - Em quê o Madrid pode melhorar?

Ronaldo - Taticamente, em tudo. Aqui muitos disseram que no Madrid não se treinava taticamente desde a época de Capello, e desde que estou aqui nunca fiz nenhum treinamento tático, e isso falta no Madrid. Muitas vezes ganhamos com nossa qualidade técnica, decidimos uma partida com uma jogada individual, mas é preciso ter uma equipe ordenada e ganhar partidas também com jogadas preparadas, de estratégia; ter mais recursos.

LV - Você realmente se apegou às cores de algum dos clubes pelos quais passou?

Ronaldo - Sempre naquele em que estou dou o máximo de mim para a equipe. Na medida em que o tempo passa você também pega carinho. E isso me aconteceu com o PSV, com o Barça, com a Inter. E cada vez gosto mais do Real Madrid.

LV - Já se sente madridista?

Ronaldo - Bom, não posso dizer que sou madridista. Venho do Brasil e tenho meu time do coração que é o Flamengo, mas peguei muito carinho por essa equipe e dou o máximo de mim.

LV - Você tem a sensação de que o projeto do Madrid é um projeto diferente de tudo no mundo do futebol?

Ronaldo - Creio que é um grande projeto e que dá resultados: o melhor clube do mundo com os melhores jogadores. Todo mundo está pendente do que o Real Madrid faz.

LV - Dizem que é um vestiário complicado... que a relação entre os jogadores não é tão fluida como deveria ser.

Ronaldo - Isso é o que dizem, mas nos damos muito bem, dentro do vestiário não há nenhum problema, mesmo que seus companheiros não tenham de ser seus melhores amigos.

LV - Você sempre disse que queria ser um grande, e não um a mais. Como jogador, chegou aonde queria chegar?

Ronaldo - Quero continuar sendo o grande e continuar fazendo muitas coisas boas, e principalmente continuar me divertindo com o futebol, que é o que eu mais gosto.

LV - Todas essas imagens desanimadoras que temos visto no mundo, o que lhe sugerem? Sente-se um privilegiado?

Ronaldo - Creio que foi a coisa mais terrível que já vi, mas também é preciso destacar a solidariedade de todo mundo, e isso é muito bonito, como as pessoas estão ajudando essa gente.

LV - Hoje você vive um momento pessoal muito especial, está apaixonado... Toda essa felicidade interior se transmite no campo?

Ronaldo - Sim, sem dúvida. Se você está bem fora do campo, entra mais tranqüilo e faz melhor os deveres.

LV - Daniela é o amor de sua vida?

Ronaldo - Espero que sim, que seja o amor de minha vida.

LV - Por isso você comemora assim os gols?

Ronaldo - Sim, eu os dedico a minha namorada mostrando a tatuagem que tenho no pulso com as iniciais dos dois, mas às vezes me engano de mão.

LV - E seu filho Ronald, joga bem?

Ronaldo - Não, ainda não gosta muito de futebol, mas logo vai gostar.

LV - Das três competições que o Madrid pode ganhar, você escolheria a Campeões?

Ronaldo - Espero poder ganhar as três, mas sim, se tiver que escolher preferiria a Campeões.

LV - O que deseja para o Barça contra o Chelsea de seu amigo Mourinho?

Ronaldo - Desejo o melhor, não sou desses que desejam nada de mal a ninguém.

LV - Quando era ajudante de Robson, imaginava que Mourinho chegaria a ser o treinador da moda na Europa?

Ronaldo - Na verdade não. Começou como intérprete e acabou sendo um dos melhores técnicos... ele é bom, mas também é preciso ter sorte. "O time da minha vida é o Fla; saí do Barça com o coração partido" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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