Reformas políticas sacodem o Oriente Médio

Isidre Ambros
Em Barcelona

O mundo árabe se move impulsionado sem dúvida pela iniciativa dos Estados Unidos de democratizar toda a região do Oriente Médio e os países do golfo Pérsico. Talvez ainda não se caminhe para uma democracia plena, mas há uma maior abertura dos regimes. É o que se depreende dos movimentos registrados em boa parte dos países da região nos primeiros meses do ano.

O ritmo dos movimentos não é igual em todos eles, como também não é o ponto de partida. Mas todos concordam em avançar para a democracia. Primeiro foram as eleições municipais parciais e presidenciais da Autoridade Nacional Palestina, em dezembro e janeiro passados, que continuarão com outras municipais e legislativas este ano.

Seguiram-se em janeiro a realização de eleições no Iraque, apesar do clima bélico. Em fevereiro, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, pediu uma reforma constitucional que abriria caminho para eleições presidenciais e nesse mesmo mês ocorreram as primeiras eleições municipais parciais na Arábia Saudita.

Paralelamente a esses processos eleitorais, a oposição no Líbano iniciou um movimento pacífico de protesto contra a ocupação síria, depois do assassinato do primeiro-ministro Rafiq El Hariri, já que considera que os serviços secretos do país vizinho e o governo pró-sírio estão por trás do atentado fatal.

Os protestos, unidos à pressão internacional liderada pelos Estados Unidos e a França, levaram o presidente sírio, Bashar el Assad, a anunciar a retirada de suas tropas do território libanês em duas etapas.

Apesar das evidências de que boa parte dos países árabes estão dando passos para a democracia, nem todo mundo atribui isso igualmente às mesmas causas.

Os neoconservadores americanos salientam o ponto de inflexão na reeleição do presidente George W. Bush. Até então era questionado seu projeto de construção do Grande Oriente Médio democrático, seu último passo no esquema de combate ao terrorismo nessa região do mundo. Um combate que começou depois do 11 de Setembro e continuou com a guerra do Iraque. Agora alguns crêem que ele alcançará seu objetivo.

Essa teoria é compartilhada pelo líder druso libanês, Walid Jumblatt, que declarou recentemente que, se Bush conseguiu que o Iraque inicie um processo democrático, que a Síria abandone o Líbano e os líderes iranianos aceitem paralisar seu programa nuclear, algo que por enquanto não conseguiu, pode-se convir que o presidente Bush consegue os objetivos a que se propõe.

Diante desse cenário, algumas vozes nos Estados Unidos começam a comparar a iniciativa de Bush de implantar a democracia no Iraque, como um primeiro passo para democratizar a região, ao papel de Ronald Reagan nos anos 80 na democratização dos países do Leste Europeu.

Outras vozes reconhecem a importância do projeto de Bush, mas minimizam seus efeitos. Acreditam que o grupo de países que se "liberalizou" nos últimos meses também levou em conta a oposição interna, e que apesar de tudo são passos muito incipientes.

Dois países-chave, como Egito ou Arábia Saudita, parecem demonstrar isso. No caso egípcio, Mubarak limitou-se a pedir a redação de uma emenda constitucional que permita eleger o presidente dentre vários candidatos, por sufrágio universal.

Exatamente nesta segunda-feira (14/03) o governo egípcio libertou o líder de oposição e deputado Ayman Nour, que pretende se transformar no primeiro rival de Mubarak em um quarto de século.

No caso saudita, o movimento consistiu na realização de eleições locais parciais, sem partidos políticos e sem o direito de voto às mulheres. Outros países, como Bahrein, Qatar ou Iêmen, implementaram a reforma de seus regimes antes que Washington promovesse seu projeto democratizante para o mundo árabe.

Uma iniciativa que em Israel é qualificada de perigosa e arriscada e que só é factível se os Estados Unidos conseguirem dobrar o Irã. Segundo fontes israelenses, essa vitória permitiria avanços significativos na região e evitaria que a influência de Teerã se estendesse a todo o âmbito xiita, como ocorreu nas recentes eleições iraquianas, e a movimentos como Hezbolah e Amal.

Essas fontes opinam que só então outros países, como a Síria, que hesitam entre seguir a via da resistência e a democrática, se decidiriam a abraçar esta última.

A Líbia, por sua vez, iniciou uma política de gestos em direção ao Ocidente, conseguindo que seu líder, Muamar Khadafi, seja mais bem visto pelos líderes europeus. Para isso, Khadafi assumiu o atentado de Lockerbie e renunciou a seu programa militar atômico secreto e a suas armas químicas e biológicas, assim como a patrocinar o terrorismo. Mas não há qualquer sinal de reforma democrática interna. Israel considera o Irã o país chave para a democratização da região Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos