Itália exige vigilância sobre os produtos da China

Maria-Paz Lopez
Em Roma

O mercador veneziano Marco Polo pouco poderia imaginar, quando no século 13 comercializava sedas com a China remota e favorecia o estabelecimento de relações pioneiras entre a República de Veneza e a corte mongol de Kublai Khan, que um dia as roupas e os tecidos produzidos nesse confim da Ásia fariam tremer os fabricantes italianos e europeus.

Em 1º de janeiro, o comércio têxtil mundial foi definitivamente legalizado, e com isso se abriu passagem rápida para as calças, pulôveres, sutiãs, saias, meias e sapatos procedentes da China, a preços supostamente imbatíveis para as pequenas e médias empresas têxteis que são maioria na Itália.

Convencidos de que concorrer com a "roupa de batalha" chinesa, confeccionada por um custo muito menor que a européia, oferece poucas perspectivas de sucesso, fabricantes e sindicatos do setor concordaram que a solução é reforçar a etiqueta "made in Italy" e suas conotações de alta qualidade, e exigir do governo italiano e da União Européia que vigiem qualquer possível infração dos rivais orientais.

Um nome de peso como o de Paolo Zegna, presidente da associação Sistema Moda Itália, que reúne 80% da indústria italiana de tecidos, encabeça a lista de signatários da carta que o mundo têxtil enviará no final do mês para Roma e Bruxelas.

"O recente ingresso da China na Organização Mundial do Comércio acrescentou uma dimensão nova e grave ao desmantelamento das cotas. Em alguns produtos já legalizados, as exportações chinesas para a Europa triplicaram em volume, enquanto seus respectivos preços caíram 75%.

Isso não pode ser considerado um comércio normal, e também não pode ser aceito como fruto de condições socioeconômicas particulares das empresas envolvidas (dumping, venda abaixo do custo)."

Em resumo, o setor têxtil italiano não quer que se repita o que aconteceu com a liberalização parcial de 2002, que incluía luvas, parkas, pulôveres e roupas para bebês, entre outros produtos, e que pegou a Europa desprevenida, pois aos acordos de liberalização têxtil de Marrakech de 1994 se sobrepôs um acontecimento inesperado: a entrada da China na OMC no final de 2001.

O calendário não perdoa, e em menos tempo do que dura um bom pulôver, fabricantes e consumidores se fixaram em 2005 com expectativas muito diferentes.

Segundo um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma família européia composta por pai, mãe e dois filhos poupará 270 euros por ano em roupas e calçados. A coisa é menos agradável para os fabricantes e trabalhadores: na Itália há 68 mil empresas têxteis, com 570 mil empregados (257 mil na Espanha), que vêem seu futuro em perigo.

Teme-se uma explosão de importações da China, que segundo estimativas da União de Industriais de Prato, o principal pólo têxtil da Itália, poderiam aumentar seu volume em 29,3% (roupa confeccionada) e 12% (tecidos).

Por isso, enquanto desfilam nestes dias nas passarelas de Milão as roupas e acessórios da moda masculina do próximo outono-inverno, fabricantes e sindicatos colhem assinaturas para exigir que Bruxelas proteja a legenda "made in Italy".

Os empresários italianos pedem a UE que verifique se, nas importações extracomunitárias, ocorrem aumentos anômalos de volume ou reduções drásticas de preços, para poder ativar as cláusulas de salvaguarda, que combatem as práticas comerciais desleais, e que exija da China garantias sociais para os trabalhadores e proteção para o meio ambiente. E sobretudo que seja obrigatória uma etiqueta "made in..." que identifique a origem do produto.

Exigências à parte, "a solução para uma China demasiado invasiva", afirma Valeria Fedeli, secretária-geral do maior sindicato do setor, Filtea-Cgil, "está na transparência, na pesquisa, inovação e internacionalização das pequenas e médias empresas".

Trata-se de um trabalho de fundo que, como no caso do antigo setor têxtil de Prato, com tradição em lãs desde o século 13, inclui vocação de qualidade, redimensionamento e marketing. A União de Industriais de Prato pretende criar um fundo de ajuda para investimentos em renovação e alianças entre pequenas empresas, para que, por exemplo, ofereçam às confecções um produto mais acabado: o tecido já lavado, passado ou cortado. Também se aponta para o modelo da espanhola Zara, capaz de produzir e colocar em grande velocidade nas lojas a roupa da temporada.

E, se for o caso, estão dispostos a transferir a produção para a própria China, algo que não agrada ao vice-ministro de Atividades Produtivas, Adolfo Urso. De fato, o grupo Ermenegildo Zegna abriu em 1991 sua primeira loja em Pequim, e já tem 50 em todo o país, com o que demonstrou que a China não é só um concorrente temível, mas também um mercado muito guloso, sem possível comparação na história. Europeus criticam liberalização do comércio, a qual ajuda chineses Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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