Terroristas e políticos aproveitam rituais do islã

Tomas Alcoverro
Em Beirute

Como todo ano, cerca de 2 milhões de muçulmanos de todos os países do mundo celebram a peregrinação ou "haj" a Meca e Medina, os dois lugares santos do islã. Como todo ano, essa grande festa religiosa fica impregnada de politização, devido à confusão dos poderes temporal e espiritual na fé muçulmana.

As palavras do grande mufti [líder religioso] da Arábia Saudita no monte Arafat ressoaram ontem pelos alto-falantes dos acampamentos preparados para os peregrinos: "Oh, povo do islã, campanhas militares, ideológicas, econômicas e informativas foram promovidas contra nossa nação, qualificada de terrorista. Nos chamaram de retrógrados, violadores dos direitos humanos e da liberdade, quando nossa religião prega a justiça e a igualdade".

O grande mufti denunciou ontem "os falsos argumentos sobre direitos humanos utilizados com o pretexto de explorar e dominar a nação islâmica" e advertiu os dirigentes muçulmanos sobre os "inimigos que tentam provocar divisões e lutas internas".

O chefe do grupo radical Ansar El Shuna, que reivindicou vários atentados no Iraque, enviou uma mensagem aos muçulmanos por ocasião da festa, acusando os americanos de "serem caubóis encharcados no vício, na corrupção e na pornografia, e espoliadores das riquezas muçulmanas".

A peregrinação, ou "haj", um dos cinco pilares do islamismo, não é somente um conjunto de cerimônias religiosas, algumas delas de origem pagã, adotadas pelo profeta, mas uma manifestação política e social na vida do povo muçulmano.

O governo de Riad estabelece cada ano uma cota de peregrinos para cada país, para tentar controlar essa imensa concentração. Houve tempo em que partidários ou agentes da República Islâmica do Irã fomentavam violentas manifestações, como a de 1979, na qual foi ocupada a grande mesquita de Meca, causando a morte de cerca de 300 pessoas entre peregrinos e militares enviados para desocupá-la.

Em 1987 e 1989 também ocorreram incidentes graves. Em outras ocasiões, devido à asfixia ou às correrias provocadas por problemas nos sistemas de ventilação ou por incêndios nas instalações de recepção, morreram milhares de peregrinos. O haj é sempre um quebra-cabeça para os governantes. Não só precisam estar em guarda para possíveis manifestações ou distúrbios de caráter político, como devem atender às necessidades sanitárias dessa imensa massa de visitantes.

Depois das sete voltas à pedra da Kaaba, no centro da mesquita de Meca --o umbigo do islamismo--, a subida a pé ao monte Arafat é o rito culminante da peregrinação, antes da Lapidação do Diabo, ou o sacrifício de um camelo, um boi ou uma ovelha em Medina, em memória da imolação não consumada do filho do profeta Abraão. Ter efetuado a peregrinação concede aos muçulmanos um alto status, não somente religioso como também social. Mais de 2 milhões visitam os lugares santos na Arábia Saudita Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos